quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Post Scriptum



Houve algo que não te disse.

O fim desta etapa da minha vida, que começou há 30 anos quando eu tinha acabado de fazer 16 anos, é mais do que o fim de um trabalho. Para mim é como se fosse um segundo fim da nossa história. Porque foi neste período da minha vida que te conheci, que me apaixonei por ti e te amei como a ninguém. Ao sair hoje pela porta daquele escritório tive vontade de chorar, porque foi como se tivesse de te dizer adeus uma vez mais. É uma etapa da vida que não volta atrás e que não se repetirá, mas que está gravada em mim de forma mais permanente que uma tatuagem.

És o homem que mais amei, és o homem por quem abdiquei de muita coisa importante na minha vida e que estará sempre (mesmo que eu o negue) no meu coração e, sobretudo, nos meus pensamentos. Nos momentos bons e maus, será em ti que vou pensar, será dos momentos que vivemos juntos que me vou recordar, será contigo que imaginarei um futuro que nunca chegará. Apesar da mágoa que ainda hoje sinto por muita coisa que fizeste e dissestes, nunca deixei de acreditar em nós, e ao fazê-lo toda a emoção que senti na primeira vez que nos amámos regressa. E com ela regressa o desejo, a raiva, o sonho, o amor, o querer-te bem só porque sim. Irracional, eu sei, mas serás sempre a melhor parte de mim, a parte em que aprendi a amar e a lutar, a parte em que aprendi a perder tudo. Irracional, eu sei. No fim de contas nunca tivemos hipóteses. Os Deuses não permitiram que fossemos mais que um momento na viragem do milénio. Talvez fossemos o bug Y2K que tanto se esperava, a catástrofe eminente. E por termos sido essa catástrofe súbita e momentânea é que ficámos marcados irremediavelmente. Se o momento se prolongasse ter-se-ia perdido, de forma inconsequente.

Não pretendo assumir que tudo esqueci, ou que desejo que sejas feliz ao lado de outra pessoa, ou ainda gabar a minha vida atual. Estaria a mentir. A vida é uma farsa que representamos todos os dias para quem quer assistir. Eu vivo o melhor que posso dadas as circunstâncias (não é o que todos procuramos fazer?), mas estarei sempre incompleta, a representar, porque a paixão perdeu-se contigo. Talvez a vida seja isso mesmo, uma sucessão de pedaços que vamos perdendo pelo caminho até já não restar nada. Hoje foi mais um pedaço que perdi. E sinto-me estranhamente vazia e desorientada. Não pretendo com isto que me escrevas com palavras de consolo ou condescendência. Nunca foi isso que desejei de ti. E o que desejei está guardado dentro de mim, como um sonho à espera de ser concretizado. Um dia.

Espero-te noutra vida.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Oração

Todos os dias.
Peço-te por força e coragem... todos os dias.
Coragem para esquecer, força para lutar contra aquilo que me corrói por dentro como um cancro.
Peço-te para apagares do calendário os dias e os meses do ano em que fui feliz.
Certas datas. Horas impróprias.
Natal, verão, dia de todos os santos, primavera, meia-noite, hora de almoço.
Peço-te sabedoria para aceitar aquilo que nunca irei entender. Momentos trágicos no meu coração remendado.
Serei toda a vida como uma alcoólatra em estado abstinência.
Nunca mais sentir.
Hoje sei que será sempre assim
– a vida no limiar, a um passo do abismo.


O Diplomata


Ele era um homem bem-posto do alto do seu metro e noventa. Vestia o fato escuro como uma concha impenetrável à mácula. No rosto aquele constante sorriso educado. Era um homem cordial e até prestável. Tinha mulher e filhos, respeitosamente instituídos. Falava educadamente, sempre no tom correto, sempre sem se desviar da norma. Porque a norma era o seu cartão de visita. Porque ele era um diplomata.
Ela era magra, há quem dissesse demasiado magra, como se algo lhe sugasse as forças. Sempre que podia vestia calças de ganga e t-shirt branca e tinha sempre o cabelo desalinhado e a cabeça nas nuvens. Sonhava. Sonhava muito e esperava. E quando acordava a meio da noite era nele que pensava. Estendia o braço na escuridão e sentia que quase o conseguia tocar. Durante o dia escrevia a sua história em palavras estúpidas de amor e mágoa e fingia que vivia. Dava sempre um pouco mais de si a cada passo, achando que podia ter dado talvez um pouco mais. Nada lhe era suficiente para compensar os sonhos dos quais procurava fugir. Ela amava-o.
Ele olhava para ela com uma curiosidade que não conseguia disfarçar. Ela fugia à sua norma e isso excitava-o. Fazia-o sentir-se vivo. Fazia-o sonhar com uma vida diferente da que levava, menos imaculada, talvez menos sorridente, mas mais estimulante. No entanto, as palavras de amor e mágoa que ela insistia em escrever deixavam-no desconfortável e davam-lhe ainda mais força para seguir com fervor o seu caminho de diplomacia. Certo das suas escolhas. Confiante do destino que traçara. As palavras dele para ela eram, tal como ele, educadas e matemáticas. Como um fumador que fuma compulsivamente às escondias para não admitir a si próprio que é um viciado.
Um dia ela vai pedir-lhe para o ver e ele vai recusar, educadamente, como se espera de um diplomata.
Um dia ela vai deixar de escrever e ele vai entender, do alto do seu metro e noventa, que a sua diplomacia só serviu para se enganar a si próprio.

Mas ainda não é hoje.