domingo, 2 de agosto de 2009

Uma Colisão...Três pontos de vista


I
O semáforo fica verde e arranco. Ao fazer a curva reparo num carro que vem em sentido contrário. "O que é que aquele doido está a fazer? Ele não vai conseguir parar...". Não me mexo, não reajo…a minha boca abre-se em espanto e só penso “ele vai parar, ele vai parar...oohhh, ele não vai parar...”. O segundo que demora até o carro embater no meu é demasiado longo. Olho, incrédula, o destino que vem na minha direcção.
Branco.
Vejo tudo branco. Rebolo...não sei para que lado é o chão ou o céu.
Talvez seja neve porque sinto um frio nas costas que me queima de dentro para fora. Não, não pode ser neve porque estamos em Agosto e em Agosto não neva em Paris. A boca sabe-me a ferrugem e a sal. Ouço o barulho de sirenes e tento virar a cabeça nessa direcção. Forço os olhos que se abrem novamente para o branco... Ah, afinal é a camisa que me cai sobre a cara. Afasto-a lentamente com os meus dedos pesados.
Por entre o vidro rachado vejo um rosto que reconheço a sair da ambulância. Um fantasma do passado preso à memória do presente. Fixo os meus olhos nos teus e sorrio. Há uma mão que me toca no ombro e depois sou arrancada ao abraço do carro. Ouço um gemido a sair da minha boca que não me lembro de ter dado.
Seguras-me a mão. Prendes-te a ela como que para me prender à vida. Vejo-te gritar para alguém, mas não ouço o que dizes. O único barulho que ouço é o do frio a cobrir-me, como um grande navio a arrastar-se pelo meio do gelo. Queria estar encostada a ti, sentir o teu corpo quente a embalar-me, sentir os teus braços à volta do meu corpo e a tua mão a segurar-me o peito como costumavas fazer... Sorrio à lembrança…mas talvez a minha boca tenha feito um trejeito diferente ou descoordenado, porque no teu rosto há agora uma máscara de horror e angústia. Aproximas-te de mim como se me fosses contar um segredo e num murmúrio dizes para ti próprio "Continuas a usar os brincos de pérola que te dei...".
Sorrio... "Seu tolo, eu sempre te amei!"

II
O príncipe entrou como um vendaval e atirou-se de joelhos aos pés da cama, abraçando as mortalhas de seu pai. Havia um cheiro penetrante a incenso e a vazio. A rainha-mãe estava de pé no meio do quarto, olhando-o angustiada e ainda incrédula da tragédia. Com um suspirou triste e profundo baixou o rosto, mas logo recuperou a compostura e o ergueu, como quem tem um dever que lhe transcende a vontade. Há muito a fazer. Há um novo rei a coroar. Há uma casa a governar. Há uma promessa a fazer cumprir. “Meu filho, agora és rei e todos esperam de ti um comportamento exemplar. A vida que levaste até agora terá de acabar.” O príncipe enterrou ainda mais o rosto na cama, como se tentasse impedir aquelas palavras de o atingirem.
“Essa mulher não é digna de estar ao teu lado. Afastou-te dos teus deveres demasiado tempo. É uma mancha na reputação desta família e agora é altura de ser afastada.”
“Eu amo-a mãe!”, disse o príncipe num silvo de agonia por entre os dentes cerrados. Nos seus olhos abertos, raiados de sangue, havia uma mistura de água, sal e uma mágoa imensa de quem sabe estar prestes a ser quebrado em pedaços.
"Meu filho, o amor que destrói uma família acaba por se destruir a si próprio", disse a mãe olhando o filho com ternura.
"Mas mãe...".
"Basta!", disse a rainha, "Voltará a haver paz nesta casa. Era esse o desejo de teu pai! Sabes o que isso significa, não sabes?”.
O silêncio encheu o quarto envolto na penumbra. O príncipe ergueu-se lentamente sob o peso desta dupla sentença. O seu rosto tinha agora a mesma expressão sombria dos panos que cobriam os espelhos do quarto e, no entanto, estava sereno em toda a sua certeza. Curvou-se em reverência perante sua mãe e disse, naquela voz solene e grave que só os reis possuem, “Seja feita a sua vontade”.
III
- Eu amo-te... se soubesses como te amo, mas ao mesmo tempo como me sinto pequena e estranha… é que há momentos em que me sinto infeliz quando não posso estar só... tenho a impressão de não ter lugar neste mundo a não ser no recanto que me ofereceste dentro de ti. Até te encontrar para mim tudo era uma prisão, sentia-me sempre fechada e tu abriste-me o mundo inteiro e quando penso nisso…na maneira como te deste, na liberdade que me deste, digo-te que fui estúpida por ter tido medo e não ter tido força para suportar todo o mal à nossa volta. Queria dizer-te que quando nos afastámos tentei não pensar em ti – de que me valia - tentei descobrir outras vidas, viajar, conhecer novas pessoas, mas tudo me fazia lembrar de ti, como se o meu coração tivesse ficado no teu peito e eu não conseguisse viver em paz. Mas o importante é que o teu coração continue meigo, porque sei que se ele for meigo, então eu nunca te perderei. Sei que agora já é tarde, mas se um dia precisares de mim, se não puderes aguentar mais com a tua vida, eu irei ter contigo onde estiveres...agora já posso esperar.
- A sério que me esperas?
- Sim, eu espero.