"8850 metros de altitude: não faço ideia do que seja, não imagino o que se possa sentir. Sei apenas que há-de ser algures, física e emocionalmente, o lugar mais próximo dos deuses que os homens podem alcançar aqui na terra. Sei que deve ser um lugar de abismos e de espantos, de sonho e de demência, vago, impreciso, envolto em névoa e em pavor e, todavia, ali mesmo ao alcance do derradeiro esforço.
A solidão é a marca dos grandes viajantes, dos obstinados, a doença da lucidez. A solidão é o primeiro e o último desafio do homem e começa sempre, sempre, por um referente físico, que funciona como um limite: pode ser um limite vertical, como na montanha, pode ser como no mar um limite de profundidade, ou pode ser como no deserto um limite horizontal.
Além, no cume da mais alta montanha, no fundo do mar onde a luz já nao entra ou na vastidão de areia onde a violência da luz apaga todas as arrogâncias, estamos sós, irremediavelmente sós. Nenhum passo caminha atrás do nosso passo, nenhum eco reproduz a nossa voz, nenhuma mão se estenderá se o vazio ou o abismo engolirem o nosso desafio aos deuses.
Mas, na verdade, há viagens sem regresso, há coisas de que nunca mais se volta, ainda que se esteja aqui, agora."
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(A Mais Alta Solidão - prefácio de Miguel Sousa Tavares)
2 comentários:
Pura verdade, neste belo texto do Sousa Tavares. Gostei do teu blog, pela sensibilidade e bom gosto com que trabalhas todos os temas.
Parabens
What's'up...??
A dive in the dark?!...
Hellooooooooo..... lloooo... ooooo....
O eco voga no vazio abissal.... Onde andarão as botas que fazem mover estas montanhas...???...
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