quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O homem que não conseguia chorar


Não tenhas pressa...
Tal como outras coisas nesta vida, chorar não tem hora marcada, e um dia chegará a tua vez, forte, sem te aperceberes como nem porquê.
Um dia, talvez, ao ouvires o vento a dançar com as folhas da árvore defronte da tua janela, ao olhares nos olhos azuis, sem fundo, de um recém-nascido. Um dia, no amor, durante aqueles breves segundos de êxtase em que deixas de ser só tu e és tudo: lençóis, ar pesado, estrela cadente ou corpo dilatado até ao infinito. Nesse momento em que já não conseguires reter nada dentro de ti, ai sim, chorarás como uma criança, profundamente e sem sentido. Expelirás, numa longa golfada, mágoa quente, alegria colorida, vingança fria, prazer animal, vitória saborosa, compaixão silenciosa e dor, toda a dor, negra como basalto.
Não tenhas pressa, digo-te eu, que chorar também nos consome e esgota, e é preciso tempo para repor forças e acumular essa seiva viscosa que nos corre pelas veias, como um rio sereno num longo entardecer.
Não tenhas pressa. Um dia a seca acaba e, com um trovão oco, começará a chover nos teus olhos verdes!


Para Miak

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