segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Big man smiling

O seu sorriso sempre foi cheio de vida, como ele próprio. Um sorriso fácil, como acontece com a maioria das pessoas grandes e pesadas.
Olhei, expectante, o monitor e vi a pequena fotografia que há tanto tempo procurava.
Era ele, numa pose recente, lembrando-me uma escultura de Mueck numa galeria em Londres.
A primeira reacção foi de surpresa. A segunda foi de embaraço pela ousadia de estar a observar algo que não me fora destinado. Reprimi o gesto de baixar o olhar e permiti-me olhá-lo “nos olhos” pela primeira vez em muitos anos.
O seu olhar era agora mais escuro e profundo. O verde reluzente de antigamente dera lugar a um verde seco e escuro, quase castanho, como o das folhas na iminência do Outono. Era como se por detrás dos seus olhos existisse agora um poço sombrio onde ele afogava as tristezas, as desilusões e os sonhos perdidos.
E, no entanto, ele sorria.
Estava mais pesado. A cara mais bolachuda. O corpo farto de quem come para esquecer o que ficou e lembrar quem já partiu. O seu corpo era a memória do seu pai. Uma presença física a que ele se forçava, não por obrigação mas por achar injusta tão precoce partida.
Ocorreu-me que ele o recriava.
Ocorreu-me que talvez aquele sorriso não fosse sincero e que ele de certa forma procurava o fim, na mesma dimensão e com a mesma brandura que o pai. Culpa e amor, mágoa e saudade.
E, no entanto, ele sorria.
Já não era o rapaz de expressão presumida e feroz com o mundo nas mãos, mas o homem caminhando para aquela idade em que por entre cada segundo, cada passo ou fôlego, há uma indelével sensação de que o tempo se esgota e o mundo que tínhamos na mão se esvai por entre os dedos, como grãos de areia.
E, no entanto, ele sorria.

E vejo a serpente fazendo ninho à volta do teu coração. Contorcendo-se a cada emoção. Sorvendo o ar que é teu, bebendo os teus sonhos. Aguardando a inevitável hora em que, num abraço fraternal, te tomará para si.
...diz-me quem guarda agora o teu sono?

1 comentário:

Anónimo disse...

Olá, não sei ao certo o que me aperta o coração…, se é o frio, próprio deste tempo ou o facto de cada vez que regresso ao teu blog e vejo que tu não exprimes ao mundo, os teus anseios os teus desafogados pensamentos, só espero que não seja o temor da serpente.
Que esta crise que todos sentimos não apague os teus sentimentos e nos impeça de dar largas á imaginação na leitura do teu blog.
Um beijo
(Falcaodonorte)