Ele era um homem bem-posto do alto do seu metro e noventa. Vestia o fato escuro como uma concha impenetrável à mácula. No rosto aquele constante sorriso educado. Era um homem cordial e até prestável. Tinha mulher e filhos, respeitosamente instituídos. Falava educadamente, sempre no tom correto, sempre sem se desviar da norma. Porque a norma era o seu cartão de visita. Porque ele era um diplomata.
Ela era magra, há quem dissesse demasiado magra, como se algo lhe sugasse as forças. Sempre que podia vestia calças de ganga e t-shirt branca e tinha sempre o cabelo desalinhado e a cabeça nas nuvens. Sonhava. Sonhava muito e esperava. E quando acordava a meio da noite era nele que pensava. Estendia o braço na escuridão e sentia que quase o conseguia tocar. Durante o dia escrevia a sua história em palavras estúpidas de amor e mágoa e fingia que vivia. Dava sempre um pouco mais de si a cada passo, achando que podia ter dado talvez um pouco mais. Nada lhe era suficiente para compensar os sonhos dos quais procurava fugir. Ela amava-o.
Ele olhava para ela com uma curiosidade que não conseguia disfarçar. Ela fugia à sua norma e isso excitava-o. Fazia-o sentir-se vivo. Fazia-o sonhar com uma vida diferente da que levava, menos imaculada, talvez menos sorridente, mas mais estimulante. No entanto, as palavras de amor e mágoa que ela insistia em escrever deixavam-no desconfortável e davam-lhe ainda mais força para seguir com fervor o seu caminho de diplomacia. Certo das suas escolhas. Confiante do destino que traçara. As palavras dele para ela eram, tal como ele, educadas e matemáticas. Como um fumador que fuma compulsivamente às escondias para não admitir a si próprio que é um viciado.
Um dia ela vai pedir-lhe para o ver e ele vai recusar, educadamente, como se espera de um diplomata.
Um dia ela vai deixar de escrever e ele vai entender, do alto do seu metro e noventa, que a sua diplomacia só serviu para se enganar a si próprio.
Mas ainda não é hoje.