sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Esperança

Há uma rua na minha cabeça chamada esperança
Contorna-me os olhos com malícia
Invade-me a boca descontroladamente
...ânsia, desejo ardente, incerteza...
Desce aos pulmões e sufoca-me
No coração… faz um curva apertada no coração
Nas aurículas é uma auto-estrada sem limite de velocidade
Num túnel a 200 kms hora
Tutum...bumbum...cabum
Palpitações a disparar todos os radares do corpo
Vira logo à direita e
Atinge-me o estômago em cheio
Borboletas de ferro num murro ko
Caio ao chão
A rua avança pela coluna como uma serpente ondulando
(pensar-se-ia que é um tremor de terra)
Eleva-me novamente
Com malícia
…é uma falsa…
Depois perde-se pelas mãos magras e quase sempre vazias.

*

Há um movimento que fazias com o braço direito quando giravas o volante do carro e que faz parte da minha memória de ti.
Era um movimento amplo, como se acompanhasses com a mão o percurso do sol pelo céu azul
Embora, certamente, muita gente faça o mesmo eu nunca vi ninguém repetir esse gesto… até hoje, quando te vi a desenhar um arco no ar do meio-dia.
Mas não era o sol que a tua mão acompanhava, era talvez um pensamento vago que enxotavas ou
a dor que tens colada a ti e à qual te foste habituando, era uma flor a sangrar que embalavas sem esperança.
(A ausência é uma dor latente, uma moinha incómoda que não sabemos muito bem de onde vem. Quase sempre é o que nos embala o sono quando nada mais resta e a noite já vai alta.)

domingo, 2 de agosto de 2009

Uma Colisão...Três pontos de vista


I
O semáforo fica verde e arranco. Ao fazer a curva reparo num carro que vem em sentido contrário. "O que é que aquele doido está a fazer? Ele não vai conseguir parar...". Não me mexo, não reajo…a minha boca abre-se em espanto e só penso “ele vai parar, ele vai parar...oohhh, ele não vai parar...”. O segundo que demora até o carro embater no meu é demasiado longo. Olho, incrédula, o destino que vem na minha direcção.
Branco.
Vejo tudo branco. Rebolo...não sei para que lado é o chão ou o céu.
Talvez seja neve porque sinto um frio nas costas que me queima de dentro para fora. Não, não pode ser neve porque estamos em Agosto e em Agosto não neva em Paris. A boca sabe-me a ferrugem e a sal. Ouço o barulho de sirenes e tento virar a cabeça nessa direcção. Forço os olhos que se abrem novamente para o branco... Ah, afinal é a camisa que me cai sobre a cara. Afasto-a lentamente com os meus dedos pesados.
Por entre o vidro rachado vejo um rosto que reconheço a sair da ambulância. Um fantasma do passado preso à memória do presente. Fixo os meus olhos nos teus e sorrio. Há uma mão que me toca no ombro e depois sou arrancada ao abraço do carro. Ouço um gemido a sair da minha boca que não me lembro de ter dado.
Seguras-me a mão. Prendes-te a ela como que para me prender à vida. Vejo-te gritar para alguém, mas não ouço o que dizes. O único barulho que ouço é o do frio a cobrir-me, como um grande navio a arrastar-se pelo meio do gelo. Queria estar encostada a ti, sentir o teu corpo quente a embalar-me, sentir os teus braços à volta do meu corpo e a tua mão a segurar-me o peito como costumavas fazer... Sorrio à lembrança…mas talvez a minha boca tenha feito um trejeito diferente ou descoordenado, porque no teu rosto há agora uma máscara de horror e angústia. Aproximas-te de mim como se me fosses contar um segredo e num murmúrio dizes para ti próprio "Continuas a usar os brincos de pérola que te dei...".
Sorrio... "Seu tolo, eu sempre te amei!"

II
O príncipe entrou como um vendaval e atirou-se de joelhos aos pés da cama, abraçando as mortalhas de seu pai. Havia um cheiro penetrante a incenso e a vazio. A rainha-mãe estava de pé no meio do quarto, olhando-o angustiada e ainda incrédula da tragédia. Com um suspirou triste e profundo baixou o rosto, mas logo recuperou a compostura e o ergueu, como quem tem um dever que lhe transcende a vontade. Há muito a fazer. Há um novo rei a coroar. Há uma casa a governar. Há uma promessa a fazer cumprir. “Meu filho, agora és rei e todos esperam de ti um comportamento exemplar. A vida que levaste até agora terá de acabar.” O príncipe enterrou ainda mais o rosto na cama, como se tentasse impedir aquelas palavras de o atingirem.
“Essa mulher não é digna de estar ao teu lado. Afastou-te dos teus deveres demasiado tempo. É uma mancha na reputação desta família e agora é altura de ser afastada.”
“Eu amo-a mãe!”, disse o príncipe num silvo de agonia por entre os dentes cerrados. Nos seus olhos abertos, raiados de sangue, havia uma mistura de água, sal e uma mágoa imensa de quem sabe estar prestes a ser quebrado em pedaços.
"Meu filho, o amor que destrói uma família acaba por se destruir a si próprio", disse a mãe olhando o filho com ternura.
"Mas mãe...".
"Basta!", disse a rainha, "Voltará a haver paz nesta casa. Era esse o desejo de teu pai! Sabes o que isso significa, não sabes?”.
O silêncio encheu o quarto envolto na penumbra. O príncipe ergueu-se lentamente sob o peso desta dupla sentença. O seu rosto tinha agora a mesma expressão sombria dos panos que cobriam os espelhos do quarto e, no entanto, estava sereno em toda a sua certeza. Curvou-se em reverência perante sua mãe e disse, naquela voz solene e grave que só os reis possuem, “Seja feita a sua vontade”.
III
- Eu amo-te... se soubesses como te amo, mas ao mesmo tempo como me sinto pequena e estranha… é que há momentos em que me sinto infeliz quando não posso estar só... tenho a impressão de não ter lugar neste mundo a não ser no recanto que me ofereceste dentro de ti. Até te encontrar para mim tudo era uma prisão, sentia-me sempre fechada e tu abriste-me o mundo inteiro e quando penso nisso…na maneira como te deste, na liberdade que me deste, digo-te que fui estúpida por ter tido medo e não ter tido força para suportar todo o mal à nossa volta. Queria dizer-te que quando nos afastámos tentei não pensar em ti – de que me valia - tentei descobrir outras vidas, viajar, conhecer novas pessoas, mas tudo me fazia lembrar de ti, como se o meu coração tivesse ficado no teu peito e eu não conseguisse viver em paz. Mas o importante é que o teu coração continue meigo, porque sei que se ele for meigo, então eu nunca te perderei. Sei que agora já é tarde, mas se um dia precisares de mim, se não puderes aguentar mais com a tua vida, eu irei ter contigo onde estiveres...agora já posso esperar.
- A sério que me esperas?
- Sim, eu espero.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Todos os dias...

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças


(Miguel Torga)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O que me define

Se existe algo que me define é a forma como caminho na montanha.
Para mim as montanhas são muito mais do que montes de pedra e erva. As montanhas representam a minha vida, o meu do dia-a-dia, as suas dificuldades, as suas alegrias, os seus prazeres. Por isso tento superá-las, gozá-las, amá-las e respirá-las. Porque só assim posso viver!
Abraço e agradeço aos meus amigos de caminhada (principalmente aos 5 magníficos do Naranjo de Bulnes), pela sua força e determinação, e pelo companheirismo... foram subidas vertiginosas, quedas de água verticais, cascalheiras intermináveis, sol e calor, neve, nuvens sob os nossos pés (...nuvens expresso que nunca paravam para nos dar uma boleia)...
Guardo esse dia no pensamento e no coração, porque nessa subida fui uma de vós, nem mulher nem homem, apenas lutadora numa guerra interior, nós contra os elementos, a nossa vontade contra o nosso corpo.
Ps: Sem vocês os 5 não teria tanta piada subir aquela cascalheira :-)
.
Naranjo de Bulnes(... 10h de subida vertiginosa)
Fuente Dé
(pedras no caminho? guardo-as todas, um dia vou construir... uma casa aqui)

Ruta del Carez

sábado, 6 de junho de 2009

Picos de Europa

"respiro
respiro pela primeira vez
inspiro o ar em grandes golfadas
inspiro as nuvens, as árvores e a pedra
renasço
solto um suspiro
como um prisioneiro da alma
finalmente em liberdade"

quinta-feira, 16 de abril de 2009


Adormeço.
Lembro-me do dia 23 de Dezembro de um passado distante,
de brincarmos nervosamente com as cores das argolas
como se desembrulhássemos prendas há muito esperadas
Lembro-me do castelo e das estrelas no céu do Marvão,
das estrelas sob os pés no chão do nosso quarto
Lembro-me dos 45 kg do meu corpo pálido e pequeno
suportado apenas por aquilo que crescia no meu peito
Lembro-me do teu corpo quente e imenso como um mar,
Das asas negras de corvo que se abriam dos teus olhos,
…das gotas de suor na fronte
Lembro-me da nossa canção
(terás tu esquecido o que dizia a letra da canção?)
Lembro-me da fotografia no miradouro de Sta. Cruz,
dos nomes gravados na rocha
e do buraco que depois gravaste no meu peito
Lembro-me de agarrar o peito com os braços para que o buraco não me engolisse,
do pavor ao acordar todas as manhãs e perceber que aquilo era real
e que tu tinhas morrido
(foste tu... ou fui eu que morri para ti?)
Lembro-me da dor, imensa como o teu abraço
eu, uma pequena boneca de ferro nos braços de um gigante de barro
É mentira - o tempo não cura tudo... e há poucas distracções para o tormento.

Acordei. (sobrevivi)Ainda hoje, quando acordo, não sei se sonhei.

terça-feira, 31 de março de 2009

Jane Doe

O tempo é como um corpo amputado.
Há no tempo aquela constante sensação de presença mesmo quando ele se acaba. Sentimo-lo à nossa frente, flutuando como uma criança num baloiço, inebriante de trás para a frente (às vezes de frente para trás), sem fim. Há no tempo um membro dormente que dá vontade de afagar, sem preocupação, como se passeássemos a mão pelos cabelos de alguém dizendo "está tudo bem".

Mas o que fazer quando o tempo se esgota? quando a dormência acaba e só existe vazio. O que fazer quando o tempo se conta em meses ou até semanas? Quando as mãos começam a tremer e a caneta nos cai dos dedos. Quando as palavras já só podem crescer dentro das folhas brancas da nossa cabeça. O que fazer quando o tempo está contado e se torna um corpo inteiro e palpável? quando o tempo chega aos dedos e acaba ali na ponta das unhas e depois já não tem mais para onde ir...

segunda-feira, 23 de março de 2009


A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre



(Al Berto)

quarta-feira, 4 de março de 2009


this is the winter of my contentment
the sea of tranquillity and shadow
and though I am surrounded by mist
there is nothing but love inside me

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Adrian


"Desculpa todos estes dias de ausência, mas preciso abrandar, talvez mesmo parar".
"Mas podias pelo menos ter mandado um email ou um pombo correio, ou algo do género", disse Adrian.
"Tens razão, desculpa. Eu entendo se não quiseres voltar a falar comigo ou ser mais meu amigo".
"NÃO... não é nada disso, só que fiquei preocupado". Respirou fundo e perguntou baixinho "Estás a desistir de viver?".
"Não é desistir de viver - tu sabes que eu sou corajosa...e obstinada e determinada e todos os outros adjectivos que possas associar a alguém que sonha muito - é apenas desistir de viver essa parte da minha vida, a parte sentimental".
Uma brisa fria passeou à sua volta e ela apertou ainda mais o casaco junto ao corpo. Olhou para o céu esperando por algo, como se estivesse numa paragem de autocarro e aguardasse desesperadamente um pássaro que a levasse dali.
Esboçou um pequeno sorriso e continuou "Sabes, já tive tantas desilusões e apesar da minha força de espírito, sinto-me cansada, muito cansada. E depois não quero fazer do amor algo banal, do género 'este não funcionou, partimos para outro e depois outro', e assim sucessivamente, numa estrada de ensaios e tentativas falhadas. De que serve passar a vida a tentar, só para se dizer que se tentou, se nunca vamos concretizar nada. Não, não vou fazer do amor algo banal, como se fosse uma roupa gira que vestimos e que ao fim de um ano passa de moda".
Suspirou profundamente e levantou o olhar até estar de frente para os seus grandes olhos verdes, e disse "Bolas, não queria ter de dizer isto...mas sabes, ainda acredito em almas gémeas, em amor para toda a vida, em amor que se fortalece com as tragédias da vida em vez de definhar. É uma fantasia infantil eu sei. Eu devia era estar fazer o que toda a gente apregoa à boca cheia, aquela coisa do carpe diem e essas tretas todas dos livros de auto-ajuda. Como se a vida fosse só hoje e nada mais interessasse...como se a paz fosse possível quando se está apaixonado por algo ou alguém".
Houve um silêncio longo como uma aceitação do que acabara de ser admitido, e por fim, hesitante, ela disse "Agora tenho ir. Não esperes mais por mim porque não sei quando regresso. Vou parar e descansar. Vou viver daquilo que existe em mim, alimentar-me desse sentimento por uns tempos. Vai ser bom não esperar nada de ninguém a não ser de mim própria. Vai ser como estar adormecida ou anestesiada. Como ver o mundo numa tela de cinema sem que o mundo me veja ou sequer me possa tocar. Assim talvez possa ter alguma paz". E sem mais demoras foi-se embora.
Ele começou a levantar a mão numa tentativa de lhe afagar o rosto, como se ainda houvesse tempo, como se isso fosse possível. Abanou a cabeça. Ele sabia que aquilo era apenas uma conversa online e apesar de ainda ter no écran à sua frente uma janela com o avatar dela, ela já lá não estava.
Voltou a pousar as mãos no teclado e escreveu "Tu queres desistir de viver e eu quero tanto viver para ti...".
Logoff.
Levantou-se da janela, atirou o pc para cima da cama e ficou ali parado por um instante a olhar a rua. Algo mudara naquele instante. O reflexo do sol nas folhas das árvores parecia-lhe agora baço. Depois baixou o olhar, meteu as mãos nos bolsos dos jeans velhos e saiu porta fora.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

(7) Além do horizonte


O som parecia mais um rosnar que um miado. Os olhos brilhavam amarelos na escuridão, lançando raios invisíveis de tensão e maldade. Cheirou o ar. Algo agradável lhe despertou a atenção e ele lambeu demoradamente o focinho para apanhar todo aquele aroma que lhe fez crescer água na boca. Decidiu-se por um arbusto alto que crescia junto à escarpa. Sentou-se e começou a alisar vaidosamente o seu pêlo negro. A espera não seria longa.

A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.

Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.

A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.

Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
Enquanto tentava esvoaçar, a andorinha desviou o olhar para a massa escura que caia na água. Não era um gato, eram dois. O reconhecimento chegou-lhe tarde - já não conseguiu ver a lágrima que nascia daqueles olhos cor de âmbar que agora se afastavam para o azul profundo. Quando a andorinha atingiu a beira da escarpa ainda tremia. Deixou cair o corpo para o lado exausta. Fechou os olhos. Talvez assim pudesse reter a lembrança daquele olhar e daquele pêlo cor de chocolate de leite. Sentiu o ar encher-se de cheiro a leite morno, anestesiando-lhe os sentidos. A andorinha fechou os olhos para não mais os abrir. A lembrança do Pintas não voltaria a fugir-lhe, afogar-se-ia dentro dela.

A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.

Epílogo
Flood mergulhou velozmente seguindo o cheiro. Com a destreza de um falcão e a força de uma águia travou o corpo ao atingir a espuma revolta, enquanto as garras se fechavam sobre o lombo castanho ensopado.
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.

Fim

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Aquilo


A Sra. e o Sr. X viviam bem, não sei se felizes, mas bem. Acomodados na sua vida habitual, tranquila e pacifica. No entanto, dentro da Sra. X algo crescia. Desenvolvia-se dia a dia, alastrava do coração à ponta dos pés, do coração à cabeça. Saia muitas vezes pelos poros e ela não entendia o que era. Lavava compulsivamente o corpo para sacudir aquilo, como transpiração. Ganhava forma nos cabelos, que ela desesperadamente tentava alinhar. Na verdade aquilo não crescia. Na verdade aquilo sempre tinha estado dentro dela, desde a primeira vez que abrira os olhos ao mundo, desde a primeira inspiração. Uma máquina de matar corações. Latente. Sem o saber, a Sra. X mantivera-o trancado, como um ser ignóbil. Mas aquilo não se detinha. Circulava dentro de si como um fantasma, como uma corrente de impulsos eléctricos no seu cérebro, num bailado sincronizado, hipnótico. Aquilo crescia, agora. Já nada o detinha.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.

domingo, 11 de janeiro de 2009



"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."




(Clarice Lispector)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Aeroporto


Sou como um aeroporto.
As pessoas passam pela minha vida com as suas bagagens, quase sempre caoticamente arrumadas... depois partem quando encontram o seu destino. Sempre de passagem.
O que fica é uma certa melancolia e ao mesmo tempo uma sensação de contentamento, porque geralmente partem com excesso de bagagem.
.
Mas há momentos em que gostava de ser como um avião e ter um aeroporto onde aterrar.
Em noites frias como esta, imagino como seria bom ter alguém a quem abraçar antes de fechar os olhos e adormecer.
.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009



É março ou abril?
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?

É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:
Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?


É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.



(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

(6) Um Mundo Pequeno


Passaram-se alguns dias, muitos dias talvez. Demasiados, para quem sentia o coração impaciente, a borbulhar como um caldo num caldeirão, latente, pronto a explodir a qualquer pequeno rastilho. Insaciável. Mas ali estava-se bem e aquele lugar sombrio e quente transmitia-lhe calma. Moly arrancara-o do torpor quando ele estava prestes a deixar-se afogar naquele mar de neve. Deixara-o ficar ali, na sua toca, até se recuperar. Pintas dormitava quase todo o dia enrolado sobre si mesmo, num amontoado de penas e feno que ela tinha arranjado. No seu sono via-se muitas vezes a contar as penas, a analisar cada cor e cada filamento, a sentir o seu cheiro, tentando encontrar alguma que lhe fosse familiar. Por vezes os seus sonhos transformavam-se em pesadelos e ele só via asas e garras e água, e acordava sem conseguir respirar. Nessas alturas, Moly encostava-se a ele para o acalmar, murmurando canções que falavam do seu mundo de grutas majestosas, de túneis infinitos e lagos de água negra cheios de pedras brilhantes como o sol, e ele voltava a adormecer tranquilo e perdido nesse mundo sombrio e mágico. Durante esses dias desenvolvera também uma estranha obsessão - dava por si constantemente a lamber-se. Lambia cuidadosamente cada centímetro do seu pêlo. Lambia furiosamente. Lambia como que a tentar limpar todas as memórias que lá viviam, enterradas no seu pêlo quente. Lambia como que a tentar encontrar uma réstia dos cheiros perdidos - do arroz-doce, dos juncos junto ao ribeiro, do limão, da areia do deserto...do peito dela. Depois parava, quase que de imediato, enquanto um pensamento lhe varria o coração. Sabia que nunca mais iria encontrar a sua Andorinha. Provavelmente não. Talvez se o mundo fosse mais pequeno, do tamanho de um bosque. E no entanto, quando pensava no pequeno coração dela, tão pequeno como um caroço de cereja, lembrava-se que muitas vezes também se perdia dentro dele.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.