terça-feira, 27 de maio de 2014

in memoriam


A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.


(Adolfo Casais Monteiro, in O Estrangeiro Definitivo)


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Todas as noites esvazio o meu coração, mas pela manhã ele está novamente cheio. 
Pequenas gotas tuas entraram durante a noite, cuidadosamente... Ao amanhecer estou a transbordar de pensamentos teus, com um prazer insaciável que não me deixa respirar. 
O amor não pode ser contido. 
A frágil embalagem do desejo divide-nos, derramando carmesim através dos meus dias.
Longos dias que estão agora ternamente feridos com a ânsia de viver à procura de uma impressão digital, um perfume, um suspiro que tenhas deixado para trás...

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Ontem fui tentar encontrar-te. Esperei por ti muito tempo mas não te vi. 
Estúpida. Essa sempre foi a tua arte.
(teria esperado toda a noite... esperarei a vida toda)




domingo, 11 de maio de 2014

Pont Neuf


No prédio em frente ao meu existe uma janela e nessa janela vive um homem parecido contigo no corpo e, imagino eu, na forma de estar na vida. Todas as noites, quando me sento no sofá, olho para essa janela e vejo esse homem na cozinha, levando a colher de pau aos lábios para provar uma qualquer iguaria que preparou com dedicação para ele e para a mulher. Só recentemente percebi que ele é casado porque nunca a tinha visto… ela nunca se aproxima da cozinha, esse é o domínio dele. Olho muitas vezes para essa janela, tentando imaginar-te também como o rei da tua cozinha. Já que não te posso ver, posso pelo menos imaginar-te no corpo de outros homens e pensar que sou eu que estou ali naquela casa, naquela cozinha, partilhando uma refeição contigo.

Passei a minha vida a desejar encontrar alguém que cuidasse de mim, que me protegesse, alguém com quem me sentisse segura e confiante ao ponto de acreditar que esse alguém estaria do meu lado e eu não precisaria de pensar sozinha numa solução para os problemas. Tu foste essa pessoa, a única. Tu foste essa pessoa até uma determinada altura, mas por essa altura a tua cabeça já estava certamente noutra casa, noutra cozinha, noutra mulher. Por vezes penso nesses últimos tempos e sinto uma mágoa profunda - a dor do ciúme e do engano – mas antes que essa mágoa se instale afasto esse pensamento e procuro lembrar-me da forma como cuidavas de mim.

Os anos vão cobrindo de névoa as memórias, mas há sentimentos que perduram como templos de pedra – a forma como me davas atenção como se eu fosse o centro do teu universo, o carinho com que me tocavas, a comida que me preparavas... que por vezes me davas à boca, os sítios que me levavas a conhecer e que passaram a ser para sempre teus. Sentia que o fazias por puro amor e dedicação, sem desejar nada em troca a não ser ver-me feliz. Gosto de acreditar que assim era.
Nunca mais senti isso com ninguém, nunca mais permiti que ninguém entrasse verdadeiramente na minha vida e não voltei a encontrar ninguém que me amasse da mesma forma que tu. Os homens que conheci foram sempre uma má representação de ti, por minha culpa, porque nunca deixei de te procurar neles.

Imagino que agora te esforças por fazer a outra pessoa o mesmo que fazias por mim, porque és bom e acreditas que deves fazer o que é correto e porque gostas de ver os outros felizes, mesmo que tu não te sintas assim tão feliz. De alguma forma, essa tua integridade conforta-me e leva-me a tentar aceitar o rumo que as nossas vidas tomaram, porque se tu o consegues fazer, eu também deveria conseguir. Então, porque razão não consigo?... Penso em ti todos os dias, sem exceção, procuro-te em tudo o que vejo. Procuro fazer tudo da melhor forma possível para que, numa qualquer outra vida, te possas orgulhar de mim, da mesma forma que uma mulher procura honrar o homem que ama, o seu companheiro.

Sinto-me envelhecer e tudo me cansa - as pessoas, o barulho, a tecnologia, a impunidade, a futilidade... cansa-me ter de inventar sempre um projeto novo para me distrair do facto de que vivo num mundo onde tu não estás. Por mais que tu sonhes com Paris e por mais que eu deseje assistir do teu lado ao pôr do sol sobre a Pont Neuf, a realidade (e tu sabes isso) é que nunca mais estaremos juntos. Imagina como será viver mais 30 ou 40 anos assim.

Olho pela janela. Ali estás tu de varinha mágica na mão a passar a sopa.