sábado, 17 de setembro de 2016

Amanhecer



Passaram já duas semanas. Acordei cedo nessa manhã. Aliás, mal consegui dormir a pensar como seria ter-te finalmente em minha casa, junto das minhas coisas. Junto das coisas que construí com um único propósito, partilhá-las contigo. Não, não é exagero. Quando coloquei o papel de parede com desenhos de árvores na casa de banho pensei se irias gostar de ter um pouco da natureza dentro de casa. Na cama pus um colchão dos mais modernos para que te sentisses confortável. A casa é pequena mas sempre achei que poderia ser o nosso espaço. Quando arranjei a casa do Alentejo para me livrar finalmente do salitre, achei que seria assim que tu gostarias de viver a tua velhice, numa pequena casa de campo branca e azul, rodeada de conchas, estrelas-do-mar e barcos, de velas e de um dossel sobre a cama para proteger as nossas noites. Imaginei-me ajoelhada na terra a arranjar o jardim e ver-te entrar pela porta. Foi sempre assim que imaginei o nosso reencontro.

Mas o nosso reencontro não foi assim. Não foi bem como eu imaginei. Não podia ser. Ter-te ali sentado no sofá a sorrir para mim pareceu-me pouco natural. O beijo que te dei não foi correspondido com a paixão que esperava. Pareceu-me que tiveste medo de me tocar... logo a mim que tanto tempo sonhei com as tuas mãos no meu corpo. Senti que não era aquilo que querias, que estavas desconfortável. Deixaste-me a tarefa de imaginar as razões desse desconforto e acredita que me passou muita coisa pela cabeça. 

Quando aquele par de horas terminaram senti-me terrivelmente mal. Não porque achasse que estava a trair alguém ou porque estar contigo era moralmente errado, mas porque de alguma forma percebi que nunca iria ter aquilo que desejava. E não eram encontros fortuitos que eu desejava para o resto da minha vida. Tu nunca irias poder ficar comigo porque se dantes te partilhei com uma mulher, agora estava a partilhar-te com outra. É uma sensação terrível ser a segunda escolha. É terrível perceber que, se realmente me amavas, fui sempre eu a pessoa que traíste e não a elas. É terrível achar que poderia ter feito mais por ti do que elas, que poderia ter ajudado ou influenciado mais a tua vida. Por ti, teria feito greve de fome, greve de sexo ou, pelo contrário, ter-te-ia esgotado de tanto nos amarmos. Mas este era o meu sonho, não o teu. Este já não é o meu tempo, mas o tempo de outra pessoa. Sei que pareço presunçosa com estas palavras, mas para mim, que gosto de ordem e equilíbrio, ver-te tão mais forte e pensar na saúde que te pode faltar, mas sobretudo saber que tens uma família ao teu redor que simplesmente permitiu que te tornasses como um pedaço de vidro na areia da praia, deixa-me enraivecida. Essas arestas vão ferir-te mais a ti que aos outros... não permitas que isso aconteça.  

Por outro lado acho que entendo tanto a tua atitude como a deles. Tu, porque quiseste fazer toda a gente feliz, para tentar compensar algum mal ou erro; eles, porque preferiram ver-te tranquilo e escolheram não agitar muito as águas. Calculo que a história seja mais ou menos assim, porque é assim também na minha vida, mesmo que com consequências diferentes. Houve momentos em que simplesmente não comia, achava que a minha fonte de sustento não vinha daí. Virei-me para o trabalho no escritório, demasiadas horas a fio. Ao fim de semana só queria subir montanhas, depois partir pedra, serrar madeira, construir alguma coisa que me fizesse sentir que a vida tinha sentido. As pessoas à minha volta diziam-me para ter calma, para me alimentar melhor, etc. etc., mas na realidade eu sabia fingir muito bem. Sou feliz assim, dizia-lhes. Sou feliz assim, dizia a mim própria. Quando o que eu mais desejava era que tudo acabasse depressa. Tudo. Para que noutro lugar, noutro tempo, pudesse recomeçar a minha vida contigo. Nunca pensei pôr fim à vida, mas nestas circunstâncias a morte não me parecia uma coisa tão má. Mais uma vez, estarei a ser demasiado presunçosa ao achar que te revês neste comportamento, porque talvez agora estejas realmente feliz, e se é verdade que somos o resultado das nossas escolhas, então é porque fizeste as escolhas certas.

Esta será a última vez que vais ouvir falar de mim. É pelo menos isto que desejo. Tinhas razão quando dizias que se nos voltássemos a encontrar não iria ser apenas conversa cordial e amizade. Ver-te outra vez junto a mim, sentir novamente o cheiro da tua pele, os teus braços a envolver-me, fez renascer em mim o sonho que tantos anos alimentei. Fez-me acreditar, nem que por breves instantes, que ainda poderíamos ter uma vida a dois. Apenas por breves instantes.

Não escrevo isto por estar chateada com algo que tenhas dito ou feito. Quanto muito seria por aquilo que não disseste ou não fizeste. Não estou chateada. Apenas admito a derrota neste capítulo da minha vida. Uma coisa, no entanto, é interessante, pois algo inesperado se apresenta diante de mim - não sei o que fazer daqui para a frente! O facto de não poder sonhar mais contigo permite-me uma nova oportunidade de sonhar com outras coisas. Sonhar com novas aventuras, quem sabe daqui a uns meses sonhar com um novo emprego, muitos livros, montanhas mais altas, mares sem fim, novos conhecimentos. Gosto de pensar que o mundo é uma taça cheia de factos desconhecidos e eu ainda só beberiquei umas gotas.

Tenho uma coisa boa, sou profundamente optimista e não há limites quando sonho. Por isso termino a pedir-te que não vejas estas minhas palavras como falta de amor por ti. Pelo contrário. Foi por sempre te ter amado tanto que te deixei seguir o teu caminho, mesmo que a minha esperança nunca tenha morrido. Foi por te amar que tentei entender-te, que procurei perdoar-te as falhas, que em parte também foram minhas, e agradecer-te no mais íntimo de mim tudo o que de bom trouxeste à minha vida. O fazer o bem, a partilha e a esperança, foram algumas dessas coisas.
O meu coração é um mundo e o meu amor por ti perdurará enquanto o mundo resistir.