Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas. Subitamente sentiu um pequeno tremor, depois um barulho que mais parecia um trovão a descer sobre a sua cabeça. Encostou-se rapidamente à parede no preciso instante em que um monte de pêlo lhe caiu aos pés com um baque seco. A luz entrou em cascasta cegando tudo. O que quer que fosse que estava ali à sua frente, tinha caído num dos buracos de respiração da sua toca, enchendo o túnel de neve fofa.
Pintas viu-se subitamente mergulhado no seu pior pesadelo - a neve gelada queimava-lhe a ponta do focinho e as patas e ele já não conseguia respirar. Sentiu umas mãos quentes a tactearem-lhe o corpo dormente. Subitamente foi puxado pelos bigodes até ao ar quente do túnel. Inspirou profundamente e tentou adaptar a visão àquela luminosidade. Ao seu lado, meio oculto pela sombra, estava um animal estranho...e, pensou ele, feissímo. Fez um esgar de repulsa - era uma mistura de rato gigante, coelho com dentes XL e marmota com unhas a precisar de manicure. Ele estava paralisado por aquela visão. Moly estendeu-lhe uma pata e disse-lhe num tom caloroso, meio fanhoso "Olá amigo, xê bem vindo".
Isto foi demais para os nervos do Pintas. Sentiu a cabeça a rodopiar ao mesmo tempo que a escuridão lhe invadia os olhos. O seu corpo cor de chocolate de leite caiu, pesado, para trás.
Moly, a toupeira, pensou com um ar desgostoso "Bolas, xerá que está morto?"










































