sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Da minha língua vê-se o mar

Finalmente!
Soltem-se as velas - amanhã vou partir.
Há uma ansiedade que me queima por dentro como um sol.
Não sei explicar... só sinto que é como nascer de novo após um longo sono ou poder finalmente respirar, encher o peito de ar frio e deixar-me levar pelo sonho.
Quero o chão, quero dar-me às ervas do caminho, quero ver tudo.
É isto que me faz feliz!


"Sento-me aqui, no centro do mundo, no local onde nascem e morrem as tristes ondas do mar, na rocha onde se perdem os restos salgados da nossa ambição e vontade de vencer que nos conduziram pelo mundo fora.
E, passados tantos anos, ainda vejo as naus, ainda vejo mar repleto de heroísmo comandado, à proa, por marinheiros destemidos com roupas esfarrapadas pela ambição.
Hoje, aqui estou, neste promontório de onde se vê o mar, a escrever na mesma língua feita de orgulho de todos os feitos que o meu povo conseguiu.Luto, luto, luto, como se da minha língua visse eternamente o mar, como se este novelo da vida não tivesse fim, como se nas minhas mãos transportasse a glória e o orgulho de quem descobriu algo para além da escuridão do desconhecido.
Hoje, em cada recanto do mundo, existe um pouco daquilo que as nossas mãos foram capazes de construir, há ainda uma réstia do heroísmo, da valentia, da coragem e da simplicidade deste nosso povo português.
Afinal, apenas hoje descobri que fui feliz.
Quando o céu se pintava eternamente de azul e a vida parecia estar em cada uma das estrelas que me acompanhavam, quando os pássaros traziam nos seus bicos a magia de mais um dia, quando sorria e não sabia ao certo que sorria … era feliz.
Na verdade, a felicidade é apenas sorrir, sorrir e levar o mundo na palma da mão, sorrir e desbravar o mar com asas de sonho, sorrir e descobrir o mundo.
Por isso escrevo, escrevo tremulamente enquanto recordo, escrevo nas nuvens do céu, na areia do mar e nas folhas de papel a história de quem venceu, de quem se viu pequeno e ansiou tornar-se grande. * "


"Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.
Da minha língua vê-se o mar.
Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação. ** "




(*) de Isa Mestre
(**) de Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Hino

A vida pode ser vivida de duas formas, como um fogo poderoso que tudo queima, destrói mas também regenera, ou como brasa que aquece lentamente, que conforta e, como incenso, perfuma e acalma.
Eu devia aprender a viver mais como brasa e menos como fogo, mas por mais serena que me sinta, por mais ensinamentos que beba, nem a idade me concede esse juízo.
Para mim a vida só me faz sentido assim - tudo tem de ser paixão, tudo tem de ser perturbador, não sei entrar nem sair de mansinho dos sítios onde deixo o coração!
A montanha que se quer mais alta, o amor que se quer arrebatador, a vitória que se quer sofrida... e caramba, como isto me enche de forças e ao mesmo tempo me esgota...

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia." (Martha Medeiros)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(3) Flood, o corvo branco


Abriu uma asa e depois outra. Assim exposto à luz do dia confundia-se com o horizonte e com as copas das árvores brancas. Flood era diferente. Vivia sozinho no galho mais alto do pinheiro mais alto do bosque para lá do riacho. Ele gostava de erguer a cabeça para o céu e imaginar as formas que as nuvens criavam ao brincar com o vento. Depois fechava os olhos e deixava a brisa fria do outono sacudir-lhe as penas brancas.
Flood tinha o nome do riacho depois das chuvas, quando as águas transbordavam e arrastavam tudo. Flood também transbordava, de emoção, enquanto sonhava com as cores que não conhecia e com os cheiros por descobrir. Como um corvo criança, gostava de rodopiar no ar em grandes acrobacias, fazendo sorrir todos os animais do bosque, cheirando o ar, as cascas dos pinheiros, a neve fria. Ele cheirava tudo, desde as carcaças de que se alimentava, ao canto dos outros pássaros, e de cada vez descobria uma tonalidade diferente, um brilho interior, um novo contorno. Às vezes, com o seu apurado olfacto, descobria também uma ou outra doença nos animais que o consultavam. Era o médico do bosque.
Ao despertar, quando os primeiros raios obliquos da madrugada serpenteavam por entre os ramos, tudo lhe parecia novo e cheio de vitalidade. Flood não tinha medo, era um corvo destemido, forte como a corrente do riacho e livre como as suas margens. Olhava cada dia com todos os sentidos apurados, cada centelha de energia abria-lhe um novo caminho, uma nova visão. Ele amava a vida.
A andorinha chegou finalmente ao bosque nevado. Estava cansada mas feliz. Decidiu arriscar-se pelo pinheiro mais alto que encontrou - de lá conseguiria ver bem todo o horizonte e seria um bom sitio para se abrigar do frio e dos prepadores. Ao pousar no ramo mais alto sentiu que alguém a observava. Olhou em redor e só viu branco. Uma sombra agitou os galhos. A andorinha fixou o olhar e viu um grande corvo que se confundia com o céu. Susteve a respiração e fechou os olhos. Ele aproximou-se, encostou o bico ao corpo frágil dela e deixou-se ali ficar por um instante a absorver o cheiro das suas penas. Ela cheirava a arroz doce com raspa de limão, cheirava a areia quente e ao mesmo tempo a neve fresca. Lembrava-lhe o odor do riacho com salpicos de juncos. A andorinha ganhou coragem e abriu os olhos. O que viu deixou-a sem pio - a olhá-la estavam dois grandes olhos cor da cinza, da cinza de todas as fogueiras do mundo e sorriam para ela. Flood era cego.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Serenata inacabada


Não sei cantar. Mas não tenho medo.
Arriscaria uma serenata com a destreza de um tenor e o compasso de uma cubana.
Não, não tenho medo de dizer que o meu espírito se aquietaria se me abraçasses, enquanto me beijavas o cabelo ainda molhado.
Que o amanhecer saberia melhor se, ainda adormecido, procurasses a minha mão por debaixo do edredon.
Que diria baixinho "gosto de ti" quando me encostasse ao teu peito largo.
Não tenho medo de dizer que adoraria olhar para o teu rosto sério quando estás distraído, fazendo beicinho.
Que me sentiria protegida ao lado da tua altura, como um pássaro na palma da mão.
Que o passar dos dias me faria sentir que és a casa à qual gostaria de regressar todas as noites.
Não tenho medo de dizer que quando a tua boca se enchesse de um sorriso todas as estrelas nasceriam no céu e as trevas se desvaneceriam com vergonha.
Que me queria dar como algodão doce que se cola às mãos. Que olharia a vida com esse sabor, doce, num tormento de paixão.
Que o teu cheiro seria chuva e neve e sol, e que amadureceria tudo em mim como uma espiga de trigo.
Não. Queria não ter medo... de te chamar meu amor...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O homem que não conseguia chorar


Não tenhas pressa...
Tal como outras coisas nesta vida, chorar não tem hora marcada, e um dia chegará a tua vez, forte, sem te aperceberes como nem porquê.
Um dia, talvez, ao ouvires o vento a dançar com as folhas da árvore defronte da tua janela, ao olhares nos olhos azuis, sem fundo, de um recém-nascido. Um dia, no amor, durante aqueles breves segundos de êxtase em que deixas de ser só tu e és tudo: lençóis, ar pesado, estrela cadente ou corpo dilatado até ao infinito. Nesse momento em que já não conseguires reter nada dentro de ti, ai sim, chorarás como uma criança, profundamente e sem sentido. Expelirás, numa longa golfada, mágoa quente, alegria colorida, vingança fria, prazer animal, vitória saborosa, compaixão silenciosa e dor, toda a dor, negra como basalto.
Não tenhas pressa, digo-te eu, que chorar também nos consome e esgota, e é preciso tempo para repor forças e acumular essa seiva viscosa que nos corre pelas veias, como um rio sereno num longo entardecer.
Não tenhas pressa. Um dia a seca acaba e, com um trovão oco, começará a chover nos teus olhos verdes!


Para Miak

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Hoje doem-me as palavras,
demasiado pesadas para um corpo frágil
enchem-me até ao vómito
sufocam-me
e estou tão cansada...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pigmaleão


06h00:Hoje acordei com o despertador. Olhei para as horas fluorescentes no escuro do quarto e perguntei-me que dia da semana seria. Depois lembrei-me do que acabara de sonhar - que tinha ido caminhar para Gredos com o meu irmão. Com o meu irmão??... que não dá dois passos sem ser de carro. Mas lá estávamos os dois, no meio daquela cordilheira de montanhas a formar um anfiteatro.
(Deixo-me ficar mais um bocado de bruços na cama, a cara enterrada na almofada, a apreciar a paisagem já fria de Novembro em Espanha. Como um filme)
Será que já neva por lá? Bateu-me uma vontade tão grande de me por ao caminho...06h17:E foi assim que me levantei e me lembrei de uma canção: "The rain in Spain...". E com essa recordação veio outra - a de uma personagem na história do teatro que sempre me fascinou - Eliza Doolittle. A adaptação musicada ao cinema desta peça, na figura de Audrey Hepburn e da canção é, ainda hoje, uma deliciosa recordação de infância. E, no entanto, esta recordação foi-se alterando com o tempo, na sua essência, no significado da história.
(Olho-me ao espelho. A rebeldia que me sai pelos cabelos e que nem a água lava. Como um grito)
Eliza era uma jovem florista de um bairro pobre, que se vê metida no meio de uma aposta de amigos. Henry Higgins aposta que a consegue fazer passar por uma mulher refinada da alta sociedade, ensinando-a a falar e a vestir correctamente e treinando-a na arte da etiqueta. Mas por mais que Eliza mude, nunca atinge os padrões de perfeição impostos por Henry, acabando por se tornar quase irreconhecível a ela própria. A flor mulher vai definhando pela opressão. Apesar de crescer entre eles uma afeição profunda, Eliza acaba por rejeitar Henry e a sua maneira dominadora e misógena de a tratar.


06h29:
No fim, Eliza percebe que já não pertence a nenhum dos dois mundos que conhece - os ricos não a aceitam como uma deles e ao mesmo tempo não pode regressar ao mundo que deixou para trás.
(Debico o pão com manteiga, de pé junto à bancada, enquanto penso no que dirás quando me vires hoje. Como um desejo)
Esta história que começa com o ideal de Gata Borralheira acaba, de certa forma, a recriar o mito Frankenstein.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Coragem Amor Mudança



Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...


(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

(2) Pintas, o gato que gostava de arroz doce

O dia tinha nascido bonito. O sol iluminava o riacho e a andorinha, do alto do limoeiro, gostava de olhar os peixes a nadar no fundo. Pensou para si que um dia também iria saber fazer aquele bailado sincronizado, mas a voar claro. Via as achigãs verdes a debicar à tona da água, os girinos velozes em acrobacias por entre os juncos submersos, ouvia a cantoria das rãs e ao longe o planar silencioso de um milhafre. Esconde-te rã, esconde-te depressa, pensava a andorinha. Abriu os olhos e lembrou-se que tinha ficado de ir buscar umas raspas de limão para fazer arroz doce para oferecer. O Pintas, gato diferente, gostava de limão e mais ainda de arroz doce com limão. O que é que andaste a fazer durante tanto tempo? Andas sempre com a cabeça na lua! - disse o Pintas. A andorinha, triste daquele azedume mais azedo que o limão, não respondeu. Afastou-se para junto da panela e juntou as raspas de limão ao arroz que já estava doce e ficou ali, enroscada ao lume, a aquecer-se. Sentia um frio estranho. Fechou novamente os olhos e pensou no riacho e no vôo do milhafre. Queria tanto voar assim, planar silenciosa até ao deserto, ou apenas até à floresta do outro lado do riacho onde nunca tinha estado. Sabia que lá já nevava pois via as copas das árvores pontilhadas de um branco igual ao seu peito. Colo de Garça era como lhe chamavam. O Pintas não o sabia. Nem nunca lhe tinha perguntado. A andorinha aproximou-se dele e pediu-lhe para a levar no seu dorso até à floresta. Ela gostava tanto de ver a neve e haviam de ficar bem os dois a passear, ele cor de chocolate de leite e ela negra, com o peito a condizer com aquela imensidão branca.
- Achas?! Passas a vida a sonhar e estás sempre a fazer-me perguntas estranhas e inconvenientes. Acho que nem gostas de mim! - disse o Pintas com uma careta.
- Quero conhecer-te! - disse a andorinha.
- Dhaa...- taramelou o Pintas.
- Então eu vou, sozinha, quero arrepiar as asas no fresco da neve.
- Não vais conseguir voar, tens uma asa mordida! - troçou ele.
- Tão certo que consigo, como aquele arroz doce que consegui fazer por ti, mesmo com esta asa mordida. - disse a andorinha segura de si. - Que te aqueça e adoce o coração.
- Eu vou. Adeus! - disse ela com um sorriso a nascer no bico.
Abriu as asas e levantou vôo.