segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Dezembro, 23


"Que bom seria se tu fosses meu irmão,
se tivéssemos sido amamentados pela mesma mãe!
Então, se nos encontrássemos na rua,
poderia beijar-te, e ninguém se importaria.
Levava-te para a casa da nossa mãe,
e tu ensinavas-me.
Dava-te o meu vinho de romãs para beberes.
A tua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça,
e a direita a abraçar-me.
Prometam, mulheres de Jerusalém,
que não vão perturbar o nosso amor.
Grava-me como um selo no teu coração,
como uma marca indelével no teu braço.
O amor é tão poderoso como a morte;
e a paixão tão inflexível quanto a sepultura.
O amor e a paixão explodem em chamas
e queimam como fogo furioso.
Nem mesmo as muitas águas podem apagar o amor,
e nenhum rio pode arrastá-lo.
Se alguém quisesse comprar o amor
e por ele oferecesse as suas riquezas,
receberia somente o desprezo."

(Cânticos 8:6)


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Carta


Meu amor,

Há noites em que me imagino a visitar-te no teu sono. Imagino que nos encontramos no mundo paralelo da nossa inconsciência. Nessa praia banhada por ondas serenas e pelo grito dos pássaros. Um mundo onde os nossos sonhos são realidade. 
Aproxima-se aquele dia do ano em que os mundos físico e espiritual se fundem, e eu vou poder finalmente sonhar contigo.
Na semana passada passei na rotunda onde me beijaste pela primeira vez. Lembras-te desse beijo e do terramoto que provocou? O tempo passa depressa e os 15 anos que separam esse dia tornam-no enevoado, como se estivesse coberto por uma gaze que não deixa ver-lhe o detalhe, mas apenas sentir. E eu ainda sinto tudo, como nessa noite. O teu cheiro, o teu gosto, o teu toque, tatuados em mim para sempre. Mais uma vez, à memória começa a faltar-lhe o detalhe, mas o sentimento permanece, indelével. Esse, ninguém jamais conseguirá apagar. Há muito tempo atrás disse-te que quando partiste deixaste um buraco no meu peito, mas agora quando penso nisso vejo as coisas de forma diferente. Não foi um buraco que ficou, mas um pedaço de carvão em combustão lenta e constante. Aquilo que deveria ter acabado, nunca teve um fim. E nunca terá. Arde eternamente no lugar do meu coração, alimenta-me a alma com compaixão, inspira-me a fazer mais, a ser melhor e ilumina-me nos momentos mais negros. Porque o amor e a partilha terão sempre de ser contrabalançados com a dor e a perda. O que deixaste em mim foi um amor eterno, uma força bruta, um desejo insaciável. Tu és o amor da minha vida. E é como se a minha vida só tivesse começado quando me beijaste pela primeira vez. A partir daí tornei-me indomável. Sobressaiu em mim a minha natureza - uma casa construída sem fio de prumo. A partir daí fui capaz de tudo, de tudo, menos de te guardar.
Sei que encontraste a estabilidade que procuravas. Tudo o que não te soube dar. Sei também, com uma certeza perene, que algo te falta. Que quando te dizes feliz, quando sorris, algo se contorce dentro de ti, incomodado. Sei-o porque também a mim me falta algo. Esse quarto vazio dentro de nós. Um quarto que não pode ser preenchido com filhos, jantares em família, jardinagem ou competições de tiro ao alvo. Porque nesse quarto só cabe uma pessoa. Esse quarto estará sempre vazio, à espera. Será como aqueles quartos perdidos nas casas antigas, que os donos mantêm religiosamente fechados, a ganhar pó, intocáveis, eternamente em suspensão, porque são a única coisa que os liga aquilo que perderam.
Por tudo o que nos aconteceu culpo a minha juventude. Mas mais ainda, culpo a minha ignorância dos preceitos da vida. Hoje penso que a nossa vida em conjunto teria oscilado entre uma interminável competição de dentes e garras ou uma insatisfação que dificilmente saberíamos suportar. Imagina um sistema solar binário em que as duas estrelas, iguais em poder e dimensão, se tocam ao de leve, como se de um beijo se tratasse. Mas aquele abraço cósmico em breve se transformará em catástrofe e para as duas estrelas só existe um fim possível, a destruição. É a lei da natureza. 
Mas no meio de todas estas incertezas, há algo que sei e que, tal como a tua tatuagem, está inscrito em mim. Não consigo viver sem ti! Por tudo isto, serei sempre um bicho solitário, como aqueles animais monogâmicos que acasalam para a vida. É por isso que imagino o dia em que te verei chegar, em que me darás a mão, em que te beijarei primeiro a testa, depois os olhos e for fim a boca. Imagino o dia em que as nossas línguas se tocarão, em que me puxarás para ti e me abraçarás. Imagino o dia em que esconderei o meu rosto no teu peito, em que sentirei o teu cheiro e o teu calor. O dia que te ouvirei dizer, em silêncio, “amo-te”!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O teu mundo


Nas suas melhores fantasias, ela via-vos juntos. Felizes, numa casa nova. Em pouco tempo, teriam um filho, almoços em família e viagens românticas. Só que ela estava a ver-te como ela queria. Não como tu eras. E talvez ainda esteja. Aquela rapariga acreditava que esta era uma outra forma de te amar - ver-te além dos defeitos, idealizando um futuro que certamente não teriam. Não devido aos enganos que lhe sussurraste e que ela, ingenuamente, acreditou. Mas, sim, ao facto de que ela revolucionou o seu mundo por vocês. Sem perceber, durante algum tempo, foi só isso que ela recebeu: mentiras sinceras, omissões proferidas em prol de um sorriso imediato.

Ela sempre desconfiou de histórias de amor construídas na primeira pessoa do singular, mas o amor é realmente cego. E, obviamente, um dia tudo acabou. O mais engraçado é que a rapariga apaixonada sempre esteve ao teu lado, mesmo quando estava longe de ti. Desculpando secretamente os teus erros, incentivando-te, fazendo-te sentir (mesmo sem o saber) o homem mais amado do mundo.

Quando ela percebeu que tudo tinha acabado, viu-se diante de um labirinto, feito de paredes negras e altas. Onde a luz não penetrava. Aquela rapariga, agora mulher, ainda se lembra dos dias que passou perdida nesse labirinto escuro. Ainda se lembra de como chorou, como se fosse o fim do mundo - uma criança perdida na sua ingenuidade, acreditando que aquilo duraria para sempre. Muitos anos depois acabou por conseguir sentir-se orgulhosa da rapariga que cresceu e seguiu em frente. Percebeu que não valia a pena insistir em planos que não a incluíam.

Sabes, na culinária, queijo combina com goiabada; na música, a voz rouca com o violão; na astrologia, signos de fogo com os de ar. O mundo está cheio de combinações interessantes. Só que há algumas que nunca dão certo: amor com egoísmo, jogos com sentimentos.
Tu nunca deixaste de exibir um aparente controlo, um sorriso distante como se tudo não tivesse passado de um jogo inconsequente de crianças. Intimamente batias no peito e pensavas: "Duvido que não voltes". E isso para ela soou como um desafio. Ela sempre te disse que não gostava de jogos, lembras-te!? Tu desafiaste-a e ela desafiou-se a si própria também. Quis superar-se, conhecer outras pessoas, outras cidades, outros países, fazer trabalhos diferentes, cometer novos erros e de novo erguer-se, mais forte e mais consciente. Realizar os sonhos que tinha planeado concretizar contigo e que foram deixados no fundo da gaveta.

Agora, após tanto tempo, após fazer tudo isto, ela chegou à conclusão de que o mundo dela é melhor sem ti!

Ela já partiu, e não vai voltar.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

N, dentro do meu coração estás tu


Sinto tanto a tua falta…

Queria abraçar o teu olhar
Sentir o calor do teu sorriso no meu rosto e
   as tuas mãos em concha a amparar o meu coração
Queria dar-te a beber os meus lábios
Roubar a tua figura, como um pirata de peito ao vento,
   para nela me abrigar do frio da cidade 
Preciso tanto ouvir a doçura das tuas palavras
   a tocar a curva do meu peito
Deixar a minha língua desenhar um caminho nas tuas costas
   que me leve ao céu
   e me encha de vida
Com o meu cabelo desalinhado pintar-te uma casa branca
   virada para o oceano
Da cadeira no alpendre fazer a janela por onde entro no teu corpo
   para te ver
   para te ter
   para sermos finalmente nós!
_____

Sei perfeitamente que dentro do meu coração estás tu
   e não vou precisar nunca de um papel que mo diga.
Quando o tempo chegar ao fim e olhar para trás
   é o teu amor que vou levar,
   a memória das manhãs que acordei ao teu lado,
   de ter ansiado e desejado alguém que para os outros seria improvável,
   mas que para mim era tudo o que eu mais queria.

Amo-te
Como no primeiro dia

Amo-te todos os dias...

terça-feira, 24 de março de 2015

Parte de mim


Algum dia te preocupaste com alguém como se esse alguém fosse uma parte de ti? uma perna? um braço?… é que só assim conseguirias perceber o que sinto. Preocupo-me contigo como se tu fosses uma parte de mim:  a minha mão, a esquerda, a mais bonita e perfeita. a que gosto mais. percebes?
Eu sei que passas todo o dia comigo, mesmo quando não estás. Na minha cabeça eu durmo contigo e é contigo que acordo todas as manhãs. Nunca deixei de gostar de ti durante todo este tempo. É belo, eu sei,  mas é insuportável.
Dizem que quando um amor é impossível, nunca acaba e que são os que duram para sempre.
E também dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes


 Herberto Helder