segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

(5) Uma Luz na Escuridão

Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas.
Subitamente sentiu um pequeno tremor, depois um barulho que mais parecia um trovão a descer sobre a sua cabeça. Encostou-se rapidamente à parede no preciso instante em que um monte de pêlo lhe caiu aos pés com um baque seco. A luz entrou em cascasta cegando tudo. O que quer que fosse que estava ali à sua frente, tinha caído num dos buracos de respiração da sua toca, enchendo o túnel de neve fofa.
Pintas viu-se subitamente mergulhado no seu pior pesadelo - a neve gelada queimava-lhe a ponta do focinho e as patas e ele já não conseguia respirar. Sentiu umas mãos quentes a tactearem-lhe o corpo dormente. Subitamente foi puxado pelos bigodes até ao ar quente do túnel. Inspirou profundamente e tentou adaptar a visão àquela luminosidade. Ao seu lado, meio oculto pela sombra, estava um animal estranho...e, pensou ele, feissímo. Fez um esgar de repulsa - era uma mistura de rato gigante, coelho com dentes XL e marmota com unhas a precisar de manicure. Ele estava paralisado por aquela visão. Moly estendeu-lhe uma pata e disse-lhe num tom caloroso, meio fanhoso "Olá amigo, xê bem vindo".
Isto foi demais para os nervos do Pintas. Sentiu a cabeça a rodopiar ao mesmo tempo que a escuridão lhe invadia os olhos. O seu corpo cor de chocolate de leite caiu, pesado, para trás.
Moly, a toupeira, pensou com um ar desgostoso "Bolas, xerá que está morto?"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Experimenta...


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



(Carlos Durmmond de Andrade)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

(4) Uma pata na neve, um espinho no coração

Espreitou por entre a folhagem do arbusto e viu no ar um rodopio das últimas folhas vermelhas que o vento arrancara do grande plátano. A chuva tinha começado a cair. Ele detestava água e tudo o que se parecesse com ela. Assim são os gatos e o Pintas, nisto, não era diferente. Sacudiu o pêlo já ensopado e sentiu um frio estranho. Voltou a enroscar-se, o focinho pousado sobre as patas, o olhar pousado nos pinheiros já nevados do outro lado do riacho. Fechou os olhos e respirou fundo, quase como um suspiro. Fechou os olhos e viu aquela capa de penas negras num corpito frágil de andorinha. Fechou os olhos e ouviu-a chilrear ao seu ouvido aquelas lenga-lengas que ela passava vida a dizer. Agora soavam-lhe estranhamente quentes e reconfortantes, embalavam-no. Na altura não conseguira entender. Mas claro, ela era um pássaro e a ele faltavam-lhe as asas para sonhar com a neve, branca como o peito dela. E como era bonito aquele peito, com pequenos fios prateados como que a desenhar um mapa do mundo, um trilho até ao coração. O frio fê-lo arrepiar. Vinha de dentro, do corpo vazio. Devia ter-lhe dito que não gostava de água. Devia ter-lhe contado que sempre sentira medo de ter medo, de falhar, de falhar a neve e tudo o que ela mais desejava. Devia ter-lhe dito que não era mais que um gato vadio, que correra meio mundo para ganhar aquela pelagem de rei, cor de chocolate de leite.
Apenas a chuva quebrava o silêncio do bosque, esvaziando-lhe o pensamento e deixando apenas duas breves ideias – ficar ali, enroscado, sem nada a esperar senão as patas secas e o regresso do bom tempo, ou partir. Partir para enfrentar a chuva, as poças no caminho, o frio que enregela os músculos, a neve alta que quase o fazia desfalecer só de pensar, partir para enfrentar o medo, partir para o calor dos olhos dela. Sim, o calor dela parecia-lhe infinitamente melhor que toda a pelagem seca deste mundo.

Amanhecer


O dia começa. Vejo ao fundo, sobre o rio, o primeiro tom azul-rosa a despontar. Ainda está escuro e o frio enche-me as mãos. Inspiro profundamente o fresco e o silêncio da madrugada que sempre me acalmam, deixando um torpor na alma e uma lucidez no corpo. É o que se quer – a anestesia.
Hoje não sei. Não sei nada. Mas hoje, particularmente, há uma dúvida enorme, um ponto de interrogação gigante dentro da minha cabeça, querendo alastrar para o resto do corpo como uma doença maligna.
Hoje nem sei. Nem sei se me viro a norte ou a oeste, porque a agulha da minha bússola interna não gira, ou gira descompassada como o meu coração. Giro sobre mim, e para cada lugar que olho vejo o mesmo – eternamente familiar, constantemente estranho. Ainda não pertenço aqui… sei que nunca irei pertencer aqui. Invade-me a amargura, aquele gosto agridoce deixado pelo tempo passado em lutas constantes, em mãos que dão e ficam vazias, em sentimentos que se mostram e não têm espectador. Com que sentido?
Leio num pacote de açúcar que me servem com o café, uma frase retirada de um livro de José M. Saraiva: “Que estranho destino é o meu que apenas me consente paixões ardentes e me faz esgotar em amores improváveis.”