quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tocar o céu


O que penso quando subo uma montanha?!
Tudo começa muito tempo antes, antes sequer de estar junto à montanha. Nos meses que antecedem a escalada, em casa, a ler os mapas e os relatos de quem já fez aquela jornada e a ver as fotos em revistas da especialidade.
E com o sonho nasce o entusiasmo.
Quando dou por mim, o meu espírito já está a 3.000 mt de altitude, enterrado em neve até aos joelhos.
Sem nunca lá ter estado, os meus olhos conseguem desenhar o trilho e fazer um filme completo e a cores de todo o percurso, das paisagens, e até do esforço a dispender.
Em última instância, é esta vontade e entusiasmo que me mantêm viva, por dentro e por fora.
Uma vez um amigo chamou-me visionária e eu não entendi o que isso queria dizer, nem me reconheci em tal expressão. Ele depois explicou-me que isso significava que eu conseguia visualizar as coisas e as situações muito antes de as ter experimentado.
Perante isto, seria de esperar que eu achasse o montanhismo desinteressante, não fosse eu não me contentar só com o sonho. É preciso concretizá-lo.

Assim, para mim subir uma montanha é reconhecer um caminho. É olhar cada pedra com admiração, cada bloco de gelo com a adrenalina a correr velozmente nas veias, cada cume com respeito.
Pé ante pé, é isso que me impulsiona, que me dá força e me abstrai da dor.
Consegui chegar ali. Consegui superar as minhas fraquezas e tornar real algo que até ali só existia na minha imaginação.
E no cume, respiro pela primeira vez. Abro bem os olhos. Tudo o que vejo me enche por dentro e sou neve, rocha, nuvem e pássaro – o êxtase deve ser isto.
Estendo a mão, toco o céu, e por um breve instante sou parte de Deus.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Primeiramente

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"Night has brought to those who sleep, only dreams they can not keep."
(Enya - Paint the sky with stars)
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Acordo sem o contorno do teu rosto na
minha almofada, sem o teu peito liso e claro
como um dia de vento, e começo a erguer a
madrugada apenas com as duas mãos que
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os
meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela
te procuro, encostado ao teu nome, pelas
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão
aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor duma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca -
e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos
pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e
perguntar o que aconteceu.


(Eugénio de Andrade)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O lado inclemente da Montanha


Mais uma tragédia. Eram 3h da madrugada de domingo quando um bloco de gelo com 200 metros de altura e 50 de largura se abateu na parte Norte do Monte Branco. O acidente ocorreu a 3.600 metros de altitude, num itinerário muito utilizado por alpinistas e surpreendeu um grupo em plena subida.
Pelo menos cinco Austriacos e três Suiços continuam desparecidas após terem sido arrastadas pela avalanche ocorrida na parte francesa do Monte Branco, tendo no entanto sido recolhidos pelas equipas de salvamento 10 alpinistas, sete dos quais ainda hospitalizados.
Um pesar pelas vidas que se perderam.
(fonte: Euronews)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O Zen da Montanha

George Mallory, o lendário alpinista britânico, que pode ter subido o Everest 30 anos antes que Hillary, resumiu o chamamento da montanha "porque está ali", explicando deste modo a sua ansiedade pelo cume.
Esta expressão "haiku" de Mallory guarda um mundo vastíssimo. Os “haikus” são uma forma ancestral de poesia, que soam mais a uma verdade que a uma resposta.
Perguntaram a Matsuo Basho (um ilustre poeta de haikus) o quê era a iluminação. Ele respondeu que não se tratava de procurar a verdade, mas sim de estar nela. E para estar nela devíamos ser impecáveis: "Viemos para ser criadores, não vítimas; a expressarmo-nos, não a nos esconder. Na justa medida. No gesto impecável".

O gesto impecável leva ao centro, e o centro leva ao gesto impecável... E ao estar presente. Esse é o Zen de subir montanhas.

O gesto não é só um movimento de subida ou descida, é também uma atitude. O gesto também depende de nossa relação com o que representa para cada um as montanhas. O gesto traduz ritmo, traduz a nossa capacidade para decifrar as mensagens próprias e as da natureza ao redor, por exemplo, a tremenda decisão de subir ou não. Alcançar a impecabilidade no gesto é a essência, e o ritmo é fundamental.

Dizia Pio XII a alguns congressistas alpinos: "A lição da montanha é uma lição de elevação espiritual; uma lição de energia moral mais que física".

O montanhismo é uma escola integral do ser, cujas qualidades podem ser o remédio para os filhos do progresso, aprisionados na comodidade e na indolência do sedentarismo. Uma escola muito antiga. Que nos liga com o aqui e o agora. Porque o tempo sempre é presente. Os meditadores antigos chamaram à consciência do presente "dián", e seu caminho "Zen", o caminho do êxtase e da iluminação.

"O gesto não é só um movimento de subida ou descida, é também uma atitude".

(Excertos do texto retirados de http://altamontanha.com/)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Com os meus olhos cheiro o mundo


Sabes qual é a relação entre os nossos dois olhos?
Eles nunca se veêm um ao outro... e no entanto
eles pestanejam juntos, eles movem-se na mesma direcção,
eles choram juntos, eles adormecem lado a lado.
... talvez a amizade pudesse ser assim!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Até aos cumes


Não desisto nunca... haverá sempre algo novo para descobrir
e para aprender!
Arriscar é preciso. Acordar para o mundo é preciso!

"Lança a tua luva aos pés do Desespero, e verás que não aceita o desafio. Sê - conforme a seiva que tiveres - e vencerás. Levanta-te das pedras que te feriram e deixa que o teu sangue as envergonhe. Não troques nunca o teu sorriso pelas lágrimas, se o anelo do fácil te segredar: "Basta!"

Constrói-te com paciência até aos cumes, e não invejes a gente da planície. Não hesites nunca na Amizade pura, pois tu és o guardador de teu Irmão.

Ama - em Branco, em Grande e em Bom - e terás asas. Desprende-te de quem te retiver por prisioneiro, mas não recuses a mão ao afogado. Compromete-te para sempre com a Esperança, e ela te dirá que és um Menino.

Encara a vida de frente e com ternura. Entende, longe e quente, meretrizes, banqueiros, calafates e ministros..., e todos buscarão o teu segredo.

E se a quadriga moça do teu corpo freme - porque és Homem, porque és de barro, e porque és fraco - puxa as rédeas, meu valente, até à espuma, mas não te esqueças de que é pela Via-láctea que tu corres."

(Maria Lucília Bonacho)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

You can't Break me...I'm already Broken


"I picked up the pieces of my broken ego and
I have finally made my peace as far as you and me go..."
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(Good day - The Dresden Dolls)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Gerês


"Como eu sei que tu adoras o Gerês, não quero deixar de te mandar algumas fotos de lá, para recordar e sonhar.
... Consultei a montanha impregnada dos teus passos e o que ela me disse é que a paixão é dor, ansiedade, necessidade, desejo...incontrolado e absurdo, é no fundo a negação do amor.
Quando cheguei a meio da serra da peneda e dou de caras com aquela rocha enorme no meio do nevoeiro, com todas aquelas fissuras, toda aquela imponência, todos aqueles passos... possíveis de serem descobertos. Agradeci estar ali, para contemplar aquela obra do acaso universal, agradeci tambem a força, a vontade, os amigos e a oportunidade de viver."

(Carta e foto de Carlos Martins, um grande amigo regressado ontem do Gerês)


Eu adoro realmente o Gerês, é uma serra (ou várias) lindíssima, cheia de contrastes, de prados verdes, de fragas imensas, de lagoas de água cristalina e gelada, de garranos, de "planetas de macacos" e árvores petrificadas, de azevinho. Mas para mim o Gerês é sobretudo algumas das pessoas que lá conheci, as suas vidas e experiências, a sua percepção da serra, os seus silêncios e risos, e aquela massa com carne saboreada sob a luz das estrelas.
O Gerês é também o pedaço do coração que fui deixando por lá...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bom fim de semana :-)

Há dias em que a vida nos dá uma trégua
da loucura dos dias
que tudo se conjuga para nos deixar felizes
o telefone que toca, um amigo que fala,
o elogio que me fazem e o carinho que me enche a alma
um projecto que avança, um sonho que fica mais perto
o colo que me oferecem com amor, mesmo que longe
um beijo sonoro na despedida
o fim de semana grande que se aproxima
Há dias assim...há dias em que a vida nos dá uma trégua, e hoje é um deles!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

(apesar de tudo, há ainda)
um sorriso por detrás de uma lágrima...
...dentro de mim

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O caminho, a bússola, o dragão e o coração



Onde me leva este caminho que percorro? Ando a fugir ou a conquistar o mundo? Que procuro nesta busca constante, nesta insatisfação?
Nos momentos de perdição, quando não sei qual o norte, olho a bússola que tenho à cabeceira. Olho-a na esperança de ter um sinal, mesmo que breve, do que me espera, mas há um silêncio majestoso a vibrar do alto da sua agulha, como que a dizer “... deixa-te encontrar”.

Tento aceitar a vida, o que ela me oferece. Tento ser calma, paciente. Composta e integrada. Mas cá dentro, bem cá no fundo do meu coração há um borbulhar constante de ondas, de neve a cair, de caminhos de pedra e bosques verdejantes, de ar frio a queimar a cara, de céus azuis e estrelados, de uivos de dragões ferozes e estranhos, de horizontes por descobrir.

Às vezes sonho que sou um navegador do passado em busca de uma qualquer terra distante. Terra de monstros ou de ouro. Que o céu nada pode contra a minha alegria e coragem. Braços abertos ao vento como velas. Que lá, no fim do arco-íris ou no cimo das montanhas, encontrarei o que procuro, seja o que for – o descanso ou a glória, algo para sossegar o meu coração. Mas o sossego nunca chega. Nunca chega o contentamento. A doçura que me fica na língua esvai-se depressa e é só fome o que sinto. Mas qual o caminho, qual o norte?

Quando era pequena, deitada na cama à noite, pensava que não era deste planeta. Sentia-me só, diferente, como se não pertencesse a este mundo. Achava que só podia ter vindo aqui parar para uma qualquer missão espacial.
Não rezava a Deus antes de adormecer. Rezava a um qualquer comandante interestelar.
Não pedia pela minha família nem para ter boas notas na escola. Pedia que um dia me viesse procurar, me encontrasse e me levasse finalmente para casa.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Me Myself and I

Mulher
Anjo
Bicho-do-mato
ou gato domesticado
Impaciente
Incómoda
Doce
Áspera
Lutadora
Indecisa
Copo de água fresca
ou poço escuro
Teimosa
Sonhadora
IndiferenteConcha fechada
ou céu aberto
Ansiosa
Terna
Destemida
Hulk
ou Rick
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...como é possível caber tudo isto dentro de mim?!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pirinéus

...5 dias para perceber que afinal o paraíso é aqui na terra...



















Corsa na neve Vista do Refúgio Angel Orús Subida ao Collado de Eriste Diente de la Llardana Via de acesso ao Posets (Canal Fonda) Chegada aos Pirinéus
Cordilheira do Aneto e Maladetas, vista do cimo do Posets (3.375 mt)
Puerto de Chistau
Ibón de Llardaneta
Viadós