sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

...e a 23 de dezembro foi Natal


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Porque é que o meu coração não se cansa?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há de passar entristecendo-se.

Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa, esta moínha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.

Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sábado, 17 de setembro de 2016

Amanhecer



Passaram já duas semanas. Acordei cedo nessa manhã. Aliás, mal consegui dormir a pensar como seria ter-te finalmente em minha casa, junto das minhas coisas. Junto das coisas que construí com um único propósito, partilhá-las contigo. Não, não é exagero. Quando coloquei o papel de parede com desenhos de árvores na casa de banho pensei se irias gostar de ter um pouco da natureza dentro de casa. Na cama pus um colchão dos mais modernos para que te sentisses confortável. A casa é pequena mas sempre achei que poderia ser o nosso espaço. Quando arranjei a casa do Alentejo para me livrar finalmente do salitre, achei que seria assim que tu gostarias de viver a tua velhice, numa pequena casa de campo branca e azul, rodeada de conchas, estrelas-do-mar e barcos, de velas e de um dossel sobre a cama para proteger as nossas noites. Imaginei-me ajoelhada na terra a arranjar o jardim e ver-te entrar pela porta. Foi sempre assim que imaginei o nosso reencontro.

Mas o nosso reencontro não foi assim. Não foi bem como eu imaginei. Não podia ser. Ter-te ali sentado no sofá a sorrir para mim pareceu-me pouco natural. O beijo que te dei não foi correspondido com a paixão que esperava. Pareceu-me que tiveste medo de me tocar... logo a mim que tanto tempo sonhei com as tuas mãos no meu corpo. Senti que não era aquilo que querias, que estavas desconfortável. Deixaste-me a tarefa de imaginar as razões desse desconforto e acredita que me passou muita coisa pela cabeça. 

Quando aquele par de horas terminaram senti-me terrivelmente mal. Não porque achasse que estava a trair alguém ou porque estar contigo era moralmente errado, mas porque de alguma forma percebi que nunca iria ter aquilo que desejava. E não eram encontros fortuitos que eu desejava para o resto da minha vida. Tu nunca irias poder ficar comigo porque se dantes te partilhei com uma mulher, agora estava a partilhar-te com outra. É uma sensação terrível ser a segunda escolha. É terrível perceber que, se realmente me amavas, fui sempre eu a pessoa que traíste e não a elas. É terrível achar que poderia ter feito mais por ti do que elas, que poderia ter ajudado ou influenciado mais a tua vida. Por ti, teria feito greve de fome, greve de sexo ou, pelo contrário, ter-te-ia esgotado de tanto nos amarmos. Mas este era o meu sonho, não o teu. Este já não é o meu tempo, mas o tempo de outra pessoa. Sei que pareço presunçosa com estas palavras, mas para mim, que gosto de ordem e equilíbrio, ver-te tão mais forte e pensar na saúde que te pode faltar, mas sobretudo saber que tens uma família ao teu redor que simplesmente permitiu que te tornasses como um pedaço de vidro na areia da praia, deixa-me enraivecida. Essas arestas vão ferir-te mais a ti que aos outros... não permitas que isso aconteça.  

Por outro lado acho que entendo tanto a tua atitude como a deles. Tu, porque quiseste fazer toda a gente feliz, para tentar compensar algum mal ou erro; eles, porque preferiram ver-te tranquilo e escolheram não agitar muito as águas. Calculo que a história seja mais ou menos assim, porque é assim também na minha vida, mesmo que com consequências diferentes. Houve momentos em que simplesmente não comia, achava que a minha fonte de sustento não vinha daí. Virei-me para o trabalho no escritório, demasiadas horas a fio. Ao fim de semana só queria subir montanhas, depois partir pedra, serrar madeira, construir alguma coisa que me fizesse sentir que a vida tinha sentido. As pessoas à minha volta diziam-me para ter calma, para me alimentar melhor, etc. etc., mas na realidade eu sabia fingir muito bem. Sou feliz assim, dizia-lhes. Sou feliz assim, dizia a mim própria. Quando o que eu mais desejava era que tudo acabasse depressa. Tudo. Para que noutro lugar, noutro tempo, pudesse recomeçar a minha vida contigo. Nunca pensei pôr fim à vida, mas nestas circunstâncias a morte não me parecia uma coisa tão má. Mais uma vez, estarei a ser demasiado presunçosa ao achar que te revês neste comportamento, porque talvez agora estejas realmente feliz, e se é verdade que somos o resultado das nossas escolhas, então é porque fizeste as escolhas certas.

Esta será a última vez que vais ouvir falar de mim. É pelo menos isto que desejo. Tinhas razão quando dizias que se nos voltássemos a encontrar não iria ser apenas conversa cordial e amizade. Ver-te outra vez junto a mim, sentir novamente o cheiro da tua pele, os teus braços a envolver-me, fez renascer em mim o sonho que tantos anos alimentei. Fez-me acreditar, nem que por breves instantes, que ainda poderíamos ter uma vida a dois. Apenas por breves instantes.

Não escrevo isto por estar chateada com algo que tenhas dito ou feito. Quanto muito seria por aquilo que não disseste ou não fizeste. Não estou chateada. Apenas admito a derrota neste capítulo da minha vida. Uma coisa, no entanto, é interessante, pois algo inesperado se apresenta diante de mim - não sei o que fazer daqui para a frente! O facto de não poder sonhar mais contigo permite-me uma nova oportunidade de sonhar com outras coisas. Sonhar com novas aventuras, quem sabe daqui a uns meses sonhar com um novo emprego, muitos livros, montanhas mais altas, mares sem fim, novos conhecimentos. Gosto de pensar que o mundo é uma taça cheia de factos desconhecidos e eu ainda só beberiquei umas gotas.

Tenho uma coisa boa, sou profundamente optimista e não há limites quando sonho. Por isso termino a pedir-te que não vejas estas minhas palavras como falta de amor por ti. Pelo contrário. Foi por sempre te ter amado tanto que te deixei seguir o teu caminho, mesmo que a minha esperança nunca tenha morrido. Foi por te amar que tentei entender-te, que procurei perdoar-te as falhas, que em parte também foram minhas, e agradecer-te no mais íntimo de mim tudo o que de bom trouxeste à minha vida. O fazer o bem, a partilha e a esperança, foram algumas dessas coisas.
O meu coração é um mundo e o meu amor por ti perdurará enquanto o mundo resistir.



terça-feira, 9 de agosto de 2016

O beijo


Vem.
Espero-te todos os dias e todas as noites.
Achas-me imprudente? Não sou imprudente. Mas não consigo ser sensata quando se trata de ti. Tomo o peso às consequências dos meus atos. Mas também sei de cor o peso da dor de não estar ao teu lado. Comprime-me o peito e não me deixa respirar. Acompanha-me há muito anos. Não a suporto. Não suporto essa dor que é tão palpável que me causa náuseas. Tento não pensar em ti. Ando há quinze anos a tentar não pensar em ti. Seria de esperar que te tivesses diluído na minha memória. Mas não. Lembro-me da excitação que sentia ao te esperar e do conforto que me davas quando estávamos juntos. Como se fosse hoje, como se estivesses mesmo ali ao alcance da minha mão. Não te chego a tocar. Tu não estás lá. A dor dessa ausência não desaparece. Também a sentes? 
Não posso fazer mais que te esperar. Não posso fazer mais que amaldiçoar o dia em que te vi pela primeira vez, sentado à minha frente naquela mesa de restaurante. Não posso fazer mais que acreditar que os erros que cometemos no passado serão o cimento do nosso futuro brilhante. Não posso fazer mais que sonhar com um futuro onde a última imagem que verei antes de adormecer é o teu rosto a sorrir para mim. E assim adormeço. Adormeço muitas vezes a pensar em ti e quando acordo estou cheia de ti e de desejo. Desejo beijar-te a boca, o peito, o sexo. Imagino as tuas mãos a conquistarem o meu corpo, a tomarem-me para elas. Mais uma vez sinto o peso, mas agora é o peso do teu corpo quente sobre o meu. Possuo-te e deixo-me possuir. Toma-me por inteiro.
Sempre fui tua.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Tudo vale um instante


Onde estás, faz um som
Chama o meu nome dentro ou fora de tom
Diz-me que guardas um pouco de mim
Na carteira um retrato, uma flor no jardim

A estação já mudou
Levaram os móveis e o sol lá fechou
Para onde foi, para lado nenhum
Lugar tão deserto esse lugar comum

Caem as folhas no livro maior
E corre o tempo a secá-las lá dentro

Deixa estar
Deixa ser
Tudo vai num instante
Amanhã
Sem saber
Vai parecer tão distante
Resta só
Adormecer
E sonhar sem te ver
Outra vez

Não procures o meu rosto espantado
Essa já não sou eu
Mistério do amor
O coração fui trair
Abri-o ao meio pra te deixar
Para onde foste, quem sabe onde vai
Perdido lá dentro a arrastar-se no tempo

Deixa estar
Deixa ser
Tudo vai num instante
Amanhã
Sem saber
Vai parecer tão distante
Resta só
Adormecer
E sonhar sem te ver
Outra vez

E quando nada restar
Vou adormecer
E talvez vá sonhar, sonhar
Só pra te ver
Só pra te ver

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O que foi que fizemos com as nossas vidas


Queria tanto ter-te aqui comigo esta noite
Roubar-te um beijo
Doar-te o meu corpo
Encostar-me no teu ombro
enquanto me contas histórias da tua infância
e os sonhos que ainda guardas em ti
Sentir as tuas mãos a segurar-me o rosto
e os teus olhos a dizerem-me "quero-te"
Faço-te festas nas costas, suavemente, como tu gostas
Sussurro-te ao ouvido palavras de amor
como uma canção de embalar
Vejo-te adormecer 
e fico ao teu lado a ouvir o bater do teu coração
e a desejar que todas as noites fossem assim.