sábado, 13 de julho de 2019

Katalēpseis



Não gosto muito da primavera ou do verão. Contrariamente à ideia geral, é com a chegada do outono que me sinto mais feliz e com energia. Não terá sido sempre assim. Certos acontecimentos da vida levam-nos a ganhar preferências sazonais, e as minhas vão para os últimos meses do ano. Talvez saibas porquê.
Como num comboio, hoje encontro-me a meio entre as estações mais tristes, a menos de um mês dos nossos aniversários. É por isso que te escrevo.

Os últimos vinte anos foram anos de uma intensa procura de sentido para os meus sentimentos por ti. Será que ainda te amo? Será que alguma vez te amei? Será que foi amor ou apenas uma paixão ingénua? Será que me amaste? Ou será que fui apenas um caso sem importância para ti?

Não foi fácil viver tanto tempo com estas perguntas na cabeça. O único remédio que encontrei foi racionalizar o amor, as expetativas e as desilusões. Camuflá-las de razão e ignorar o coração, tão propenso a devaneios. Afinal, chegar à razão é uma necessidade instintiva que o ser humano tem de autoproteção. A necessidade de preencher o vazio com outra coisa qualquer.

Esses primeiros anos foram de grande sofrimento. Isso, por si só, deveria ter sido suficiente para me fazer entender o que realmente sinto por ti. Mas optei pela razão. Preferi acreditar que "sim" era a resposta à última pergunta que fiz acima. Não medir o meu amor pelo tamanho do sofrimento era a única coisa que podia fazer. Consegui finalmente respirar, esquecer as palavras amargas que trocámos e deixar de me sentir tão insignificante, consegui finalmente seguir em frente com a minha vida.

Mas de alguma forma eu sabia que essa racionalização era enganadora. Sempre que me permitia sofrer com a tua ausência, regressava tudo. Todas as imagens. Todas as palavras ditas. Todos os sentidos despertos. Como uma torrente de água que ameaçava as fundações daquilo que entretanto construíra. Era difícil parar essa torrente. Temia-a e ao mesmo tempo desejava-a ardentemente. Por essa razão evitei, sempre que possível, abandonar a razão.

Não. Não tem sido uma vida livre de dúvidas. Há uma espécie de ferida aberta, como se tivesse sido atingida por uma pancada no peito. Há esse vazio dentro de mim que nunca consegui preencher e que não se pode traduzir por nenhuma das necessidades básicas da alma e do corpo, como companheirismo, amizade, sexo, sonhos ou proteção. É outro algo que falta e que só resurge quando me permito sofrer por ti.

O que é? Que verdade é essa que guardo a sete chaves na prisão da razão?

Catalepsis é uma palavra de origem grega que significa "alcançar a realidade". Talvez isso signifique que quando me abro ao sofrimento alcanço finalmente a verdade sobre o que sinto. Quanto a ti, não presumo saber o que te vai na cabeça ou no coração, nem quais as tuas ansiedades e expetativas. Sempre foste parco em palavras. Mas suspeito que vivamos ambos à beira de um precipício, salvos apenas pela nossa crença na razão.

Suspeito também que quando o tempo de um de nós chegar ao fim, o outro deixará finalmente de poder negar os seus verdadeiros sentimentos.