Não sou daquelas pessoas que pensa muito na morte ou sequer
que a receie. Mesmo nos momentos mais desesperados da minha vida, e já tive
alguns, a morte voluntária nunca foi coisa que me tivesse passado pela cabeça. Não
sou, resumidamente, uma pessoa com tendências suicidas. Nunca serei. Vou achar
sempre, no meu habitual convencimento (ou ingenuidade), que a luta é possível.
A luta pela dignidade, a luta por uma vida melhor, a luta pela saúde, a luta
por um amor. A própria ideia da eutanásia me parece, agora, algo muito distante e
moralmente questionável, como se ao moribundo lhe fosse roubada a réstia de esperança, a mesma esperança que me assiste nos momentos de maior
desespero.
Contudo, há momentos em que anseio o descanso que
só a morte pode dar. Mas teria de ser uma morte sem céus ou infernos, sem
almas à minha espera ou à espera de uma nova oportunidade de viver. O vazio. Teria de ser uma morte vazia de tudo. Um buraco negro na existência. Mas com as probabilidades estatísticas da ciência, o mais certo é que esta mágoa perdure para sempre. Parece irracional, estupidez? Talvez. Mas é assim que me sinto quando penso em ti.
Por vezes não sei onde me agarrar para continuar a viver. Por vezes parece que és tu ou a tua lembrança a impulsionar a minha vida. Não quero ter raiva nem carinho por ti. Não quero simplesmente esquecer-te. Quero apenas deixar de (te) sentir. Como se faz para deixar de sentir? Invento mil formas. Digo a mim mesma que nunca seriamos
felizes juntos, que temos valores diferentes ou que somos impossivelmente iguais.
Agarro-me ao despeito que sinto cada vez que vejo demonstrações de afecto para
contigo, e sinto-me mal por ter esses pensamentos. Agarro-me ao desgosta imenso que sinto cada
vez que te vejo oferecer a minha canção a outra mulher. E isso sim, mata-me.
Intencional ou não, foi um tiro certeiro que desferiste. Uma bala que não pára, uma e outra vez, de me acertar.
Vejo as insignificâncias do que me restou como algo sagrado. Nos momentos maus, são um abrigo. Nos momentos bons, uma lembrança dos limites a não ultrapassar. Um juramente para nunca mais repetir. Agora, sem a
minha canção, o que me resta? A minha vida ainda menos completa, ainda mais sem
sentido, menos suportável. Vivo incompleta e isso nunca mudará, aposto que nem
na morte.
