quinta-feira, 30 de outubro de 2008

:-)

.
Há quem sonhe com coisas que aconteceram, e explicam porquê.
Eu sonho com coisas que nunca acontecerão e pergunto: porque não?


terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de esta torpe
muchacha que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría."

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

(1) A andorinha que sabia a leite morno



Era uma vez uma pequena andorinha de olhos verdes, peito branco como a manhã e asas cor de carvão.
Ela gostava de ouvir os seus amigos contarem histórias das suas viagens pelo mundo. Um mundo repleto de outros seres alados, gigantes que reluziam ao sol, um mundo onde o ar tinha um sabor diferente, um mundo de terras cobertas por areia amarela muito fina que se entranhava entre as penas, um mundo de um verde tão infinito que tinham de voar durante meio dia para o atravessar. A pequena andorinha ouvia e sonhava. Ouvia e esperava a sua vez de abrir as asas e poder partir também à aventura. Mas havia um medo que a consumia - um dia um gato mordera-lhe a asa e desde então ganhara uma desconfiança para com aqueles seres de quatro patas e uma inabilidade para levantar vôo.
O Pintas chegou num quente dia de Setembro. Lampeiro, gingão, olhos cor de âmbar e sorriso difícil. O Pintas era um gato, como o nome indica, com pintas. Duas apenas, abaixo do queixo, brancas como a manhã e um pelo sedoso cor de chocolate de leite. A andorinha, que até gostava de chocolate, olhou desconfiada para aquele gato. Mas algo nele lhe lembrou o mundo do verde e da areia. Algo nele cheirava a mar e a erva cortada e a fazia voar. O Pintas, que andava sempre de olho nas árvores à procura de um petisco, viu a andorinha a espreitar por detrás de um ramo de limoeiro. Olhou com desdém. Mas algo naquela andorinha lhe lembrou o sabor do leite morno, do cheiro da erva-gateira onde ele gostava de se roçar. Algo nela lhe aquecia o pelo como um banho de sol ao início da tarde. Ele sorriu. E ela, por um breve instante, não sentiu medo.
Não tardaram a meter conversa. Ela sempre no limoreiro. Ele deitado na relva a olhá-la. Falavam dos sonhos ou dos desejos que há muito tempo tinham presos na garganta e na alma. Mas o preconceito também vive entre os animais, entre os gatos, por exemplo, pois deles se diz que são a criação mais perfeita de Deus. Toda a gente sabe isso, e o Pintas sabia-o. Ele, que nunca tinha conhecido uma andorinha de asa mordida por um gato, cortejava-a desajeitadamente - passava a vida a dizer-lhe que ela tinha uma asa torta. A andorinha, doída na asa e agora doída no coração, do alto do limoeiro e do seu orgulho, pensava com quantas forças tinha, que nunca se apaixonaria por aquele gato... mas já era tarde demais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tarte de pêra aquece o coração



Ouço ao longe um helicóptero a esvoaçar como um corvo negro a anunciar o destino. Detesto o barulho dos helicópteros e a sua estúpida mania de prever tudo, o trânsito e a vida das pessoas.

Hoje acordei com frio, um frio tão profundo que não nasce das frentes frias mas da dureza. Um frio que corrói como a ferrugem, pouco a pouco, a lucidez e o coração. Um frio que me dá saudades de ti e ainda nem partiste. Sabes o que eu mais queria? era partilhar esse pedaço de calor que ainda existe dentro de ti, pequeno mas doce como um caroço de pêra.

Olho-te e vejo uma criança perdida aos tropeções dentro de ti. Não foi o caminho para casa que esqueceste, esqueceste foi de construir a casa. Penhoraste o coração, e há coisas que não se pagam, nem trocam, nem se conjugam nunca - dão-se de graça!
Dou-te a minha mão e um beijo... não peço nada em troca, só quero ver esse caroço estrela a iluminar-te o caminho.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008


Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
 
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Estender a mão e não passar indiferente



Um jornal catalão escrevia ontem que menos de 1% do valor conjunto que a União Europeia e os Estados Unidos injectaram no mercado financeiro para conter a crise, seriam suficientes para acabar com a fome em África.
Dá que pensar.

"Deus deu-nos duas mãos. Uma para nós e outra para os outros" (Audrey Hepburn)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje e sempre, sê feliz também

Tu que és Grande, não em altura mas em pensamento e acções.
Tu que és Doce e sombrio ao mesmo tempo.
Tu que és Homem forte, lobo valente, ave livre, flor sensível.
Tu que tens o Belo por detrás do monstro
Tu podes ser feliz...

Olha a tua "Rosa"

Antoine de Saint- Exupéry escreveu: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Nesta sociedade, em que quase tudo é descartável, inclusive o afecto, esta frase pode parecer extremista e descabida. Hoje em dia ninguém se quer responsabilizar por nada: se o emprego é exigente muda-se de emprego, se a árvore tapa a vista da vivenda corta-se a árvore, se os pais estão velhos e chatos enfiam-se num lar, se a mulher não é loura e boa arranja-se uma miúda de 19 anos.
Hoje em dia ninguém se esforça por entender e aceitar os outros (ou as coisas) como eles são e valorizá-los por isso. Já não sabemos nem queremos ver a sabedoria por debaixo de uma cara cheia de rugas, nem a doçura que esconde um sorriso envergonhado ou a dignidade por detrás daquela postura séria.
Hoje, optamos por criar tudo à nossa imagem - não gostamos de pessoas, mas sim da imagem que queremos criar delas, e quando essa visão não atinge a perfeição desejada ou não se deixa enfeitar como queremos, passa-se adiante e atira-se para o lixo em vez de se "reciclar".
Esquecemos frequentemente que no meio dessa imagem distorcida que muitas vezes temos dos outros, está a imagem de nós próprios que não queremos enfrentar.
Esquecemos que é preciso humildade para entender, para opinar, para julgar, para dar e para receber.
Esquecemos que só olhando para os nossos defeitos em vez de julgar os dos outros, poderemos partilhar plenamente a nossa vida com grandes homens e mulheres.

Exupéry escreveu também: "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos".

"(...)E foi então que apareceu a raposa.- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.- Que quer dizer "cativar" ?- É uma coisa muito esquecida. Significa criar laços...Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. Eu não tenho necessidade de ti e tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, teremos necessidade um do outro. Serás para mim, único no mundo. E eu serei para ti, única no mundo. A minha vida será como que cheia de sol." (in O Principezinho)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Castelos de Areia

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

(de João Pereira Coutinho, Jornalista)

Quero a doçura da calma
quero o simples mas belo
quero ouvir
quero que me escutem
quero as montanhas azuis
ou brancas
e uma casa de onde possa olhá-las ao amanhecer
quero a partilha
quero o silêncio
para ouvir o bater de um coração
quero um sorriso
que me faça sorrir
quero respirar fundo
e encher-me de tranquilidade
quero que tudo se renove mas
permaneça constante no meu coração
quero o desafio
quero que me entendam
quero dar e estender a mão
quero um colo
quero olhar nuns olhos
que me façam sonhar
sem medo, sem pressa
quero um beijo ao fim de um dia cansado
quero aprender
quero acreditar em alguém
e que alguém acredite em mim
quero um farol,
uma luz que me guie
quero uns passos com quem vencer o caminho
lado a lado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Respirar fundo


"Sempre que, à medida que fores crescendo, tiveres vontade de converter as coisas erradas em coisas certas, lembra-te de que a primeira revolução a fazer é dentro de nós próprios, a primeira e a mais importante. Lutar por uma ideia sem se ter uma ideia de si próprio é uma das coisas mais perigosas que se pode fazer.
Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar."
(Susanna Tamaro in Vai onde te leva o coração)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As marcas que deixamos no caminho e que o caminho deixa em nós



"Caminhante, as tuas pegadas
São o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar faz-se o caminho
E ao olhar-se para trás,
Vê-se a senda que jamais
Se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Somente sulcos no mar."
.
.
(do poeta espanhol Antonio Machado)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sem palavras


Eu, portuguesinha de gema e branca como o Omo, senti-me indignada com este cartaz, revoltada até.
Há muitos anos atrás a minha mãe, assim como outras tantas mães e pais portugueses, também foi emigrante pelas terras de França, também esteve ilegal, também fez o trabalho que a maioria dos cidadãos franceses não queriam fazer.

Hoje, em Portugal, a mão de obra emigrante é sem dúvida uma mais valia para a nossa economia, quer se queira quer não. Aqueles que cá chegaram para ganhar o dinheiro que lhes permita dar uma vida melhor a si e às suas famílias; aqueles que estão longe dos que falam a mesma língua; muitas vezes sós e desenraizados; na maioria das vezes sujeitos a tratamento desigual e em más condições de subsistência; são aqueles que fazem o trabalho que nós portugueses não queremos fazer.

Na questão da emigração, como em muitas outras, existem coisas boas e más. Mas dai a dizer que a culpa da crise e da violência em Portugal é dos emigrantes (e não do excessivo endividamento, em tempo das vacas gordas, para podermos ostentar aquilo que na realidade não precisamos) é uma tremenda ignorância.

Ao ver este cartaz, lembrei-me que há muitas décadas atrás numa Alemanha também mergulhada na crise, nasceu uma ideologia que fez de um determinado povo o seu bode expiatório e que acabou na morte vergonhosa de milhões de pessoas.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O sonho comanda a vida

Cresta final do Castor (4.228 mt)

Eu bem tento manter-me longe das alturas por razões de saúde. Tento não pensar nas montanhas nevadas, nem no sabor da descoberta e da conquista, mas não consigo. Quando me afasto física e mentalmente das montanhas, passo os dias triste e melancólica. Fico desorientada e sem saber o que vou fazer a seguir ou o que vai ser de mim, pois deixo para trás aquilo que se tornou o meu objectivo de vida. Parece um bocado exagerado, mas esta é a verdade - quando me afasto das montanhas fico só...e sinto-me só.
É nestes momentos que percebo o bem que este desporto me faz e como me deixa feliz. Por isso resolvi voltar a pensar nas montanhas, a sonhor com elas pelo menos. Com passinhos de lã, comecei novamente a treinar.
Embrenhada neste pensamentos acabei por descobri ontem duas montanhas espectaculares, num sítio onde estive há 3 anos atrás - Zermatt... e voltei a sorrir :-)

Breithorn e Castor, duas montanhas nos Alpes!

Breithorn (4.164 mt)

Liskamm, Pollux e Castor

Vale de Zermatt

Face Norte do Breithorn

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

À Janela


Quem quer que sejamos deste lado, no éter ou no limbo da fibra óptica, nós mesmos ou a imagem do que gostariamos de ser, o certo é que se vão criando ligações e hábitos tão rotineiros como os do dia a dia.
É por isso que algumas das pessoas com quem me cruzo neste espaço digital, acabam sendo como um grupo de amigos que me visita em casa ou com quem tomo um café ao fim do dia.
Não interessa se vivem em Lisboa, em Leiria ou do outro lado do atlântico, se falam português ou espanhol. À distância de um bit falamos todos a mesma linguagem e vivemos todos no mesmo quarteirão, com os nossos sonhos, as nossas dúvidas e as nossas buscas.
A companhia uns dos outros acaba sendo algo bom e com que contamos, mesmo que não seja mais que uma visita virtual, porque muitas vezes isso basta.
Não é uma substituição do real pelo ilusório, é apenas o reinventar de uma forma de comunicação, de aprendizagem, de admiração e até de amizade.