
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
(7) Além do horizonte

O som parecia mais um rosnar que um miado. Os olhos brilhavam amarelos na escuridão, lançando raios invisíveis de tensão e maldade. Cheirou o ar. Algo agradável lhe despertou a atenção e ele lambeu demoradamente o focinho para apanhar todo aquele aroma que lhe fez crescer água na boca. Decidiu-se por um arbusto alto que crescia junto à escarpa. Sentou-se e começou a alisar vaidosamente o seu pêlo negro. A espera não seria longa.
A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.
Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.
A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.
Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.
Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.
A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.
Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
Enquanto tentava esvoaçar, a andorinha desviou o olhar para a massa escura que caia na água. Não era um gato, eram dois. O reconhecimento chegou-lhe tarde - já não conseguiu ver a lágrima que nascia daqueles olhos cor de âmbar que agora se afastavam para o azul profundo. Quando a andorinha atingiu a beira da escarpa ainda tremia. Deixou cair o corpo para o lado exausta. Fechou os olhos. Talvez assim pudesse reter a lembrança daquele olhar e daquele pêlo cor de chocolate de leite. Sentiu o ar encher-se de cheiro a leite morno, anestesiando-lhe os sentidos. A andorinha fechou os olhos para não mais os abrir. A lembrança do Pintas não voltaria a fugir-lhe, afogar-se-ia dentro dela.
A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.
Epílogo
A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.
Epílogo
Flood mergulhou velozmente seguindo o cheiro. Com a destreza de um falcão e a força de uma águia travou o corpo ao atingir a espuma revolta, enquanto as garras se fechavam sobre o lombo castanho ensopado.
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.
Fim
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.
Fim
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Aquilo

A Sra. e o Sr. X viviam bem, não sei se felizes, mas bem. Acomodados na sua vida habitual, tranquila e pacifica. No entanto, dentro da Sra. X algo crescia. Desenvolvia-se dia a dia, alastrava do coração à ponta dos pés, do coração à cabeça. Saia muitas vezes pelos poros e ela não entendia o que era. Lavava compulsivamente o corpo para sacudir aquilo, como transpiração. Ganhava forma nos cabelos, que ela desesperadamente tentava alinhar. Na verdade aquilo não crescia. Na verdade aquilo sempre tinha estado dentro dela, desde a primeira vez que abrira os olhos ao mundo, desde a primeira inspiração. Uma máquina de matar corações. Latente. Sem o saber, a Sra. X mantivera-o trancado, como um ser ignóbil. Mas aquilo não se detinha. Circulava dentro de si como um fantasma, como uma corrente de impulsos eléctricos no seu cérebro, num bailado sincronizado, hipnótico. Aquilo crescia, agora. Já nada o detinha.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Aeroporto

Sou como um aeroporto.
As pessoas passam pela minha vida com as suas bagagens, quase sempre caoticamente arrumadas... depois partem quando encontram o seu destino. Sempre de passagem.
O que fica é uma certa melancolia e ao mesmo tempo uma sensação de contentamento, porque geralmente partem com excesso de bagagem.
.
Mas há momentos em que gostava de ser como um avião e ter um aeroporto onde aterrar.
Em noites frias como esta, imagino como seria bom ter alguém a quem abraçar antes de fechar os olhos e adormecer.
.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

É março ou abril?
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.
De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?
É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?
É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.
De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?
É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?
É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.
(Eugénio de Andrade)
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
(6) Um Mundo Pequeno

Passaram-se alguns dias, muitos dias talvez. Demasiados, para quem sentia o coração impaciente, a borbulhar como um caldo num caldeirão, latente, pronto a explodir a qualquer pequeno rastilho. Insaciável. Mas ali estava-se bem e aquele lugar sombrio e quente transmitia-lhe calma. Moly arrancara-o do torpor quando ele estava prestes a deixar-se afogar naquele mar de neve. Deixara-o ficar ali, na sua toca, até se recuperar. Pintas dormitava quase todo o dia enrolado sobre si mesmo, num amontoado de penas e feno que ela tinha arranjado. No seu sono via-se muitas vezes a contar as penas, a analisar cada cor e cada filamento, a sentir o seu cheiro, tentando encontrar alguma que lhe fosse familiar. Por vezes os seus sonhos transformavam-se em pesadelos e ele só via asas e garras e água, e acordava sem conseguir respirar. Nessas alturas, Moly encostava-se a ele para o acalmar, murmurando canções que falavam do seu mundo de grutas majestosas, de túneis infinitos e lagos de água negra cheios de pedras brilhantes como o sol, e ele voltava a adormecer tranquilo e perdido nesse mundo sombrio e mágico. Durante esses dias desenvolvera também uma estranha obsessão - dava por si constantemente a lamber-se. Lambia cuidadosamente cada centímetro do seu pêlo. Lambia furiosamente. Lambia como que a tentar limpar todas as memórias que lá viviam, enterradas no seu pêlo quente. Lambia como que a tentar encontrar uma réstia dos cheiros perdidos - do arroz-doce, dos juncos junto ao ribeiro, do limão, da areia do deserto...do peito dela. Depois parava, quase que de imediato, enquanto um pensamento lhe varria o coração. Sabia que nunca mais iria encontrar a sua Andorinha. Provavelmente não. Talvez se o mundo fosse mais pequeno, do tamanho de um bosque. E no entanto, quando pensava no pequeno coração dela, tão pequeno como um caroço de cereja, lembrava-se que muitas vezes também se perdia dentro dele.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.
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