sábado, 26 de julho de 2008

Celta

Carrego o teu coração comigo...
Carrego-o no meu coração!
Nunca estou sem ele.
E, onde eu for, tu vais comigo!
E o que quer que faça, faço por ti...
Não temo o destino
Pois tu és o meu destino!
Não quero o mundo
Pois tu és o meu mundo, a minha verdade!
E tu és o que a lua sempre significou
E o que quer que o sol transmita, és tu
Eis o grande segredo, que ninguém sabe
Aqui está a raíz da raíz, o broto do broto,
e o céu do céu, de uma árvore chamada vida,
que cresce mais do que alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
E, esse é o prodígio que mantém as estrelas à distância...
Carrego o teu coração comigo
Carrego-o no meu coração!

Edward Cummings (modificado)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O vulcão dentro de mim

Domingo parto para os Pirinéus para tentar conquistar o Posets (3375 mt).
Foi uma semana desgastante no trabalho e não tive muito tempo para pensar na aventura que se aproximava. Mas ontem comecei a organizar os víveres, o saco cama, a roupa. Juntei tudo num monte, que será a minha vida e sobrevivência durante 5 dias. E subitamente aquilo que era ainda só um sonho, começou a ganhar forma e a tornar-se realidade.
É nestes momentos que me apercebo da minha vulnerabilidade, da minha condição de humana mortal. É nestes momentos que desperta uma ponta de medo dentro da minha barriga e que a adrenalina sai pelos poros todos e me faz vibrar de emoção.
Hoje, por isto tudo, lembrei-me de um poema que fala de forças e de vontades...
Até breve!
.
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
(…)
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflicta em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
(…)
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Um dia amigo, um dia...

Manda-me uma foto amigo. Deves ter percebido que eu também gostava de ter uma foto tua. Sim, eu sei que tu sabes, mas mesmo assim finges não perceber. Sim, como sempre aconteceu - os pensamentos e sonhos que ambos adivinhávamos sem ser preciso dizer nada.

Manda-me uma foto amigo, que não te vejo desde há tantos anos, ou talvez desde há pouco, porque a tua imagem é parte das minhas células. Não tenhas medo, nem vergonha, nem seria preciso amigo, pois quem já te viu como eu vi, do direito e do avesso, neste mundo e na lua... Não, não tenhas vergonha se a barriga pesa mais, ou os cabelos estão mais ralos e brancos, porque para mim serás sempre como uma flor acabada de desabrochar. Sim, uma flor, daquelas amarelas de que tanto gostávamos, daquelas que pintámos nos nossos corpos em tempos de guerra.


Manda-me uma foto amigo, que não te vejo há tantos anos e certamente muitos mais passarão até nos reencontrarmos. Muitos mesmo, tantos que poderemos contar no rosto um do outro os silêncios que fomos tecendo bem dentro das nossas cabeças.
Não te vás sem nos reencontrarmos, porque algo em mim se apagaria nesse instante para nunca mais retornar à vida. Não te vás, que não te perdoo e irei procurar-te lá, onde estiveres, provavelmente à vontade entre os anjos, mas juro que vou.

Promete-me amigo, promete-me que vamos tirar uma foto juntos, talvez lá para os sessentas, num qualquer barco de cruzeiro... Lembras-te? Sim, num barco de cruzeiro, quando já não houver mais nada que nos prenda ao mundo e apenas nós... finalmente sem destino e sem fim.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante para mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que o meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz aos que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é o meu sentimento... e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obtenha êxito e seja plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquilhar de verde e entendê-lo como SIM.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante para mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.

(Mário Quintana)

domingo, 20 de julho de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O reflexo no espelho

A minha mãe foi ontem hospitalizada.
Foi triste perceber nela aquele olhar de quem finalmente iria ter um pouco de alívio. Alívio que eu não lhe consigo dar, nem outras pessoas, mas apenas os medicamentos ou um qualquer Deus que ela há vezes nem sabe se existe.

Eu, como quase toda a gente, detesto hospitais, detesto aquele cheiro a tristeza e fraqueza que se cola a nós sempre que lá entramos, aquele medo irracional da vulnerabilidade.
Mas a situação não é nova e por isso já sei de cor os nomes dos serviços, dos enfermeiros, das rotinas
médicas, do que se pode ou não comer, e dou por mim a pensar no que virá por aí depois de mais exames e explicações médicas que eu não quero entender.


Dou por mim seriamente a pensar se os meus genes me levarão um dia também para aquela situação, e por um momento sinto-me apanhada na teia de uma vida que eu não teci, mas que me está destinada por direito de nascença.

Desde muito cedo que soube que não queria viver uma vida parecida com a dela e sempre tentei contrariar tudo o que me parecesse minimamente semelhante ao que ela tinha feito. Tentei de tudo, desde ser a filha exemplar, a fazer tudo certo, perfeito, composto, organizado. Como não resultou, tentei ser a ovelha tresmalhada, tentei abraçar uma nova filosofia de vida, mas parece que a cada passo que dou me aproximo mais de cometer os mesmos erros que ela um dia cometeu, de dizer as mesmas coisas que ela um dia disse e de sentir o mesmo que ela me dizia sentir.

No fim percebo que ela tem a força e o entusiasmo que eu reconheço em mim, os mesmo sonhos, e nem a coragem lhe faltou…mas então o que correu mal?
No fim percebo que o que ela não teve foi com quem aprender… e eu ainda tenho!

Um beijo de boa noite mãe.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

ps:...


Sim, para amar é preciso Atrevimento para arriscar a estender a mão e oferecer um beijo;
Loucura para nos atirarmos ao abismo apesar de sabermos que vamos inevitavelmente aterrar de cabeça;
Desassossego pelas noites mal dormidas a pensar no dia do reencontro;
Audácia para darmos o corpo, o beijo, a alma, o ar que respiramos, até não restar mais nada dentro de nós, e mesmo assim sentirmos que o mundo todo (ou só ele) nos enche a alma;
Desespero pelo olhar durar apenas o instante breve de um bater das asas;
Perdição, porque só assim faz sentido!

Ama-me, se te atreves!

sábado, 12 de julho de 2008

A liberdade das tuas palavras que me aprisionava

Fez por estes meses, Junho se bem me lembro, 3 anos que morreste...

Conheci-te tinha 16 anos mal feitos, numa altura de grandes revoluções, soluços ou sobressaltos na minha vida, não sei bem como lhes chamar, mas foram sem dúvida grandes e importantes.


Ainda me lembro, era também uma tarde quente de verão e eu ia sentada no barco que atravessa ao tejo manso.
Desfolhei-te... e fiquei presa para sempre, como um rio ao seu leito, mas instável como as suas margens.

Descobri dentro dos teus poemas a mesma inquietude e inconformismo, o amor ainda encantado e até o cansaço que eu já sentia. Talvez, como tu, procurasse encontrar a paz que só as folhas dos livros me davam.
Cada poema ou cada conto era um mundo onde me refugiava, e por um instante mágico era princesa, ou árvore, ou Che Guevara, e livre para viver os meus sonhos.

A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em tio rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

(Eugénio de Andrade - Agosto 1978)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Maiorca - Torrent de Pareis (Torrente dos Gêmeos)


"(...) Mas sentia falta das montanhas. Não, a vida não tem sentido sem montanhas enevoadas. Não nos podemos medir sem elas e acho que as pessoas devem medir-se constantemente para evitar sentirem-se mais pequenas." (in O quase fim do mundo - Pepetela)

Regressei de férias com aquela melancolia própria de quem ainda sente o cheiro adocicado a figos pelo ar, o quente das águas verde esmeralda, o sabor das comidas diferentes...e dos daiquiris e dos gins tónicos. Nas minhas férias houve também montanhas. Montanhas com o mar em fundo. Estradas estreitas, impróprias para cardiacos. Árvores a crescer em rochedos debruçados sobre o mar.
O tempo passa tão depressa quando se está bem, como que a querer dizer-nos "isto é só uma amostra do que a vida tem para te dar, tanta coisa boa, é só procurar...e nunca desistir de lá chegar!"

"O quase fim do mundo" do escritor angolano Pepetela foi o meu livro de férias. Vale a pena ler, pois a história é fantástica e muito bem contada, sempre com aquele gingar africano que me fazia rir onde quer que estivesse.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Para a minha filha

Nesta data, há vários anos atrás, nascia a minha linda princesa, de quem tanto me orgulho... hoje e sempre.
Que encontres sempre espaço para florir, mesmo por entre as pedras do caminho!

"Procurei um poema, para ti filha,
vasculhei tudo, tudo, na memória
- esforcei-me e desisti.

Nenhum
diz o teu sorriso
ou as tuas mãos no meu pescoço,
o teu olhar, a tua doçura.

Não há poema que te sirva,
que te diga
mesmo quando fazes birra e choramingas.
Não existem palavras
que falem do amor
e das cerejas ainda flor
ou o carinho que contigo conheci.

Não há poema que te desenhe,
minha filha pequenina,
papoila, menina ou borboleta,
andorinha e feiticeira."

(Fátima Pinto Ferreira)