segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

We will always have Paris

Um dia, ao olharmos para trás, veremos que os dias mais belos foram aqueles em que lutámos.

Feliz Natal!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013


"... sim, sempre com a minha mão no teu ombro, agarrados um ao outro, apoiando-nos um ao outro, fugimos, como dois amantes solitários e desesperados neste universo aterrador e cheio de fealdade, que só o amor permite enfrentar, e pronto, deixamos tudo para trás de nós, caminhamos sob as árvores, pelas ruas vazias, silenciosas e melancólicas, olhamos para as luzes coloridas dos restaurantes e dos cafés, ao longe, e falamos, com um entendimento mútuo vindo do fundo do coração, como dois apaixonados de quem o mundo inveja não só o amor mas também a profunda amizade"

(Orhan Pamuk)

domingo, 17 de novembro de 2013

Deixar(-te) de sentir


Não sou daquelas pessoas que pensa muito na morte ou sequer que a receie. Mesmo nos momentos mais desesperados da minha vida, e já tive alguns, a morte voluntária nunca foi coisa que me tivesse passado pela cabeça. Não sou, resumidamente, uma pessoa com tendências suicidas. Nunca serei. Vou achar sempre, no meu habitual convencimento (ou ingenuidade), que a luta é possível. A luta pela dignidade, a luta por uma vida melhor, a luta pela saúde, a luta por um amor. A própria ideia da eutanásia me parece, agora, algo muito distante e moralmente questionável, como se ao moribundo lhe fosse roubada a réstia de esperança, a mesma esperança que me assiste nos momentos de maior desespero. 

Contudo, há momentos em que anseio o descanso que só a morte pode dar. Mas teria de ser uma morte sem céus ou infernos, sem almas à minha espera ou à espera de uma nova oportunidade de viver. O vazio. Teria de ser uma morte vazia de tudo. Um buraco negro na existência. Mas com as probabilidades estatísticas da ciência, o mais certo é que esta mágoa perdure para sempre. Parece irracional, estupidez? Talvez. Mas é assim que me sinto quando penso em ti.

Por vezes não sei onde me agarrar para continuar a viver. Por vezes parece que és tu ou a tua lembrança a impulsionar a minha vida. Não quero ter raiva nem carinho por ti. Não quero simplesmente esquecer-te. Quero apenas deixar de (te) sentir. Como se faz para deixar de sentir? Invento mil formas. Digo a mim mesma que nunca seriamos felizes juntos, que temos valores diferentes ou que somos impossivelmente iguais. Agarro-me ao despeito que sinto cada vez que vejo demonstrações de afecto para contigo, e sinto-me mal por ter esses pensamentos. Agarro-me ao desgosta imenso que sinto cada vez que te vejo oferecer a minha canção a outra mulher. E isso sim, mata-me. Intencional ou não, foi um tiro certeiro que desferiste. Uma bala que não pára, uma e outra vez, de me acertar. 

Vejo as insignificâncias do que me restou como algo sagrado. Nos momentos maus, são um abrigo. Nos momentos bons, uma lembrança dos limites a não ultrapassar. Um juramente para nunca mais repetir. Agora, sem a minha canção, o que me resta? A minha vida ainda menos completa, ainda mais sem sentido, menos suportável. Vivo incompleta e isso nunca mudará, aposto que nem na morte.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ainda assim... ela vive


Talvez nunca ninguém entenda. Talvez com o tempo esqueçam a ânsia que ela tem no olhar. Talvez pensem que, assim como eles esquecem, ela conseguirá também esquecer. Talvez um dia, quando a virem feliz com outro, se perguntem em que momento ele saiu dela. Mas não lhe vão perguntar. Se perguntarem, ela não lhes dirá em que momento foi. Não lhes dirá porque, mesmo feliz, não houve o momento. Ela nunca deixou de o querer. Ele será, ainda que nunca admita a ninguém, ainda o único. Diferente, estranho, inesquecível. E ela, sempre que olhar o mar ou a serra ao longe, sempre que a virem de olhar perdido, vai estar com ele. Incapaz de o esquecer, incapaz de não o entranhar cada vez mais em si. Feliz por um momento, em que o sonho fica tão real que ela se sente, por um breve segundo mágico, novamente dele.
Ela caminha, traz a alma acorrentada à vida. Mas não traz tristeza, pelo menos não a tristeza angustiante que pensam. Ela traz, nessa ânsia insatisfeita, nesse querer sem ter, sorrisos sonhadores, lembranças mágicas, e o cheiro dele. E é feliz assim, mesmo que ninguém jamais lhe entenda o espírito.
Se ele existiu ela não sabe. Se foi verdade cada instante que traz consigo, não tem certeza. Mas lembra-se do que sentiu, e basta-lhe. Talvez, mais do que a falta dele, tenha falta de quem foi com ele.
Ela vive. Não espera apenas. Sabe que tem de viver porque o passado não volta e só tem as memórias. E é feliz, pelo menos acredita que o vai ser um dia. Mesmo sem ele. Porque ela, mesmo que nunca mais o veja, nunca o perde. Ela é ele. Ela é um beijo demorado, uma carícia prolongada e um prazer incomparável. Ela é o cheiro dele, as palavras sorvidas sequiosamente. Ela é a certeza de um milagre. Ele… talvez ela nunca saiba quem ele é.
Viveram um instante que parou no tempo, mas que passou demasiado depressa. Ela traz remorsos também, mas sabe que são infundados. Ela sonha que teve coragem e ficou. Ela sonha que teve coragem e lhe pediu. E tenta esquecer, com os olhos perdidos no horizonte, que a ele lhe faltou a coragem. Tenta esquecer que ele não soube ficar, nem entendeu.
Quem é ele? Para ela, por mais que o tempo tenha passado, ele é o cheiro que mais nenhum homem tem. Ele é a voz angustiada, a bondade desmedida, a maldade temida. Ele é assustador, mas ela não sente medo. Ele é o diabo, e ela ama-o. De uma forma tão louca que nem usa a palavra amor. Teriam de inventar uma nova palavra para descrever esta prisão que ela tanto acarinha.
Entendem? Não, não podem entender… Ou talvez possam… Talvez os milagres aconteçam a todos um dia. Talvez não…
Não lhe consegue sentir os lábios, mas lembra-se das mãos a tocar-lhe o corpo. Não se lembra de todas as palavras, mas não esquece a vontade de lhe dizer que lhe pertencia. Não sabe quanto tempo ficaram em silêncio, com a respiração entrecortada pelo desejo, mas sabe que foi pouco. Não se lembra dos sons lá fora, mas a lua batia na janela, mágica. Não se lembra o que lhe disse, mas sabe que foi verdadeiro, como nunca antes e nunca depois. Não sabe o que ele sentiu, mas sabe que ele ficou entranhado na sua pele e, de tempos em tempos, quando a lembrança é mais forte, sente-lhe o cheiro no corpo ainda.
Sabe que ele não volta, mas não quer dar-se a mais ninguém. Tentou, quis entregar-se, mas ele aparecia nela e não podia. Ela é dele, mesmo que ele nunca mais a queira.
Dizem que é sonho. Ilusão demais. Não a conhecem. Não sabem a alegria do corpo dele no dela. Ela não precisa que lhe oiçam as palavras e compreendam o olhar. Só quer os instantes com ele marcados a ferro em si.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

... um cheque sem prazo de validade


"Se por acaso te perguntas sobre se penso em ti, depois deste tempo todo, pois que saibas - se de alguma forma puderes mesmo saber - que a resposta é "todos os dias". Não há em mim motivo mais frequente. Algures durante o dia, sou subtraído ao mundo das pequenas coisas. Foste o meu mapa, não sei fugir sem ti. Sei apenas, não me perguntes porquê, que não podes senão sentir - pelo menos uma parte de ti - o mesmo peso das minhas algemas. A tua prisão é a mesma que a minha. Como correr para a liberdade se a gravidade nos ata às correntes que somos? Em todos os momentos em que estamos com os outros, estamos meramente em nós. Indignos. Vemo-nos constantemente em sonhos, só isso. E um dia nada, nem sequer um desenho teu numa reflexão parada no ar. A memória que nos persegue devolve ao menos o conforto de se saber ter praticado o melhor crime que há."

(Gáston Peke, in Cuadernos del todo)

quinta-feira, 14 de março de 2013



"Que seria de mim sem as montanhas. Que modo de vida teria? Para onde iria?"





(Carlos Moreira)