sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Devias estar aqui



Devias estar aqui rente aos meus lábios
Para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

sábado, 13 de julho de 2019

Katalēpseis



Não gosto muito da primavera ou do verão. Contrariamente à ideia geral, é com a chegada do outono que me sinto mais feliz e com energia. Não terá sido sempre assim. Certos acontecimentos da vida levam-nos a ganhar preferências sazonais, e as minhas vão para os últimos meses do ano. Talvez saibas porquê.
Como num comboio, hoje encontro-me a meio entre as estações mais tristes, a menos de um mês dos nossos aniversários. É por isso que te escrevo.

Os últimos vinte anos foram anos de uma intensa procura de sentido para os meus sentimentos por ti. Será que ainda te amo? Será que alguma vez te amei? Será que foi amor ou apenas uma paixão ingénua? Será que me amaste? Ou será que fui apenas um caso sem importância para ti?

Não foi fácil viver tanto tempo com estas perguntas na cabeça. O único remédio que encontrei foi racionalizar o amor, as expetativas e as desilusões. Camuflá-las de razão e ignorar o coração, tão propenso a devaneios. Afinal, chegar à razão é uma necessidade instintiva que o ser humano tem de autoproteção. A necessidade de preencher o vazio com outra coisa qualquer.

Esses primeiros anos foram de grande sofrimento. Isso, por si só, deveria ter sido suficiente para me fazer entender o que realmente sinto por ti. Mas optei pela razão. Preferi acreditar que "sim" era a resposta à última pergunta que fiz acima. Não medir o meu amor pelo tamanho do sofrimento era a única coisa que podia fazer. Consegui finalmente respirar, esquecer as palavras amargas que trocámos e deixar de me sentir tão insignificante, consegui finalmente seguir em frente com a minha vida.

Mas de alguma forma eu sabia que essa racionalização era enganadora. Sempre que me permitia sofrer com a tua ausência, regressava tudo. Todas as imagens. Todas as palavras ditas. Todos os sentidos despertos. Como uma torrente de água que ameaçava as fundações daquilo que entretanto construíra. Era difícil parar essa torrente. Temia-a e ao mesmo tempo desejava-a ardentemente. Por essa razão evitei, sempre que possível, abandonar a razão.

Não. Não tem sido uma vida livre de dúvidas. Há uma espécie de ferida aberta, como se tivesse sido atingida por uma pancada no peito. Há esse vazio dentro de mim que nunca consegui preencher e que não se pode traduzir por nenhuma das necessidades básicas da alma e do corpo, como companheirismo, amizade, sexo, sonhos ou proteção. É outro algo que falta e que só resurge quando me permito sofrer por ti.

O que é? Que verdade é essa que guardo a sete chaves na prisão da razão?

Catalepsis é uma palavra de origem grega que significa "alcançar a realidade". Talvez isso signifique que quando me abro ao sofrimento alcanço finalmente a verdade sobre o que sinto. Quanto a ti, não presumo saber o que te vai na cabeça ou no coração, nem quais as tuas ansiedades e expetativas. Sempre foste parco em palavras. Mas suspeito que vivamos ambos à beira de um precipício, salvos apenas pela nossa crença na razão.

Suspeito também que quando o tempo de um de nós chegar ao fim, o outro deixará finalmente de poder negar os seus verdadeiros sentimentos.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Post Scriptum



Houve algo que não te disse.

O fim desta etapa da minha vida, que começou há 30 anos quando eu tinha acabado de fazer 16 anos, é mais do que o fim de um trabalho. Para mim é como se fosse um segundo fim da nossa história. Porque foi neste período da minha vida que te conheci, que me apaixonei por ti e te amei como a ninguém. Ao sair hoje pela porta daquele escritório tive vontade de chorar, porque foi como se tivesse de te dizer adeus uma vez mais. É uma etapa da vida que não volta atrás e que não se repetirá, mas que está gravada em mim de forma mais permanente que uma tatuagem.

És o homem que mais amei, és o homem por quem abdiquei de muita coisa importante na minha vida e que estará sempre (mesmo que eu o negue) no meu coração e, sobretudo, nos meus pensamentos. Nos momentos bons e maus, será em ti que vou pensar, será dos momentos que vivemos juntos que me vou recordar, será contigo que imaginarei um futuro que nunca chegará. Apesar da mágoa que ainda hoje sinto por muita coisa que fizeste e dissestes, nunca deixei de acreditar em nós, e ao fazê-lo toda a emoção que senti na primeira vez que nos amámos regressa. E com ela regressa o desejo, a raiva, o sonho, o amor, o querer-te bem só porque sim. Irracional, eu sei, mas serás sempre a melhor parte de mim, a parte em que aprendi a amar e a lutar, a parte em que aprendi a perder tudo. Irracional, eu sei. No fim de contas nunca tivemos hipóteses. Os Deuses não permitiram que fossemos mais que um momento na viragem do milénio. Talvez fossemos o bug Y2K que tanto se esperava, a catástrofe eminente. E por termos sido essa catástrofe súbita e momentânea é que ficámos marcados irremediavelmente. Se o momento se prolongasse ter-se-ia perdido, de forma inconsequente.

Não pretendo assumir que tudo esqueci, ou que desejo que sejas feliz ao lado de outra pessoa, ou ainda gabar a minha vida atual. Estaria a mentir. A vida é uma farsa que representamos todos os dias para quem quer assistir. Eu vivo o melhor que posso dadas as circunstâncias (não é o que todos procuramos fazer?), mas estarei sempre incompleta, a representar, porque a paixão perdeu-se contigo. Talvez a vida seja isso mesmo, uma sucessão de pedaços que vamos perdendo pelo caminho até já não restar nada. Hoje foi mais um pedaço que perdi. E sinto-me estranhamente vazia e desorientada. Não pretendo com isto que me escrevas com palavras de consolo ou condescendência. Nunca foi isso que desejei de ti. E o que desejei está guardado dentro de mim, como um sonho à espera de ser concretizado. Um dia.

Espero-te noutra vida.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Oração

Todos os dias.
Peço-te por força e coragem... todos os dias.
Coragem para esquecer, força para lutar contra aquilo que me corrói por dentro como um cancro.
Peço-te para apagares do calendário os dias e os meses do ano em que fui feliz.
Certas datas. Horas impróprias.
Natal, verão, dia de todos os santos, primavera, meia-noite, hora de almoço.
Peço-te sabedoria para aceitar aquilo que nunca irei entender. Momentos trágicos no meu coração remendado.
Serei toda a vida como uma alcoólatra em estado abstinência.
Nunca mais sentir.
Hoje sei que será sempre assim
– a vida no limiar, a um passo do abismo.


O Diplomata


Ele era um homem bem-posto do alto do seu metro e noventa. Vestia o fato escuro como uma concha impenetrável à mácula. No rosto aquele constante sorriso educado. Era um homem cordial e até prestável. Tinha mulher e filhos, respeitosamente instituídos. Falava educadamente, sempre no tom correto, sempre sem se desviar da norma. Porque a norma era o seu cartão de visita. Porque ele era um diplomata.
Ela era magra, há quem dissesse demasiado magra, como se algo lhe sugasse as forças. Sempre que podia vestia calças de ganga e t-shirt branca e tinha sempre o cabelo desalinhado e a cabeça nas nuvens. Sonhava. Sonhava muito e esperava. E quando acordava a meio da noite era nele que pensava. Estendia o braço na escuridão e sentia que quase o conseguia tocar. Durante o dia escrevia a sua história em palavras estúpidas de amor e mágoa e fingia que vivia. Dava sempre um pouco mais de si a cada passo, achando que podia ter dado talvez um pouco mais. Nada lhe era suficiente para compensar os sonhos dos quais procurava fugir. Ela amava-o.
Ele olhava para ela com uma curiosidade que não conseguia disfarçar. Ela fugia à sua norma e isso excitava-o. Fazia-o sentir-se vivo. Fazia-o sonhar com uma vida diferente da que levava, menos imaculada, talvez menos sorridente, mas mais estimulante. No entanto, as palavras de amor e mágoa que ela insistia em escrever deixavam-no desconfortável e davam-lhe ainda mais força para seguir com fervor o seu caminho de diplomacia. Certo das suas escolhas. Confiante do destino que traçara. As palavras dele para ela eram, tal como ele, educadas e matemáticas. Como um fumador que fuma compulsivamente às escondias para não admitir a si próprio que é um viciado.
Um dia ela vai pedir-lhe para o ver e ele vai recusar, educadamente, como se espera de um diplomata.
Um dia ela vai deixar de escrever e ele vai entender, do alto do seu metro e noventa, que a sua diplomacia só serviu para se enganar a si próprio.

Mas ainda não é hoje.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

...e a 23 de dezembro foi Natal


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.

Todo o tempo num só tempo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Porque é que o meu coração não se cansa?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há de passar entristecendo-se.

Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa, esta moínha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.

Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sábado, 17 de setembro de 2016

Amanhecer



Passaram já duas semanas. Acordei cedo nessa manhã. Aliás, mal consegui dormir a pensar como seria ter-te finalmente em minha casa, junto das minhas coisas. Junto das coisas que construí com um único propósito, partilhá-las contigo. Não, não é exagero. Quando coloquei o papel de parede com desenhos de árvores na casa de banho pensei se irias gostar de ter um pouco da natureza dentro de casa. Na cama pus um colchão dos mais modernos para que te sentisses confortável. A casa é pequena mas sempre achei que poderia ser o nosso espaço. Quando arranjei a casa do Alentejo para me livrar finalmente do salitre, achei que seria assim que tu gostarias de viver a tua velhice, numa pequena casa de campo branca e azul, rodeada de conchas, estrelas-do-mar e barcos, de velas e de um dossel sobre a cama para proteger as nossas noites. Imaginei-me ajoelhada na terra a arranjar o jardim e ver-te entrar pela porta. Foi sempre assim que imaginei o nosso reencontro.

Mas o nosso reencontro não foi assim. Não foi bem como eu imaginei. Não podia ser. Ter-te ali sentado no sofá a sorrir para mim pareceu-me pouco natural. O beijo que te dei não foi correspondido com a paixão que esperava. Pareceu-me que tiveste medo de me tocar... logo a mim que tanto tempo sonhei com as tuas mãos no meu corpo. Senti que não era aquilo que querias, que estavas desconfortável. Deixaste-me a tarefa de imaginar as razões desse desconforto e acredita que me passou muita coisa pela cabeça. 

Quando aquele par de horas terminaram senti-me terrivelmente mal. Não porque achasse que estava a trair alguém ou porque estar contigo era moralmente errado, mas porque de alguma forma percebi que nunca iria ter aquilo que desejava. E não eram encontros fortuitos que eu desejava para o resto da minha vida. Tu nunca irias poder ficar comigo porque se dantes te partilhei com uma mulher, agora estava a partilhar-te com outra. É uma sensação terrível ser a segunda escolha. É terrível perceber que, se realmente me amavas, fui sempre eu a pessoa que traíste e não a elas. É terrível achar que poderia ter feito mais por ti do que elas, que poderia ter ajudado ou influenciado mais a tua vida. Por ti, teria feito greve de fome, greve de sexo ou, pelo contrário, ter-te-ia esgotado de tanto nos amarmos. Mas este era o meu sonho, não o teu. Este já não é o meu tempo, mas o tempo de outra pessoa. Sei que pareço presunçosa com estas palavras, mas para mim, que gosto de ordem e equilíbrio, ver-te tão mais forte e pensar na saúde que te pode faltar, mas sobretudo saber que tens uma família ao teu redor que simplesmente permitiu que te tornasses como um pedaço de vidro na areia da praia, deixa-me enraivecida. Essas arestas vão ferir-te mais a ti que aos outros... não permitas que isso aconteça.  

Por outro lado acho que entendo tanto a tua atitude como a deles. Tu, porque quiseste fazer toda a gente feliz, para tentar compensar algum mal ou erro; eles, porque preferiram ver-te tranquilo e escolheram não agitar muito as águas. Calculo que a história seja mais ou menos assim, porque é assim também na minha vida, mesmo que com consequências diferentes. Houve momentos em que simplesmente não comia, achava que a minha fonte de sustento não vinha daí. Virei-me para o trabalho no escritório, demasiadas horas a fio. Ao fim de semana só queria subir montanhas, depois partir pedra, serrar madeira, construir alguma coisa que me fizesse sentir que a vida tinha sentido. As pessoas à minha volta diziam-me para ter calma, para me alimentar melhor, etc. etc., mas na realidade eu sabia fingir muito bem. Sou feliz assim, dizia-lhes. Sou feliz assim, dizia a mim própria. Quando o que eu mais desejava era que tudo acabasse depressa. Tudo. Para que noutro lugar, noutro tempo, pudesse recomeçar a minha vida contigo. Nunca pensei pôr fim à vida, mas nestas circunstâncias a morte não me parecia uma coisa tão má. Mais uma vez, estarei a ser demasiado presunçosa ao achar que te revês neste comportamento, porque talvez agora estejas realmente feliz, e se é verdade que somos o resultado das nossas escolhas, então é porque fizeste as escolhas certas.

Esta será a última vez que vais ouvir falar de mim. É pelo menos isto que desejo. Tinhas razão quando dizias que se nos voltássemos a encontrar não iria ser apenas conversa cordial e amizade. Ver-te outra vez junto a mim, sentir novamente o cheiro da tua pele, os teus braços a envolver-me, fez renascer em mim o sonho que tantos anos alimentei. Fez-me acreditar, nem que por breves instantes, que ainda poderíamos ter uma vida a dois. Apenas por breves instantes.

Não escrevo isto por estar chateada com algo que tenhas dito ou feito. Quanto muito seria por aquilo que não disseste ou não fizeste. Não estou chateada. Apenas admito a derrota neste capítulo da minha vida. Uma coisa, no entanto, é interessante, pois algo inesperado se apresenta diante de mim - não sei o que fazer daqui para a frente! O facto de não poder sonhar mais contigo permite-me uma nova oportunidade de sonhar com outras coisas. Sonhar com novas aventuras, quem sabe daqui a uns meses sonhar com um novo emprego, muitos livros, montanhas mais altas, mares sem fim, novos conhecimentos. Gosto de pensar que o mundo é uma taça cheia de factos desconhecidos e eu ainda só beberiquei umas gotas.

Tenho uma coisa boa, sou profundamente optimista e não há limites quando sonho. Por isso termino a pedir-te que não vejas estas minhas palavras como falta de amor por ti. Pelo contrário. Foi por sempre te ter amado tanto que te deixei seguir o teu caminho, mesmo que a minha esperança nunca tenha morrido. Foi por te amar que tentei entender-te, que procurei perdoar-te as falhas, que em parte também foram minhas, e agradecer-te no mais íntimo de mim tudo o que de bom trouxeste à minha vida. O fazer o bem, a partilha e a esperança, foram algumas dessas coisas.
O meu coração é um mundo e o meu amor por ti perdurará enquanto o mundo resistir.



terça-feira, 9 de agosto de 2016

O beijo


Vem.
Espero-te todos os dias e todas as noites.
Achas-me imprudente? Não sou imprudente. Mas não consigo ser sensata quando se trata de ti. Tomo o peso às consequências dos meus atos. Mas também sei de cor o peso da dor de não estar ao teu lado. Comprime-me o peito e não me deixa respirar. Acompanha-me há muito anos. Não a suporto. Não suporto essa dor que é tão palpável que me causa náuseas. Tento não pensar em ti. Ando há quinze anos a tentar não pensar em ti. Seria de esperar que te tivesses diluído na minha memória. Mas não. Lembro-me da excitação que sentia ao te esperar e do conforto que me davas quando estávamos juntos. Como se fosse hoje, como se estivesses mesmo ali ao alcance da minha mão. Não te chego a tocar. Tu não estás lá. A dor dessa ausência não desaparece. Também a sentes? 
Não posso fazer mais que te esperar. Não posso fazer mais que amaldiçoar o dia em que te vi pela primeira vez, sentado à minha frente naquela mesa de restaurante. Não posso fazer mais que acreditar que os erros que cometemos no passado serão o cimento do nosso futuro brilhante. Não posso fazer mais que sonhar com um futuro onde a última imagem que verei antes de adormecer é o teu rosto a sorrir para mim. E assim adormeço. Adormeço muitas vezes a pensar em ti e quando acordo estou cheia de ti e de desejo. Desejo beijar-te a boca, o peito, o sexo. Imagino as tuas mãos a conquistarem o meu corpo, a tomarem-me para elas. Mais uma vez sinto o peso, mas agora é o peso do teu corpo quente sobre o meu. Possuo-te e deixo-me possuir. Toma-me por inteiro.
Sempre fui tua.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Tudo vale um instante


Onde estás, faz um som
Chama o meu nome dentro ou fora de tom
Diz-me que guardas um pouco de mim
Na carteira um retrato, uma flor no jardim

A estação já mudou
Levaram os móveis e o sol lá fechou
Para onde foi, para lado nenhum
Lugar tão deserto esse lugar comum

Caem as folhas no livro maior
E corre o tempo a secá-las lá dentro

Deixa estar
Deixa ser
Tudo vai num instante
Amanhã
Sem saber
Vai parecer tão distante
Resta só
Adormecer
E sonhar sem te ver
Outra vez

Não procures o meu rosto espantado
Essa já não sou eu
Mistério do amor
O coração fui trair
Abri-o ao meio pra te deixar
Para onde foste, quem sabe onde vai
Perdido lá dentro a arrastar-se no tempo

Deixa estar
Deixa ser
Tudo vai num instante
Amanhã
Sem saber
Vai parecer tão distante
Resta só
Adormecer
E sonhar sem te ver
Outra vez

E quando nada restar
Vou adormecer
E talvez vá sonhar, sonhar
Só pra te ver
Só pra te ver

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O que foi que fizemos com as nossas vidas


Queria tanto ter-te aqui comigo esta noite
Roubar-te um beijo
Doar-te o meu corpo
Encostar-me no teu ombro
enquanto me contas histórias da tua infância
e os sonhos que ainda guardas em ti
Sentir as tuas mãos a segurar-me o rosto
e os teus olhos a dizerem-me "quero-te"
Faço-te festas nas costas, suavemente, como tu gostas
Sussurro-te ao ouvido palavras de amor
como uma canção de embalar
Vejo-te adormecer 
e fico ao teu lado a ouvir o bater do teu coração
e a desejar que todas as noites fossem assim.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dezembro, 23


"Que bom seria se tu fosses meu irmão,
se tivéssemos sido amamentados pela mesma mãe!
Então, se nos encontrássemos na rua,
poderia beijar-te, e ninguém se importaria.
Levava-te para a casa da nossa mãe,
e tu ensinavas-me.
Dava-te o meu vinho de romãs para beberes.
A tua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça,
e a direita a abraçar-me.
Prometam, mulheres de Jerusalém,
que não vão perturbar o nosso amor.
Grava-me como um selo no teu coração,
como uma marca indelével no teu braço.
O amor é tão poderoso como a morte;
e a paixão tão inflexível quanto a sepultura.
O amor e a paixão explodem em chamas
e queimam como fogo furioso.
Nem mesmo as muitas águas podem apagar o amor,
e nenhum rio pode arrastá-lo.
Se alguém quisesse comprar o amor
e por ele oferecesse as suas riquezas,
receberia somente o desprezo."

(Cânticos 8:6)


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Carta


Meu amor,

Há noites em que me imagino a visitar-te no teu sono. Imagino que nos encontramos no mundo paralelo da nossa inconsciência. Nessa praia banhada por ondas serenas e pelo grito dos pássaros. Um mundo onde os nossos sonhos são realidade. 
Aproxima-se aquele dia do ano em que os mundos físico e espiritual se fundem, e eu vou poder finalmente sonhar contigo.
Na semana passada passei na rotunda onde me beijaste pela primeira vez. Lembras-te desse beijo e do terramoto que provocou? O tempo passa depressa e os 15 anos que separam esse dia tornam-no enevoado, como se estivesse coberto por uma gaze que não deixa ver-lhe o detalhe, mas apenas sentir. E eu ainda sinto tudo, como nessa noite. O teu cheiro, o teu gosto, o teu toque, tatuados em mim para sempre. Mais uma vez, à memória começa a faltar-lhe o detalhe, mas o sentimento permanece, indelével. Esse, ninguém jamais conseguirá apagar. Há muito tempo atrás disse-te que quando partiste deixaste um buraco no meu peito, mas agora quando penso nisso vejo as coisas de forma diferente. Não foi um buraco que ficou, mas um pedaço de carvão em combustão lenta e constante. Aquilo que deveria ter acabado, nunca teve um fim. E nunca terá. Arde eternamente no lugar do meu coração, alimenta-me a alma com compaixão, inspira-me a fazer mais, a ser melhor e ilumina-me nos momentos mais negros. Porque o amor e a partilha terão sempre de ser contrabalançados com a dor e a perda. O que deixaste em mim foi um amor eterno, uma força bruta, um desejo insaciável. Tu és o amor da minha vida. E é como se a minha vida só tivesse começado quando me beijaste pela primeira vez. A partir daí tornei-me indomável. Sobressaiu em mim a minha natureza - uma casa construída sem fio de prumo. A partir daí fui capaz de tudo, de tudo, menos de te guardar.
Sei que encontraste a estabilidade que procuravas. Tudo o que não te soube dar. Sei também, com uma certeza perene, que algo te falta. Que quando te dizes feliz, quando sorris, algo se contorce dentro de ti, incomodado. Sei-o porque também a mim me falta algo. Esse quarto vazio dentro de nós. Um quarto que não pode ser preenchido com filhos, jantares em família, jardinagem ou competições de tiro ao alvo. Porque nesse quarto só cabe uma pessoa. Esse quarto estará sempre vazio, à espera. Será como aqueles quartos perdidos nas casas antigas, que os donos mantêm religiosamente fechados, a ganhar pó, intocáveis, eternamente em suspensão, porque são a única coisa que os liga aquilo que perderam.
Por tudo o que nos aconteceu culpo a minha juventude. Mas mais ainda, culpo a minha ignorância dos preceitos da vida. Hoje penso que a nossa vida em conjunto teria oscilado entre uma interminável competição de dentes e garras ou uma insatisfação que dificilmente saberíamos suportar. Imagina um sistema solar binário em que as duas estrelas, iguais em poder e dimensão, se tocam ao de leve, como se de um beijo se tratasse. Mas aquele abraço cósmico em breve se transformará em catástrofe e para as duas estrelas só existe um fim possível, a destruição. É a lei da natureza. 
Mas no meio de todas estas incertezas, há algo que sei e que, tal como a tua tatuagem, está inscrito em mim. Não consigo viver sem ti! Por tudo isto, serei sempre um bicho solitário, como aqueles animais monogâmicos que acasalam para a vida. É por isso que imagino o dia em que te verei chegar, em que me darás a mão, em que te beijarei primeiro a testa, depois os olhos e for fim a boca. Imagino o dia em que as nossas línguas se tocarão, em que me puxarás para ti e me abraçarás. Imagino o dia em que esconderei o meu rosto no teu peito, em que sentirei o teu cheiro e o teu calor. O dia que te ouvirei dizer, em silêncio, “amo-te”!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O teu mundo


Nas suas melhores fantasias, ela via-vos juntos. Felizes, numa casa nova. Em pouco tempo, teriam um filho, almoços em família e viagens românticas. Só que ela estava a ver-te como ela queria. Não como tu eras. E talvez ainda esteja. Aquela rapariga acreditava que esta era uma outra forma de te amar - ver-te além dos defeitos, idealizando um futuro que certamente não teriam. Não devido aos enganos que lhe sussurraste e que ela, ingenuamente, acreditou. Mas, sim, ao facto de que ela revolucionou o seu mundo por vocês. Sem perceber, durante algum tempo, foi só isso que ela recebeu: mentiras sinceras, omissões proferidas em prol de um sorriso imediato.

Ela sempre desconfiou de histórias de amor construídas na primeira pessoa do singular, mas o amor é realmente cego. E, obviamente, um dia tudo acabou. O mais engraçado é que a rapariga apaixonada sempre esteve ao teu lado, mesmo quando estava longe de ti. Desculpando secretamente os teus erros, incentivando-te, fazendo-te sentir (mesmo sem o saber) o homem mais amado do mundo.

Quando ela percebeu que tudo tinha acabado, viu-se diante de um labirinto, feito de paredes negras e altas. Onde a luz não penetrava. Aquela rapariga, agora mulher, ainda se lembra dos dias que passou perdida nesse labirinto escuro. Ainda se lembra de como chorou, como se fosse o fim do mundo - uma criança perdida na sua ingenuidade, acreditando que aquilo duraria para sempre. Muitos anos depois acabou por conseguir sentir-se orgulhosa da rapariga que cresceu e seguiu em frente. Percebeu que não valia a pena insistir em planos que não a incluíam.

Sabes, na culinária, queijo combina com goiabada; na música, a voz rouca com o violão; na astrologia, signos de fogo com os de ar. O mundo está cheio de combinações interessantes. Só que há algumas que nunca dão certo: amor com egoísmo, jogos com sentimentos.
Tu nunca deixaste de exibir um aparente controlo, um sorriso distante como se tudo não tivesse passado de um jogo inconsequente de crianças. Intimamente batias no peito e pensavas: "Duvido que não voltes". E isso para ela soou como um desafio. Ela sempre te disse que não gostava de jogos, lembras-te!? Tu desafiaste-a e ela desafiou-se a si própria também. Quis superar-se, conhecer outras pessoas, outras cidades, outros países, fazer trabalhos diferentes, cometer novos erros e de novo erguer-se, mais forte e mais consciente. Realizar os sonhos que tinha planeado concretizar contigo e que foram deixados no fundo da gaveta.

Agora, após tanto tempo, após fazer tudo isto, ela chegou à conclusão de que o mundo dela é melhor sem ti!

Ela já partiu, e não vai voltar.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

N, dentro do meu coração estás tu


Sinto tanto a tua falta…

Queria abraçar o teu olhar
Sentir o calor do teu sorriso no meu rosto e
   as tuas mãos em concha a amparar o meu coração
Queria dar-te a beber os meus lábios
Roubar a tua figura, como um pirata de peito ao vento,
   para nela me abrigar do frio da cidade 
Preciso tanto ouvir a doçura das tuas palavras
   a tocar a curva do meu peito
Deixar a minha língua desenhar um caminho nas tuas costas
   que me leve ao céu
   e me encha de vida
Com o meu cabelo desalinhado pintar-te uma casa branca
   virada para o oceano
Da cadeira no alpendre fazer a janela por onde entro no teu corpo
   para te ver
   para te ter
   para sermos finalmente nós!
_____

Sei perfeitamente que dentro do meu coração estás tu
   e não vou precisar nunca de um papel que mo diga.
Quando o tempo chegar ao fim e olhar para trás
   é o teu amor que vou levar,
   a memória das manhãs que acordei ao teu lado,
   de ter ansiado e desejado alguém que para os outros seria improvável,
   mas que para mim era tudo o que eu mais queria.

Amo-te
Como no primeiro dia

Amo-te todos os dias...

terça-feira, 24 de março de 2015

Parte de mim


Algum dia te preocupaste com alguém como se esse alguém fosse uma parte de ti? uma perna? um braço?… é que só assim conseguirias perceber o que sinto. Preocupo-me contigo como se tu fosses uma parte de mim:  a minha mão, a esquerda, a mais bonita e perfeita. a que gosto mais. percebes?
Eu sei que passas todo o dia comigo, mesmo quando não estás. Na minha cabeça eu durmo contigo e é contigo que acordo todas as manhãs. Nunca deixei de gostar de ti durante todo este tempo. É belo, eu sei,  mas é insuportável.
Dizem que quando um amor é impossível, nunca acaba e que são os que duram para sempre.
E também dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes


 Herberto Helder

domingo, 2 de novembro de 2014

Too late is a shitty place to be


Talvez seja suficiente para ti saberes que és infinitamente amado, que a paixão te tomou de assalto mesmo que por breves instantes há muito tempo atrás. Que mesmo após todos estes anos te desejo como no primeiro dia, ou ainda mais. Que só tu, sim, só a tua lembrança me faz, ainda hoje, tremer de desejo ao imaginar a ponta dos meus dedos a percorrer cada centímetro da tua pela, a tua boca sôfrega a procurar a minha boca ansiosa, o meu corpo pequeno enlaçado no teu corpo grande e a certeza de que naquele instante estava protegida. Essa lembrança do que não vivemos e que me assola dia após dia, essa ânsia de viver ao teu lado todo o bom e o mau que a vida sempre nos oferece. A certeza de que largaria tudo hoje para ficar contigo, como fiz há tantos anos atrás. Talvez essa certeza seja suficiente para ti.

Temo pelo dia em que percebermos que é tarde demais, porque esse momento é um lugar sem retorno e “tarde demais” é o maior desperdício da vida.


Para mim, na mesma medida, tudo o que sinto é uma tristeza infinita, por saber, com  a mesma certeza, que nunca mais o meu corpo será teu (mesmo que nunca tenha deixado de te pertencer). Que será sempre uma vida dolorosamente incompleta porque nunca partilharei a normalidade contigo, esse pedaço da nossa humanidade exposto aos olhos dos outros. Que não serei capaz de suportar a vida com outra pessoa, porque, por mais que tente, irei sempre preferir passar o resto da vida a sonhar contigo do que passar o resto da vida a fingir que sou de outro.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

The Unnatural Life



Acordo na madrugada ainda sombria. Sento-me na beira da cama e dispo os sonhos que depois deixo espalhados sobre os lençóis. Visto a minha roupa de viver, que não é  mais que uma máscara que coloco todos os dias para não pensar em ti.
Todos os dias.
Procuro mentalizar-me que a vida que tenho é boa e que devo aceitá-la sem reservas. Que ser feliz talvez seja adaptarmo-nos, viver um dia de cada vez, sermos bons cidadãos e partilhar o espaço e o tempo com aqueles que nos querem bem e pronto. Contrariamente ao que parece,  viver assim não é difícil, viver assim é acomodarmo-nos ao conforto dos clichés da nossa sociedade. O difícil é contrariar tudo isto.
Assim, deixo-me iludir confortavelmente com esta ideia de felicidade durante dois ou três dias, até que algo dentro de mim começa a contorcer-se e a espicaçar lentamente cada célula do meu corpo. Um dia aqui (um punho que teima em manter-se cerrado), outro dia ali (a sensação súbita de não conseguir respirar). Como se o meu corpo teimasse em não funcionar corretamente por falta de um qualquer órgão essencial. Como se houvesse um vazio inexplicável que não pudesse ser preenchido. E esse vazio existe, essa melancolia e tristeza existem. Os outros percebem-no, mas escolhem chamar-lhe “natural”. A vida prossegue. Convenientemente para todos.
Uma vida não natural.
Na verdade, engano-me conscientemente todos os dias.
Como pode ser natural uma vida que reprime aquilo que ocupa permanentemente o meu corpo e a minha alma?