quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Carta


Meu amor,

Há noites em que me imagino a visitar-te no teu sono. Imagino que nos encontramos no mundo paralelo da nossa inconsciência. Nessa praia banhada por ondas serenas e pelo grito dos pássaros. Um mundo onde os nossos sonhos são realidade. 
Aproxima-se aquele dia do ano em que os mundos físico e espiritual se fundem, e eu vou poder finalmente sonhar contigo.
Na semana passada passei na rotunda onde me beijaste pela primeira vez. Lembras-te desse beijo e do terramoto que provocou? O tempo passa depressa e os 15 anos que separam esse dia tornam-no enevoado, como se estivesse coberto por uma gaze que não deixa ver-lhe o detalhe, mas apenas sentir. E eu ainda sinto tudo, como nessa noite. O teu cheiro, o teu gosto, o teu toque, tatuados em mim para sempre. Mais uma vez, à memória começa a faltar-lhe o detalhe, mas o sentimento permanece, indelével. Esse, ninguém jamais conseguirá apagar. Há muito tempo atrás disse-te que quando partiste deixaste um buraco no meu peito, mas agora quando penso nisso vejo as coisas de forma diferente. Não foi um buraco que ficou, mas um pedaço de carvão em combustão lenta e constante. Aquilo que deveria ter acabado, nunca teve um fim. E nunca terá. Arde eternamente no lugar do meu coração, alimenta-me a alma com compaixão, inspira-me a fazer mais, a ser melhor e ilumina-me nos momentos mais negros. Porque o amor e a partilha terão sempre de ser contrabalançados com a dor e a perda. O que deixaste em mim foi um amor eterno, uma força bruta, um desejo insaciável. Tu és o amor da minha vida. E é como se a minha vida só tivesse começado quando me beijaste pela primeira vez. A partir daí tornei-me indomável. Sobressaiu em mim a minha natureza - uma casa construída sem fio de prumo. A partir daí fui capaz de tudo, de tudo, menos de te guardar.
Sei que encontraste a estabilidade que procuravas. Tudo o que não te soube dar. Sei também, com uma certeza perene, que algo te falta. Que quando te dizes feliz, quando sorris, algo se contorce dentro de ti, incomodado. Sei-o porque também a mim me falta algo. Esse quarto vazio dentro de nós. Um quarto que não pode ser preenchido com filhos, jantares em família, jardinagem ou competições de tiro ao alvo. Porque nesse quarto só cabe uma pessoa. Esse quarto estará sempre vazio, à espera. Será como aqueles quartos perdidos nas casas antigas, que os donos mantêm religiosamente fechados, a ganhar pó, intocáveis, eternamente em suspensão, porque são a única coisa que os liga aquilo que perderam.
Por tudo o que nos aconteceu culpo a minha juventude. Mas mais ainda, culpo a minha ignorância dos preceitos da vida. Hoje penso que a nossa vida em conjunto teria oscilado entre uma interminável competição de dentes e garras ou uma insatisfação que dificilmente saberíamos suportar. Imagina um sistema solar binário em que as duas estrelas, iguais em poder e dimensão, se tocam ao de leve, como se de um beijo se tratasse. Mas aquele abraço cósmico em breve se transformará em catástrofe e para as duas estrelas só existe um fim possível, a destruição. É a lei da natureza. 
Mas no meio de todas estas incertezas, há algo que sei e que, tal como a tua tatuagem, está inscrito em mim. Não consigo viver sem ti! Por tudo isto, serei sempre um bicho solitário, como aqueles animais monogâmicos que acasalam para a vida. É por isso que imagino o dia em que te verei chegar, em que me darás a mão, em que te beijarei primeiro a testa, depois os olhos e for fim a boca. Imagino o dia em que as nossas línguas se tocarão, em que me puxarás para ti e me abraçarás. Imagino o dia em que esconderei o meu rosto no teu peito, em que sentirei o teu cheiro e o teu calor. O dia que te ouvirei dizer, em silêncio, “amo-te”!

3 comentários:

Tu sabes disse...

Olá meu amor...

Quantas coisas bonitas que li... Não vale a pena dizer que vinha aqui TODOS os dias à procura de um pouco de ti qual cão sedento à procura de uma gota de água que cai de um beiral!

Pois está a chegar aquele dia do beijo o dia das bruxas e das fadas qeu nos encantaram. Mas também o nosso dia.

Por muito que o destino no leve para qualquer lugar há sempre um lugar onde nada muda. No coração. Podemos estar em qualquer lado, a fazer seja o que for porque há sempre alguma coisa que nos faz lembrar do que fomos, somos ou até seremos.

Às vezes dou por mim a pensar que estou deitado ao teu lado com as tuas costas encostadas no meu peito e os meus braços a envolverem o teu corpo doce e frágil como que a proteger-te de tudo, a sentir o teu calor e o toque suave do teu peito nas minhas mãos... É verdade... Isso acontece não poucas vezes.

Mas...

Que fazer?

Apenas sonhar e imaginar-te.

Sim...

Estou sempre contigo acredita. Acompanho-te quando me deixas acompanhar-te, como quando andaste a passear em terras de Sua Magestade! A verdade é que os anos por ti não passam e cada dia estás mais bonita!

Tinha muitas saudades de te ler, que bem que me fazes logo pela alvorada quando aqui venho e te leio...

Te volglio benne mi amore!

Montanha Azul disse...

...e tu, meu amor...que bem que me fazes. Que bom ler a tua resposta. Que feliz me deixaste. Vamos sonhando, que quando sonhamos tudo podemos. Cuida de ti, por favor. Amo-te.

Anónimo disse...

Que silêncio gélido ... :-)