segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

(5) Uma Luz na Escuridão

Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas.
Subitamente sentiu um pequeno tremor, depois um barulho que mais parecia um trovão a descer sobre a sua cabeça. Encostou-se rapidamente à parede no preciso instante em que um monte de pêlo lhe caiu aos pés com um baque seco. A luz entrou em cascasta cegando tudo. O que quer que fosse que estava ali à sua frente, tinha caído num dos buracos de respiração da sua toca, enchendo o túnel de neve fofa.
Pintas viu-se subitamente mergulhado no seu pior pesadelo - a neve gelada queimava-lhe a ponta do focinho e as patas e ele já não conseguia respirar. Sentiu umas mãos quentes a tactearem-lhe o corpo dormente. Subitamente foi puxado pelos bigodes até ao ar quente do túnel. Inspirou profundamente e tentou adaptar a visão àquela luminosidade. Ao seu lado, meio oculto pela sombra, estava um animal estranho...e, pensou ele, feissímo. Fez um esgar de repulsa - era uma mistura de rato gigante, coelho com dentes XL e marmota com unhas a precisar de manicure. Ele estava paralisado por aquela visão. Moly estendeu-lhe uma pata e disse-lhe num tom caloroso, meio fanhoso "Olá amigo, xê bem vindo".
Isto foi demais para os nervos do Pintas. Sentiu a cabeça a rodopiar ao mesmo tempo que a escuridão lhe invadia os olhos. O seu corpo cor de chocolate de leite caiu, pesado, para trás.
Moly, a toupeira, pensou com um ar desgostoso "Bolas, xerá que está morto?"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Experimenta...


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



(Carlos Durmmond de Andrade)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

(4) Uma pata na neve, um espinho no coração

Espreitou por entre a folhagem do arbusto e viu no ar um rodopio das últimas folhas vermelhas que o vento arrancara do grande plátano. A chuva tinha começado a cair. Ele detestava água e tudo o que se parecesse com ela. Assim são os gatos e o Pintas, nisto, não era diferente. Sacudiu o pêlo já ensopado e sentiu um frio estranho. Voltou a enroscar-se, o focinho pousado sobre as patas, o olhar pousado nos pinheiros já nevados do outro lado do riacho. Fechou os olhos e respirou fundo, quase como um suspiro. Fechou os olhos e viu aquela capa de penas negras num corpito frágil de andorinha. Fechou os olhos e ouviu-a chilrear ao seu ouvido aquelas lenga-lengas que ela passava vida a dizer. Agora soavam-lhe estranhamente quentes e reconfortantes, embalavam-no. Na altura não conseguira entender. Mas claro, ela era um pássaro e a ele faltavam-lhe as asas para sonhar com a neve, branca como o peito dela. E como era bonito aquele peito, com pequenos fios prateados como que a desenhar um mapa do mundo, um trilho até ao coração. O frio fê-lo arrepiar. Vinha de dentro, do corpo vazio. Devia ter-lhe dito que não gostava de água. Devia ter-lhe contado que sempre sentira medo de ter medo, de falhar, de falhar a neve e tudo o que ela mais desejava. Devia ter-lhe dito que não era mais que um gato vadio, que correra meio mundo para ganhar aquela pelagem de rei, cor de chocolate de leite.
Apenas a chuva quebrava o silêncio do bosque, esvaziando-lhe o pensamento e deixando apenas duas breves ideias – ficar ali, enroscado, sem nada a esperar senão as patas secas e o regresso do bom tempo, ou partir. Partir para enfrentar a chuva, as poças no caminho, o frio que enregela os músculos, a neve alta que quase o fazia desfalecer só de pensar, partir para enfrentar o medo, partir para o calor dos olhos dela. Sim, o calor dela parecia-lhe infinitamente melhor que toda a pelagem seca deste mundo.

Amanhecer


O dia começa. Vejo ao fundo, sobre o rio, o primeiro tom azul-rosa a despontar. Ainda está escuro e o frio enche-me as mãos. Inspiro profundamente o fresco e o silêncio da madrugada que sempre me acalmam, deixando um torpor na alma e uma lucidez no corpo. É o que se quer – a anestesia.
Hoje não sei. Não sei nada. Mas hoje, particularmente, há uma dúvida enorme, um ponto de interrogação gigante dentro da minha cabeça, querendo alastrar para o resto do corpo como uma doença maligna.
Hoje nem sei. Nem sei se me viro a norte ou a oeste, porque a agulha da minha bússola interna não gira, ou gira descompassada como o meu coração. Giro sobre mim, e para cada lugar que olho vejo o mesmo – eternamente familiar, constantemente estranho. Ainda não pertenço aqui… sei que nunca irei pertencer aqui. Invade-me a amargura, aquele gosto agridoce deixado pelo tempo passado em lutas constantes, em mãos que dão e ficam vazias, em sentimentos que se mostram e não têm espectador. Com que sentido?
Leio num pacote de açúcar que me servem com o café, uma frase retirada de um livro de José M. Saraiva: “Que estranho destino é o meu que apenas me consente paixões ardentes e me faz esgotar em amores improváveis.”

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Da minha língua vê-se o mar

Finalmente!
Soltem-se as velas - amanhã vou partir.
Há uma ansiedade que me queima por dentro como um sol.
Não sei explicar... só sinto que é como nascer de novo após um longo sono ou poder finalmente respirar, encher o peito de ar frio e deixar-me levar pelo sonho.
Quero o chão, quero dar-me às ervas do caminho, quero ver tudo.
É isto que me faz feliz!


"Sento-me aqui, no centro do mundo, no local onde nascem e morrem as tristes ondas do mar, na rocha onde se perdem os restos salgados da nossa ambição e vontade de vencer que nos conduziram pelo mundo fora.
E, passados tantos anos, ainda vejo as naus, ainda vejo mar repleto de heroísmo comandado, à proa, por marinheiros destemidos com roupas esfarrapadas pela ambição.
Hoje, aqui estou, neste promontório de onde se vê o mar, a escrever na mesma língua feita de orgulho de todos os feitos que o meu povo conseguiu.Luto, luto, luto, como se da minha língua visse eternamente o mar, como se este novelo da vida não tivesse fim, como se nas minhas mãos transportasse a glória e o orgulho de quem descobriu algo para além da escuridão do desconhecido.
Hoje, em cada recanto do mundo, existe um pouco daquilo que as nossas mãos foram capazes de construir, há ainda uma réstia do heroísmo, da valentia, da coragem e da simplicidade deste nosso povo português.
Afinal, apenas hoje descobri que fui feliz.
Quando o céu se pintava eternamente de azul e a vida parecia estar em cada uma das estrelas que me acompanhavam, quando os pássaros traziam nos seus bicos a magia de mais um dia, quando sorria e não sabia ao certo que sorria … era feliz.
Na verdade, a felicidade é apenas sorrir, sorrir e levar o mundo na palma da mão, sorrir e desbravar o mar com asas de sonho, sorrir e descobrir o mundo.
Por isso escrevo, escrevo tremulamente enquanto recordo, escrevo nas nuvens do céu, na areia do mar e nas folhas de papel a história de quem venceu, de quem se viu pequeno e ansiou tornar-se grande. * "


"Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.
Da minha língua vê-se o mar.
Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação. ** "




(*) de Isa Mestre
(**) de Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Hino

A vida pode ser vivida de duas formas, como um fogo poderoso que tudo queima, destrói mas também regenera, ou como brasa que aquece lentamente, que conforta e, como incenso, perfuma e acalma.
Eu devia aprender a viver mais como brasa e menos como fogo, mas por mais serena que me sinta, por mais ensinamentos que beba, nem a idade me concede esse juízo.
Para mim a vida só me faz sentido assim - tudo tem de ser paixão, tudo tem de ser perturbador, não sei entrar nem sair de mansinho dos sítios onde deixo o coração!
A montanha que se quer mais alta, o amor que se quer arrebatador, a vitória que se quer sofrida... e caramba, como isto me enche de forças e ao mesmo tempo me esgota...

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia." (Martha Medeiros)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(3) Flood, o corvo branco


Abriu uma asa e depois outra. Assim exposto à luz do dia confundia-se com o horizonte e com as copas das árvores brancas. Flood era diferente. Vivia sozinho no galho mais alto do pinheiro mais alto do bosque para lá do riacho. Ele gostava de erguer a cabeça para o céu e imaginar as formas que as nuvens criavam ao brincar com o vento. Depois fechava os olhos e deixava a brisa fria do outono sacudir-lhe as penas brancas.
Flood tinha o nome do riacho depois das chuvas, quando as águas transbordavam e arrastavam tudo. Flood também transbordava, de emoção, enquanto sonhava com as cores que não conhecia e com os cheiros por descobrir. Como um corvo criança, gostava de rodopiar no ar em grandes acrobacias, fazendo sorrir todos os animais do bosque, cheirando o ar, as cascas dos pinheiros, a neve fria. Ele cheirava tudo, desde as carcaças de que se alimentava, ao canto dos outros pássaros, e de cada vez descobria uma tonalidade diferente, um brilho interior, um novo contorno. Às vezes, com o seu apurado olfacto, descobria também uma ou outra doença nos animais que o consultavam. Era o médico do bosque.
Ao despertar, quando os primeiros raios obliquos da madrugada serpenteavam por entre os ramos, tudo lhe parecia novo e cheio de vitalidade. Flood não tinha medo, era um corvo destemido, forte como a corrente do riacho e livre como as suas margens. Olhava cada dia com todos os sentidos apurados, cada centelha de energia abria-lhe um novo caminho, uma nova visão. Ele amava a vida.
A andorinha chegou finalmente ao bosque nevado. Estava cansada mas feliz. Decidiu arriscar-se pelo pinheiro mais alto que encontrou - de lá conseguiria ver bem todo o horizonte e seria um bom sitio para se abrigar do frio e dos prepadores. Ao pousar no ramo mais alto sentiu que alguém a observava. Olhou em redor e só viu branco. Uma sombra agitou os galhos. A andorinha fixou o olhar e viu um grande corvo que se confundia com o céu. Susteve a respiração e fechou os olhos. Ele aproximou-se, encostou o bico ao corpo frágil dela e deixou-se ali ficar por um instante a absorver o cheiro das suas penas. Ela cheirava a arroz doce com raspa de limão, cheirava a areia quente e ao mesmo tempo a neve fresca. Lembrava-lhe o odor do riacho com salpicos de juncos. A andorinha ganhou coragem e abriu os olhos. O que viu deixou-a sem pio - a olhá-la estavam dois grandes olhos cor da cinza, da cinza de todas as fogueiras do mundo e sorriam para ela. Flood era cego.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Serenata inacabada


Não sei cantar. Mas não tenho medo.
Arriscaria uma serenata com a destreza de um tenor e o compasso de uma cubana.
Não, não tenho medo de dizer que o meu espírito se aquietaria se me abraçasses, enquanto me beijavas o cabelo ainda molhado.
Que o amanhecer saberia melhor se, ainda adormecido, procurasses a minha mão por debaixo do edredon.
Que diria baixinho "gosto de ti" quando me encostasse ao teu peito largo.
Não tenho medo de dizer que adoraria olhar para o teu rosto sério quando estás distraído, fazendo beicinho.
Que me sentiria protegida ao lado da tua altura, como um pássaro na palma da mão.
Que o passar dos dias me faria sentir que és a casa à qual gostaria de regressar todas as noites.
Não tenho medo de dizer que quando a tua boca se enchesse de um sorriso todas as estrelas nasceriam no céu e as trevas se desvaneceriam com vergonha.
Que me queria dar como algodão doce que se cola às mãos. Que olharia a vida com esse sabor, doce, num tormento de paixão.
Que o teu cheiro seria chuva e neve e sol, e que amadureceria tudo em mim como uma espiga de trigo.
Não. Queria não ter medo... de te chamar meu amor...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O homem que não conseguia chorar


Não tenhas pressa...
Tal como outras coisas nesta vida, chorar não tem hora marcada, e um dia chegará a tua vez, forte, sem te aperceberes como nem porquê.
Um dia, talvez, ao ouvires o vento a dançar com as folhas da árvore defronte da tua janela, ao olhares nos olhos azuis, sem fundo, de um recém-nascido. Um dia, no amor, durante aqueles breves segundos de êxtase em que deixas de ser só tu e és tudo: lençóis, ar pesado, estrela cadente ou corpo dilatado até ao infinito. Nesse momento em que já não conseguires reter nada dentro de ti, ai sim, chorarás como uma criança, profundamente e sem sentido. Expelirás, numa longa golfada, mágoa quente, alegria colorida, vingança fria, prazer animal, vitória saborosa, compaixão silenciosa e dor, toda a dor, negra como basalto.
Não tenhas pressa, digo-te eu, que chorar também nos consome e esgota, e é preciso tempo para repor forças e acumular essa seiva viscosa que nos corre pelas veias, como um rio sereno num longo entardecer.
Não tenhas pressa. Um dia a seca acaba e, com um trovão oco, começará a chover nos teus olhos verdes!


Para Miak

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Hoje doem-me as palavras,
demasiado pesadas para um corpo frágil
enchem-me até ao vómito
sufocam-me
e estou tão cansada...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pigmaleão


06h00:Hoje acordei com o despertador. Olhei para as horas fluorescentes no escuro do quarto e perguntei-me que dia da semana seria. Depois lembrei-me do que acabara de sonhar - que tinha ido caminhar para Gredos com o meu irmão. Com o meu irmão??... que não dá dois passos sem ser de carro. Mas lá estávamos os dois, no meio daquela cordilheira de montanhas a formar um anfiteatro.
(Deixo-me ficar mais um bocado de bruços na cama, a cara enterrada na almofada, a apreciar a paisagem já fria de Novembro em Espanha. Como um filme)
Será que já neva por lá? Bateu-me uma vontade tão grande de me por ao caminho...06h17:E foi assim que me levantei e me lembrei de uma canção: "The rain in Spain...". E com essa recordação veio outra - a de uma personagem na história do teatro que sempre me fascinou - Eliza Doolittle. A adaptação musicada ao cinema desta peça, na figura de Audrey Hepburn e da canção é, ainda hoje, uma deliciosa recordação de infância. E, no entanto, esta recordação foi-se alterando com o tempo, na sua essência, no significado da história.
(Olho-me ao espelho. A rebeldia que me sai pelos cabelos e que nem a água lava. Como um grito)
Eliza era uma jovem florista de um bairro pobre, que se vê metida no meio de uma aposta de amigos. Henry Higgins aposta que a consegue fazer passar por uma mulher refinada da alta sociedade, ensinando-a a falar e a vestir correctamente e treinando-a na arte da etiqueta. Mas por mais que Eliza mude, nunca atinge os padrões de perfeição impostos por Henry, acabando por se tornar quase irreconhecível a ela própria. A flor mulher vai definhando pela opressão. Apesar de crescer entre eles uma afeição profunda, Eliza acaba por rejeitar Henry e a sua maneira dominadora e misógena de a tratar.


06h29:
No fim, Eliza percebe que já não pertence a nenhum dos dois mundos que conhece - os ricos não a aceitam como uma deles e ao mesmo tempo não pode regressar ao mundo que deixou para trás.
(Debico o pão com manteiga, de pé junto à bancada, enquanto penso no que dirás quando me vires hoje. Como um desejo)
Esta história que começa com o ideal de Gata Borralheira acaba, de certa forma, a recriar o mito Frankenstein.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Coragem Amor Mudança



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...


(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

(2) Pintas, o gato que gostava de arroz doce

O dia tinha nascido bonito. O sol iluminava o riacho e a andorinha, do alto do limoeiro, gostava de olhar os peixes a nadar no fundo. Pensou para si que um dia também iria saber fazer aquele bailado sincronizado, mas a voar claro. Via as achigãs verdes a debicar à tona da água, os girinos velozes em acrobacias por entre os juncos submersos, ouvia a cantoria das rãs e ao longe o planar silencioso de um milhafre. Esconde-te rã, esconde-te depressa, pensava a andorinha. Abriu os olhos e lembrou-se que tinha ficado de ir buscar umas raspas de limão para fazer arroz doce para oferecer. O Pintas, gato diferente, gostava de limão e mais ainda de arroz doce com limão. O que é que andaste a fazer durante tanto tempo? Andas sempre com a cabeça na lua! - disse o Pintas. A andorinha, triste daquele azedume mais azedo que o limão, não respondeu. Afastou-se para junto da panela e juntou as raspas de limão ao arroz que já estava doce e ficou ali, enroscada ao lume, a aquecer-se. Sentia um frio estranho. Fechou novamente os olhos e pensou no riacho e no vôo do milhafre. Queria tanto voar assim, planar silenciosa até ao deserto, ou apenas até à floresta do outro lado do riacho onde nunca tinha estado. Sabia que lá já nevava pois via as copas das árvores pontilhadas de um branco igual ao seu peito. Colo de Garça era como lhe chamavam. O Pintas não o sabia. Nem nunca lhe tinha perguntado. A andorinha aproximou-se dele e pediu-lhe para a levar no seu dorso até à floresta. Ela gostava tanto de ver a neve e haviam de ficar bem os dois a passear, ele cor de chocolate de leite e ela negra, com o peito a condizer com aquela imensidão branca.
- Achas?! Passas a vida a sonhar e estás sempre a fazer-me perguntas estranhas e inconvenientes. Acho que nem gostas de mim! - disse o Pintas com uma careta.
- Quero conhecer-te! - disse a andorinha.
- Dhaa...- taramelou o Pintas.
- Então eu vou, sozinha, quero arrepiar as asas no fresco da neve.
- Não vais conseguir voar, tens uma asa mordida! - troçou ele.
- Tão certo que consigo, como aquele arroz doce que consegui fazer por ti, mesmo com esta asa mordida. - disse a andorinha segura de si. - Que te aqueça e adoce o coração.
- Eu vou. Adeus! - disse ela com um sorriso a nascer no bico.
Abriu as asas e levantou vôo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

:-)

.
Há quem sonhe com coisas que aconteceram, e explicam porquê.
Eu sonho com coisas que nunca acontecerão e pergunto: porque não?


terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de esta torpe
muchacha que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría."

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

(1) A andorinha que sabia a leite morno



Era uma vez uma pequena andorinha de olhos verdes, peito branco como a manhã e asas cor de carvão.
Ela gostava de ouvir os seus amigos contarem histórias das suas viagens pelo mundo. Um mundo repleto de outros seres alados, gigantes que reluziam ao sol, um mundo onde o ar tinha um sabor diferente, um mundo de terras cobertas por areia amarela muito fina que se entranhava entre as penas, um mundo de um verde tão infinito que tinham de voar durante meio dia para o atravessar. A pequena andorinha ouvia e sonhava. Ouvia e esperava a sua vez de abrir as asas e poder partir também à aventura. Mas havia um medo que a consumia - um dia um gato mordera-lhe a asa e desde então ganhara uma desconfiança para com aqueles seres de quatro patas e uma inabilidade para levantar vôo.
O Pintas chegou num quente dia de Setembro. Lampeiro, gingão, olhos cor de âmbar e sorriso difícil. O Pintas era um gato, como o nome indica, com pintas. Duas apenas, abaixo do queixo, brancas como a manhã e um pelo sedoso cor de chocolate de leite. A andorinha, que até gostava de chocolate, olhou desconfiada para aquele gato. Mas algo nele lhe lembrou o mundo do verde e da areia. Algo nele cheirava a mar e a erva cortada e a fazia voar. O Pintas, que andava sempre de olho nas árvores à procura de um petisco, viu a andorinha a espreitar por detrás de um ramo de limoeiro. Olhou com desdém. Mas algo naquela andorinha lhe lembrou o sabor do leite morno, do cheiro da erva-gateira onde ele gostava de se roçar. Algo nela lhe aquecia o pelo como um banho de sol ao início da tarde. Ele sorriu. E ela, por um breve instante, não sentiu medo.
Não tardaram a meter conversa. Ela sempre no limoreiro. Ele deitado na relva a olhá-la. Falavam dos sonhos ou dos desejos que há muito tempo tinham presos na garganta e na alma. Mas o preconceito também vive entre os animais, entre os gatos, por exemplo, pois deles se diz que são a criação mais perfeita de Deus. Toda a gente sabe isso, e o Pintas sabia-o. Ele, que nunca tinha conhecido uma andorinha de asa mordida por um gato, cortejava-a desajeitadamente - passava a vida a dizer-lhe que ela tinha uma asa torta. A andorinha, doída na asa e agora doída no coração, do alto do limoeiro e do seu orgulho, pensava com quantas forças tinha, que nunca se apaixonaria por aquele gato... mas já era tarde demais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tarte de pêra aquece o coração



Ouço ao longe um helicóptero a esvoaçar como um corvo negro a anunciar o destino. Detesto o barulho dos helicópteros e a sua estúpida mania de prever tudo, o trânsito e a vida das pessoas.

Hoje acordei com frio, um frio tão profundo que não nasce das frentes frias mas da dureza. Um frio que corrói como a ferrugem, pouco a pouco, a lucidez e o coração. Um frio que me dá saudades de ti e ainda nem partiste. Sabes o que eu mais queria? era partilhar esse pedaço de calor que ainda existe dentro de ti, pequeno mas doce como um caroço de pêra.

Olho-te e vejo uma criança perdida aos tropeções dentro de ti. Não foi o caminho para casa que esqueceste, esqueceste foi de construir a casa. Penhoraste o coração, e há coisas que não se pagam, nem trocam, nem se conjugam nunca - dão-se de graça!
Dou-te a minha mão e um beijo... não peço nada em troca, só quero ver esse caroço estrela a iluminar-te o caminho.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008


Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
 
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Estender a mão e não passar indiferente



Um jornal catalão escrevia ontem que menos de 1% do valor conjunto que a União Europeia e os Estados Unidos injectaram no mercado financeiro para conter a crise, seriam suficientes para acabar com a fome em África.
Dá que pensar.

"Deus deu-nos duas mãos. Uma para nós e outra para os outros" (Audrey Hepburn)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje e sempre, sê feliz também

Tu que és Grande, não em altura mas em pensamento e acções.
Tu que és Doce e sombrio ao mesmo tempo.
Tu que és Homem forte, lobo valente, ave livre, flor sensível.
Tu que tens o Belo por detrás do monstro
Tu podes ser feliz...

Olha a tua "Rosa"

Antoine de Saint- Exupéry escreveu: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Nesta sociedade, em que quase tudo é descartável, inclusive o afecto, esta frase pode parecer extremista e descabida. Hoje em dia ninguém se quer responsabilizar por nada: se o emprego é exigente muda-se de emprego, se a árvore tapa a vista da vivenda corta-se a árvore, se os pais estão velhos e chatos enfiam-se num lar, se a mulher não é loura e boa arranja-se uma miúda de 19 anos.
Hoje em dia ninguém se esforça por entender e aceitar os outros (ou as coisas) como eles são e valorizá-los por isso. Já não sabemos nem queremos ver a sabedoria por debaixo de uma cara cheia de rugas, nem a doçura que esconde um sorriso envergonhado ou a dignidade por detrás daquela postura séria.
Hoje, optamos por criar tudo à nossa imagem - não gostamos de pessoas, mas sim da imagem que queremos criar delas, e quando essa visão não atinge a perfeição desejada ou não se deixa enfeitar como queremos, passa-se adiante e atira-se para o lixo em vez de se "reciclar".
Esquecemos frequentemente que no meio dessa imagem distorcida que muitas vezes temos dos outros, está a imagem de nós próprios que não queremos enfrentar.
Esquecemos que é preciso humildade para entender, para opinar, para julgar, para dar e para receber.
Esquecemos que só olhando para os nossos defeitos em vez de julgar os dos outros, poderemos partilhar plenamente a nossa vida com grandes homens e mulheres.

Exupéry escreveu também: "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos".

"(...)E foi então que apareceu a raposa.- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.- Que quer dizer "cativar" ?- É uma coisa muito esquecida. Significa criar laços...Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. Eu não tenho necessidade de ti e tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, teremos necessidade um do outro. Serás para mim, único no mundo. E eu serei para ti, única no mundo. A minha vida será como que cheia de sol." (in O Principezinho)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Castelos de Areia

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

(de João Pereira Coutinho, Jornalista)

Quero a doçura da calma
quero o simples mas belo
quero ouvir
quero que me escutem
quero as montanhas azuis
ou brancas
e uma casa de onde possa olhá-las ao amanhecer
quero a partilha
quero o silêncio
para ouvir o bater de um coração
quero um sorriso
que me faça sorrir
quero respirar fundo
e encher-me de tranquilidade
quero que tudo se renove mas
permaneça constante no meu coração
quero o desafio
quero que me entendam
quero dar e estender a mão
quero um colo
quero olhar nuns olhos
que me façam sonhar
sem medo, sem pressa
quero um beijo ao fim de um dia cansado
quero aprender
quero acreditar em alguém
e que alguém acredite em mim
quero um farol,
uma luz que me guie
quero uns passos com quem vencer o caminho
lado a lado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Respirar fundo


"Sempre que, à medida que fores crescendo, tiveres vontade de converter as coisas erradas em coisas certas, lembra-te de que a primeira revolução a fazer é dentro de nós próprios, a primeira e a mais importante. Lutar por uma ideia sem se ter uma ideia de si próprio é uma das coisas mais perigosas que se pode fazer.
Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar."
(Susanna Tamaro in Vai onde te leva o coração)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As marcas que deixamos no caminho e que o caminho deixa em nós



"Caminhante, as tuas pegadas
São o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar faz-se o caminho
E ao olhar-se para trás,
Vê-se a senda que jamais
Se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Somente sulcos no mar."
.
.
(do poeta espanhol Antonio Machado)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sem palavras


Eu, portuguesinha de gema e branca como o Omo, senti-me indignada com este cartaz, revoltada até.
Há muitos anos atrás a minha mãe, assim como outras tantas mães e pais portugueses, também foi emigrante pelas terras de França, também esteve ilegal, também fez o trabalho que a maioria dos cidadãos franceses não queriam fazer.

Hoje, em Portugal, a mão de obra emigrante é sem dúvida uma mais valia para a nossa economia, quer se queira quer não. Aqueles que cá chegaram para ganhar o dinheiro que lhes permita dar uma vida melhor a si e às suas famílias; aqueles que estão longe dos que falam a mesma língua; muitas vezes sós e desenraizados; na maioria das vezes sujeitos a tratamento desigual e em más condições de subsistência; são aqueles que fazem o trabalho que nós portugueses não queremos fazer.

Na questão da emigração, como em muitas outras, existem coisas boas e más. Mas dai a dizer que a culpa da crise e da violência em Portugal é dos emigrantes (e não do excessivo endividamento, em tempo das vacas gordas, para podermos ostentar aquilo que na realidade não precisamos) é uma tremenda ignorância.

Ao ver este cartaz, lembrei-me que há muitas décadas atrás numa Alemanha também mergulhada na crise, nasceu uma ideologia que fez de um determinado povo o seu bode expiatório e que acabou na morte vergonhosa de milhões de pessoas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O sonho comanda a vida

Cresta final do Castor (4.228 mt)

Eu bem tento manter-me longe das alturas por razões de saúde. Tento não pensar nas montanhas nevadas, nem no sabor da descoberta e da conquista, mas não consigo. Quando me afasto física e mentalmente das montanhas, passo os dias triste e melancólica. Fico desorientada e sem saber o que vou fazer a seguir ou o que vai ser de mim, pois deixo para trás aquilo que se tornou o meu objectivo de vida. Parece um bocado exagerado, mas esta é a verdade - quando me afasto das montanhas fico só...e sinto-me só.
É nestes momentos que percebo o bem que este desporto me faz e como me deixa feliz. Por isso resolvi voltar a pensar nas montanhas, a sonhor com elas pelo menos. Com passinhos de lã, comecei novamente a treinar.
Embrenhada neste pensamentos acabei por descobri ontem duas montanhas espectaculares, num sítio onde estive há 3 anos atrás - Zermatt... e voltei a sorrir :-)

Breithorn e Castor, duas montanhas nos Alpes!

Breithorn (4.164 mt)

Liskamm, Pollux e Castor

Vale de Zermatt

Face Norte do Breithorn

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

À Janela


Quem quer que sejamos deste lado, no éter ou no limbo da fibra óptica, nós mesmos ou a imagem do que gostariamos de ser, o certo é que se vão criando ligações e hábitos tão rotineiros como os do dia a dia.
É por isso que algumas das pessoas com quem me cruzo neste espaço digital, acabam sendo como um grupo de amigos que me visita em casa ou com quem tomo um café ao fim do dia.
Não interessa se vivem em Lisboa, em Leiria ou do outro lado do atlântico, se falam português ou espanhol. À distância de um bit falamos todos a mesma linguagem e vivemos todos no mesmo quarteirão, com os nossos sonhos, as nossas dúvidas e as nossas buscas.
A companhia uns dos outros acaba sendo algo bom e com que contamos, mesmo que não seja mais que uma visita virtual, porque muitas vezes isso basta.
Não é uma substituição do real pelo ilusório, é apenas o reinventar de uma forma de comunicação, de aprendizagem, de admiração e até de amizade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Os guerreiros da luz reconhecem-se pelo olhar.
Estão no mundo, fazem parte do mundo, e ao mundo foram enviados sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem correctamente.
Os guerreiros da luz sofrem por tolices, preocupam-se com coisas mesquinhas, julgam-se incapazes de crescer.
Os guerreiros da luz, de vez em quando, crêem-se indignos de qualquer bênção ou milagre.
Os guerreiros da luz, com frequência, interrogam-se sobre o que fazem aqui.
Muitas vezes acham que as suas vidas não têm sentido.
Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque se interrogam.
Porque continuam a procurar um sentido. E acabarão por encontrá-lo."


(Paulo Coelho in Manual do Guerreiro da Luz)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Perfil


Porque hoje está um dia bonito.
E tenho vontade de cantar.
E sinto que dentro deste corpo não cabe nem metade do que sou,
nem do que tenho para dar.
Porque há um sorriso no meu rosto com sabor a fruta madura
Rebelde, gato bravo, anjo que ganhou asas.
Se um pássaro voar sobre a tua cabeça, sou eu!


"Não.
Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida."

(Miguel Torga in Diário XIII)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Estou aqui e não estou em lado nenhum.
A minha cabeça passa o tempo todo a vaguear noutros lugares,
como um balão ao qual cortaram a guita.
.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mágoa

não me fales da neve.
não me fales das pedras que apanho, nem do orvalho na giesta
não me fales das fragas, dos cavalos selvagens, nem das lagoas nos prados
não me fales das montanhas brancas que tocam o céu ou do ar rarefeito nos meus pulmões
não me fales dos risos pelos trilhos nem das mãos que se tocam
não me fales do pó, nem do calor, nem da sede ou dos poços nas hortas
não me fales da carqueja amarela, nem da casa dos nossos sonhos
não me fales da bruma no caminho, do pão ao almoço ou das árvores que trepo
não me fales das botas que moveram montanhas, nem das montanhas que moveram a minha vida
não me fales da neve...não digas nada.
.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Felicidade, Prazer, Dor e Amor



Que bom que é sair do cinema com aquela sensação de algo ganho, de algo que se aprende, que nos surpreende ou nos faz pensar.
Assim foi ontem com o
"O Ar que Respiramos".

Filme brilhante na realização e na interpretação (com um elenco de luxo - Kevin Bacon, Forest Whitaker, Andy Garcia, Sarah Michelle Gellar, Brendan Fraser, Julie Delpy, Emile Hirsch).
Baseado num provérbio chinês que divide a vida em quatro emoções principais: a felicidade, o prazer, a dor e o amor; este filme narra quatro histórias, ou quatro vidas, todas elas interligadas.

A não perder!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008


Há quanto tempo reténs a respiração?
Há quanto tempo dura o mergulho nesse oceano
que é agora a tua vida?
Terá valido a pena trocares o vendaval
pela calmaria do azul profundo?
Foi isso que te fizeram prometer?
Foi esse o preço que pagaste?

Lucille Maud Montgomery disse "pagamos um preço por tudo o que obtemos neste mundo, e embora valha a pena ter ambições, a sua conquista nunca é barata".
.
.

sábado, 13 de setembro de 2008

Como um mergulho no escuro

"8850 metros de altitude: não faço ideia do que seja, não imagino o que se possa sentir. Sei apenas que há-de ser algures, física e emocionalmente, o lugar mais próximo dos deuses que os homens podem alcançar aqui na terra. Sei que deve ser um lugar de abismos e de espantos, de sonho e de demência, vago, impreciso, envolto em névoa e em pavor e, todavia, ali mesmo ao alcance do derradeiro esforço.
A solidão é a marca dos grandes viajantes, dos obstinados, a doença da lucidez. A solidão é o primeiro e o último desafio do homem e começa sempre, sempre, por um referente físico, que funciona como um limite: pode ser um limite vertical, como na montanha, pode ser como no mar um limite de profundidade, ou pode ser como no deserto um limite horizontal.
Além, no cume da mais alta montanha, no fundo do mar onde a luz já nao entra ou na vastidão de areia onde a violência da luz apaga todas as arrogâncias, estamos sós, irremediavelmente sós. Nenhum passo caminha atrás do nosso passo, nenhum eco reproduz a nossa voz, nenhuma mão se estenderá se o vazio ou o abismo engolirem o nosso desafio aos deuses.
Mas, na verdade, há viagens sem regresso, há coisas de que nunca mais se volta, ainda que se esteja aqui, agora."
.
(A Mais Alta Solidão - prefácio de Miguel Sousa Tavares)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Grandes Homens e Mulheres

Que há muita coisa mal, que este mundo está do avesso por valorizar mais o futebol de milhões (pessoas e euros), e que estes actos deveriam servir de exemplo para todos nós que vivemos agarrados ás nossas pequenas mazelas, já nós sabemos.
Mas hoje só me apetece falar de coisas boas - Portugal conquistou ontem duas medalhas nos Jogos Paralímpicos Pequim 2008. O interessante não é tanto saber se são de ouro, prata ou bronze, mas sim por quem foram ganhas - João Paulo Fernandes e António Marques.

Para mim é uma alegria, uma motivação e um motivo de orgulho ver que pessoas com deficiências, algumas delas severas, consigam superar tantos obstáculos, não só físicos como também de apoios financeiros, logísticos e até mediáticos, e mesmo assim obter bons resultados e dignificar o nosso país.

Ontem vi atletas nadar sem pernas ou só com um braço, correr com descoordenação motora ou em cadeira de rodas, invisuais a velejar... Ontem a minha filha, na sua tenra idade, disse "mãe, disto é que nos deviamos orgulhar e divulgar", e ela tinha razão.

Parabéns a todos estes grandes homens e mulheres!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Is there sand in my eyes?

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.(...)
E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."


(in "Kafka à Beira Mar" de Haruki Murakami)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Um espírito inquieto


  1. Como é o teu espírito? Empreendedor, corajoso, fraco, revolucionário, oportunista, acomodado, …?
    O meu, é sobretudo um espírito inquieto.
    Mas esta inquietude cansa e desgasta. É assim que me sinto muitas vezes.
    Dou-me conta que passo o tempo em busca de algo, numa permanente insatisfação. Sou “perguntadeira”, sou curiosa, anseio por aprender, por descobrir tudo, numa sofreguidão de esfomeado – o que lês, porque o lês, o que sentes, em que momento, qual o sonho, onde dói? E em cada descoberta, no meu espírito, fica sempre um espaço por preencher, uma lacuna que me leva a querer aprender e descobrir mais e mais. Nada tem um fim, nada se ordena, vivo em desassossego. E hoje estou tão cansada.
  2. O meu sonho - queria viver no campo, ter animais, ter uma horta, estar perto das montanhas – é tão simplista que dou por mim a pensar que só posso estar a ficar louca. Ninguém quer viver no meio do nada e ainda por cima ter de cavar batatas.
    Nesta cidade, no meio da confusão do dia a dia, da hipocrisia de muitas vidas, das falsas aparências, da bebedeira do “vende-compra-consome”, esta minha loucura é solidão.
    É por isso que quando encontro alguém que partilha o mesmo tipo de sonho, fico feliz, porque sinto que não estou só na minha loucura. É reconfortante saber que há alguém por ai que sente o mesmo que eu e aspira a algo parecido.
    Afinal, talvez não seja nenhuma utopia.
    Afinal, deve haver um sítio onde as pessoas possam ser verdadeiramente elas.
  3. Esta manhã apanhei o comboio das 7h21, coisa que não fazia há um par de anos. Sentei-me. No banco à minha frente ia um casal que reconheci de imediato. Olhei bem e lembrei-me. Eles estavam sentados nos mesmos bancos de há 2 anos atrás, exactamente no mesmo local – um de frente para o outro, ele a ler um livro, ela uma revista cor-de-rosa. Será possível que nada tenha mudado naquelas duas vidas? Que os horários do comboio não tenham mudado, que outras pessoas não tenham vindo ocupar aqueles lugares, que não se tenham divorciado? Não. O nosso corpo muda, as células envelhecem, mas tudo à nossa volta permanece imutável, como o ir e vir das estações do ano. Pensei para mim “Será que na realidade alguma coisa, alguma vez, muda?”, e depois dei-me conta que também eu estava sentada exactamente no mesmo banco que ocupava há 2 anos atrás!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tocar o céu


O que penso quando subo uma montanha?!
Tudo começa muito tempo antes, antes sequer de estar junto à montanha. Nos meses que antecedem a escalada, em casa, a ler os mapas e os relatos de quem já fez aquela jornada e a ver as fotos em revistas da especialidade.
E com o sonho nasce o entusiasmo.
Quando dou por mim, o meu espírito já está a 3.000 mt de altitude, enterrado em neve até aos joelhos.
Sem nunca lá ter estado, os meus olhos conseguem desenhar o trilho e fazer um filme completo e a cores de todo o percurso, das paisagens, e até do esforço a dispender.
Em última instância, é esta vontade e entusiasmo que me mantêm viva, por dentro e por fora.
Uma vez um amigo chamou-me visionária e eu não entendi o que isso queria dizer, nem me reconheci em tal expressão. Ele depois explicou-me que isso significava que eu conseguia visualizar as coisas e as situações muito antes de as ter experimentado.
Perante isto, seria de esperar que eu achasse o montanhismo desinteressante, não fosse eu não me contentar só com o sonho. É preciso concretizá-lo.

Assim, para mim subir uma montanha é reconhecer um caminho. É olhar cada pedra com admiração, cada bloco de gelo com a adrenalina a correr velozmente nas veias, cada cume com respeito.
Pé ante pé, é isso que me impulsiona, que me dá força e me abstrai da dor.
Consegui chegar ali. Consegui superar as minhas fraquezas e tornar real algo que até ali só existia na minha imaginação.
E no cume, respiro pela primeira vez. Abro bem os olhos. Tudo o que vejo me enche por dentro e sou neve, rocha, nuvem e pássaro – o êxtase deve ser isto.
Estendo a mão, toco o céu, e por um breve instante sou parte de Deus.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Primeiramente

.
.
.
"Night has brought to those who sleep, only dreams they can not keep."
(Enya - Paint the sky with stars)
.
.
.
.
.
.
Acordo sem o contorno do teu rosto na
minha almofada, sem o teu peito liso e claro
como um dia de vento, e começo a erguer a
madrugada apenas com as duas mãos que
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os
meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela
te procuro, encostado ao teu nome, pelas
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão
aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor duma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca -
e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos
pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e
perguntar o que aconteceu.


(Eugénio de Andrade)