Talvez nunca ninguém entenda. Talvez com o tempo esqueçam a ânsia que ela tem no olhar. Talvez pensem que, assim como eles esquecem, ela conseguirá também esquecer. Talvez um dia, quando a virem feliz com outro, se perguntem em que momento ele saiu dela. Mas não lhe vão perguntar. Se perguntarem, ela não lhes dirá em que momento foi. Não lhes dirá porque, mesmo feliz, não houve o momento. Ela nunca deixou de o querer. Ele será, ainda que nunca admita a ninguém, ainda o único. Diferente, estranho, inesquecível. E ela, sempre que olhar o mar ou a serra ao longe, sempre que a virem de olhar perdido, vai estar com ele. Incapaz de o esquecer, incapaz de não o entranhar cada vez mais em si. Feliz por um momento, em que o sonho fica tão real que ela se sente, por um breve segundo mágico, novamente dele.
Ela caminha, traz a alma acorrentada à vida. Mas não traz tristeza, pelo menos não a tristeza angustiante que pensam. Ela traz, nessa ânsia insatisfeita, nesse querer sem ter, sorrisos sonhadores, lembranças mágicas, e o cheiro dele. E é feliz assim, mesmo que ninguém jamais lhe entenda o espírito.
Se ele existiu ela não sabe. Se foi verdade cada instante que traz consigo, não tem certeza. Mas lembra-se do que sentiu, e basta-lhe. Talvez, mais do que a falta dele, tenha falta de quem foi com ele.
Ela vive. Não espera apenas. Sabe que tem de viver porque o passado não volta e só tem as memórias. E é feliz, pelo menos acredita que o vai ser um dia. Mesmo sem ele. Porque ela, mesmo que nunca mais o veja, nunca o perde. Ela é ele. Ela é um beijo demorado, uma carícia prolongada e um prazer incomparável. Ela é o cheiro dele, as palavras sorvidas sequiosamente. Ela é a certeza de um milagre. Ele… talvez ela nunca saiba quem ele é.
Viveram um instante que parou no tempo, mas que passou demasiado depressa. Ela traz remorsos também, mas sabe que são infundados. Ela sonha que teve coragem e ficou. Ela sonha que teve coragem e lhe pediu. E tenta esquecer, com os olhos perdidos no horizonte, que a ele lhe faltou a coragem. Tenta esquecer que ele não soube ficar, nem entendeu.
Quem é ele? Para ela, por mais que o tempo tenha passado, ele é o cheiro que mais nenhum homem tem. Ele é a voz angustiada, a bondade desmedida, a maldade temida. Ele é assustador, mas ela não sente medo. Ele é o diabo, e ela ama-o. De uma forma tão louca que nem usa a palavra amor. Teriam de inventar uma nova palavra para descrever esta prisão que ela tanto acarinha.
Entendem? Não, não podem entender… Ou talvez possam… Talvez os milagres aconteçam a todos um dia. Talvez não…
Não lhe consegue sentir os lábios, mas lembra-se das mãos a tocar-lhe o corpo. Não se lembra de todas as palavras, mas não esquece a vontade de lhe dizer que lhe pertencia. Não sabe quanto tempo ficaram em silêncio, com a respiração entrecortada pelo desejo, mas sabe que foi pouco. Não se lembra dos sons lá fora, mas a lua batia na janela, mágica. Não se lembra o que lhe disse, mas sabe que foi verdadeiro, como nunca antes e nunca depois. Não sabe o que ele sentiu, mas sabe que ele ficou entranhado na sua pele e, de tempos em tempos, quando a lembrança é mais forte, sente-lhe o cheiro no corpo ainda.
Sabe que ele não volta, mas não quer dar-se a mais ninguém. Tentou, quis entregar-se, mas ele aparecia nela e não podia. Ela é dele, mesmo que ele nunca mais a queira.
Dizem que é sonho. Ilusão demais. Não a conhecem. Não sabem a alegria do corpo dele no dela. Ela não precisa que lhe oiçam as palavras e compreendam o olhar. Só quer os instantes com ele marcados a ferro em si.

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