terça-feira, 13 de abril de 2010

O primeiro beijo

Não me lembro do sabor, nem se meteu língua ou não.
E não tinhamos à mão um cronómetro para registar o tempo que durou.
O momento está tão distante que por vezes tenho medo de a memória se apagar de vez e essa noite ficar esquecida para sempre… como um barco à deriva no oceano.
Não podemos confiar na memória para estas coisas. A minha memória é uma mulher caprichosa que desdenha o racional e retém apenas o imensurável.
Por isso, dou por mim a repetir em voz alta os momentos significativos daquele gesto, como se sussurrasse uma oração ao deitar.
O primeiro beijo.
O nosso primeiro beijo foi mais que sabor, tempo ou língua.
Foi dado com o olhar fascinado, com a ansiedade da descoberta e com um medo secreto… não podemos ousar afrontar os deuses sem esperar a punição.
E ela veio, sem espada ou sangue, para deixar apenas o vazio. Um peito vazio, uma cama vazia, uns olhos verdes vazios como peixes fora do aquário, uma vida cheia de memórias de ti... esse foi talvez o maior dos vazios. Foi demasiado, acho eu, mas os deuses também são uns sacanas caprichosos.
O nosso primeiro beijo soube a rio, a castanhas, a música, a gasolina, a perfume, a mentol, a gin, a cigarros, a transgressão, a sagrado numa noite de espíritos.
Durou o tempo de uma aposta e de um bater de asas - talvez três segundos. Decidiste que três segundos eram pouco e, à revelia, roubaste-me uma repetição.
O nosso primeiro beijo durou quinze segundos ou o resto das nossas vidas, e talvez um pouco mais.
Durou o tempo que levou a coser a paixão aos nossos corações… em ponto miúdo, com fio de aço. Isso foi rápido.
Foi mais lento depois, tentar arrancá-lo. Um beijo não se arranca assim facilmente. Se tentarmos descoser a linha, o tecido rasga. O coração rasgou.
E por fim resta a língua. Esse orgão musculoso. A tua língua sedenta envolvendo a minha, como se buscasse no rebordo de um copo a última gota de água...
...ainda tens sede?