segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Os guerreiros da luz reconhecem-se pelo olhar.
Estão no mundo, fazem parte do mundo, e ao mundo foram enviados sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem correctamente.
Os guerreiros da luz sofrem por tolices, preocupam-se com coisas mesquinhas, julgam-se incapazes de crescer.
Os guerreiros da luz, de vez em quando, crêem-se indignos de qualquer bênção ou milagre.
Os guerreiros da luz, com frequência, interrogam-se sobre o que fazem aqui.
Muitas vezes acham que as suas vidas não têm sentido.
Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque se interrogam.
Porque continuam a procurar um sentido. E acabarão por encontrá-lo."


(Paulo Coelho in Manual do Guerreiro da Luz)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Perfil


Porque hoje está um dia bonito.
E tenho vontade de cantar.
E sinto que dentro deste corpo não cabe nem metade do que sou,
nem do que tenho para dar.
Porque há um sorriso no meu rosto com sabor a fruta madura
Rebelde, gato bravo, anjo que ganhou asas.
Se um pássaro voar sobre a tua cabeça, sou eu!


"Não.
Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida."

(Miguel Torga in Diário XIII)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Estou aqui e não estou em lado nenhum.
A minha cabeça passa o tempo todo a vaguear noutros lugares,
como um balão ao qual cortaram a guita.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mágoa

não me fales da neve.
não me fales das pedras que apanho, nem do orvalho na giesta
não me fales das fragas, dos cavalos selvagens, nem das lagoas nos prados
não me fales das montanhas brancas que tocam o céu ou do ar rarefeito nos meus pulmões
não me fales dos risos pelos trilhos nem das mãos que se tocam
não me fales do pó, nem do calor, nem da sede ou dos poços nas hortas
não me fales da carqueja amarela, nem da casa dos nossos sonhos
não me fales da bruma no caminho, do pão ao almoço ou das árvores que trepo
não me fales das botas que moveram montanhas, nem das montanhas que moveram a minha vida
não me fales da neve...não digas nada.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Felicidade, Prazer, Dor e Amor



Que bom que é sair do cinema com aquela sensação de algo ganho, de algo que se aprende, que nos surpreende ou nos faz pensar.
Assim foi ontem com o
"O Ar que Respiramos".

Filme brilhante na realização e na interpretação (com um elenco de luxo - Kevin Bacon, Forest Whitaker, Andy Garcia, Sarah Michelle Gellar, Brendan Fraser, Julie Delpy, Emile Hirsch).
Baseado num provérbio chinês que divide a vida em quatro emoções principais: a felicidade, o prazer, a dor e o amor; este filme narra quatro histórias, ou quatro vidas, todas elas interligadas.

A não perder!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008


Há quanto tempo reténs a respiração?
Há quanto tempo dura o mergulho nesse oceano
que é agora a tua vida?
Terá valido a pena trocares o vendaval
pela calmaria do azul profundo?
Foi isso que te fizeram prometer?
Foi esse o preço que pagaste?

Lucille Maud Montgomery disse "pagamos um preço por tudo o que obtemos neste mundo, e embora valha a pena ter ambições, a sua conquista nunca é barata".
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sábado, 13 de setembro de 2008

Como um mergulho no escuro

"8850 metros de altitude: não faço ideia do que seja, não imagino o que se possa sentir. Sei apenas que há-de ser algures, física e emocionalmente, o lugar mais próximo dos deuses que os homens podem alcançar aqui na terra. Sei que deve ser um lugar de abismos e de espantos, de sonho e de demência, vago, impreciso, envolto em névoa e em pavor e, todavia, ali mesmo ao alcance do derradeiro esforço.
A solidão é a marca dos grandes viajantes, dos obstinados, a doença da lucidez. A solidão é o primeiro e o último desafio do homem e começa sempre, sempre, por um referente físico, que funciona como um limite: pode ser um limite vertical, como na montanha, pode ser como no mar um limite de profundidade, ou pode ser como no deserto um limite horizontal.
Além, no cume da mais alta montanha, no fundo do mar onde a luz já nao entra ou na vastidão de areia onde a violência da luz apaga todas as arrogâncias, estamos sós, irremediavelmente sós. Nenhum passo caminha atrás do nosso passo, nenhum eco reproduz a nossa voz, nenhuma mão se estenderá se o vazio ou o abismo engolirem o nosso desafio aos deuses.
Mas, na verdade, há viagens sem regresso, há coisas de que nunca mais se volta, ainda que se esteja aqui, agora."
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(A Mais Alta Solidão - prefácio de Miguel Sousa Tavares)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Grandes Homens e Mulheres

Que há muita coisa mal, que este mundo está do avesso por valorizar mais o futebol de milhões (pessoas e euros), e que estes actos deveriam servir de exemplo para todos nós que vivemos agarrados ás nossas pequenas mazelas, já nós sabemos.
Mas hoje só me apetece falar de coisas boas - Portugal conquistou ontem duas medalhas nos Jogos Paralímpicos Pequim 2008. O interessante não é tanto saber se são de ouro, prata ou bronze, mas sim por quem foram ganhas - João Paulo Fernandes e António Marques.

Para mim é uma alegria, uma motivação e um motivo de orgulho ver que pessoas com deficiências, algumas delas severas, consigam superar tantos obstáculos, não só físicos como também de apoios financeiros, logísticos e até mediáticos, e mesmo assim obter bons resultados e dignificar o nosso país.

Ontem vi atletas nadar sem pernas ou só com um braço, correr com descoordenação motora ou em cadeira de rodas, invisuais a velejar... Ontem a minha filha, na sua tenra idade, disse "mãe, disto é que nos deviamos orgulhar e divulgar", e ela tinha razão.

Parabéns a todos estes grandes homens e mulheres!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Is there sand in my eyes?

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.(...)
E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."


(in "Kafka à Beira Mar" de Haruki Murakami)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Um espírito inquieto


  1. Como é o teu espírito? Empreendedor, corajoso, fraco, revolucionário, oportunista, acomodado, …?
    O meu, é sobretudo um espírito inquieto.
    Mas esta inquietude cansa e desgasta. É assim que me sinto muitas vezes.
    Dou-me conta que passo o tempo em busca de algo, numa permanente insatisfação. Sou “perguntadeira”, sou curiosa, anseio por aprender, por descobrir tudo, numa sofreguidão de esfomeado – o que lês, porque o lês, o que sentes, em que momento, qual o sonho, onde dói? E em cada descoberta, no meu espírito, fica sempre um espaço por preencher, uma lacuna que me leva a querer aprender e descobrir mais e mais. Nada tem um fim, nada se ordena, vivo em desassossego. E hoje estou tão cansada.
  2. O meu sonho - queria viver no campo, ter animais, ter uma horta, estar perto das montanhas – é tão simplista que dou por mim a pensar que só posso estar a ficar louca. Ninguém quer viver no meio do nada e ainda por cima ter de cavar batatas.
    Nesta cidade, no meio da confusão do dia a dia, da hipocrisia de muitas vidas, das falsas aparências, da bebedeira do “vende-compra-consome”, esta minha loucura é solidão.
    É por isso que quando encontro alguém que partilha o mesmo tipo de sonho, fico feliz, porque sinto que não estou só na minha loucura. É reconfortante saber que há alguém por ai que sente o mesmo que eu e aspira a algo parecido.
    Afinal, talvez não seja nenhuma utopia.
    Afinal, deve haver um sítio onde as pessoas possam ser verdadeiramente elas.
  3. Esta manhã apanhei o comboio das 7h21, coisa que não fazia há um par de anos. Sentei-me. No banco à minha frente ia um casal que reconheci de imediato. Olhei bem e lembrei-me. Eles estavam sentados nos mesmos bancos de há 2 anos atrás, exactamente no mesmo local – um de frente para o outro, ele a ler um livro, ela uma revista cor-de-rosa. Será possível que nada tenha mudado naquelas duas vidas? Que os horários do comboio não tenham mudado, que outras pessoas não tenham vindo ocupar aqueles lugares, que não se tenham divorciado? Não. O nosso corpo muda, as células envelhecem, mas tudo à nossa volta permanece imutável, como o ir e vir das estações do ano. Pensei para mim “Será que na realidade alguma coisa, alguma vez, muda?”, e depois dei-me conta que também eu estava sentada exactamente no mesmo banco que ocupava há 2 anos atrás!