sábado, 27 de setembro de 2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pergunta-me...


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice 
um mistério indecifrável
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer'


Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'