O dia tinha nascido bonito. O sol iluminava o riacho e a andorinha, do alto do limoeiro, gostava de olhar os peixes a nadar no fundo. Pensou para si que um dia também iria saber fazer aquele bailado sincronizado, mas a voar claro. Via as achigãs verdes a debicar à tona da água, os girinos velozes em acrobacias por entre os juncos submersos, ouvia a cantoria das rãs e ao longe o planar silencioso de um milhafre. Esconde-te rã, esconde-te depressa, pensava a andorinha. Abriu os olhos e lembrou-se que tinha ficado de ir buscar umas raspas de limão para fazer arroz doce para oferecer. O Pintas, gato diferente, gostava de limão e mais ainda de arroz doce com limão. O que é que andaste a fazer durante tanto tempo? Andas sempre com a cabeça na lua! - disse o Pintas. A andorinha, triste daquele azedume mais azedo que o limão, não respondeu. Afastou-se para junto da panela e juntou as raspas de limão ao arroz que já estava doce e ficou ali, enroscada ao lume, a aquecer-se. Sentia um frio estranho. Fechou novamente os olhos e pensou no riacho e no vôo do milhafre. Queria tanto voar assim, planar silenciosa até ao deserto, ou apenas até à floresta do outro lado do riacho onde nunca tinha estado. Sabia que lá já nevava pois via as copas das árvores pontilhadas de um branco igual ao seu peito. Colo de Garça era como lhe chamavam. O Pintas não o sabia. Nem nunca lhe tinha perguntado. A andorinha aproximou-se dele e pediu-lhe para a levar no seu dorso até à floresta. Ela gostava tanto de ver a neve e haviam de ficar bem os dois a passear, ele cor de chocolate de leite e ela negra, com o peito a condizer com aquela imensidão branca.- Achas?! Passas a vida a sonhar e estás sempre a fazer-me perguntas estranhas e inconvenientes. Acho que nem gostas de mim! - disse o Pintas com uma careta.
- Quero conhecer-te! - disse a andorinha.
- Dhaa...- taramelou o Pintas.
- Então eu vou, sozinha, quero arrepiar as asas no fresco da neve.
- Não vais conseguir voar, tens uma asa mordida! - troçou ele.
- Tão certo que consigo, como aquele arroz doce que consegui fazer por ti, mesmo com esta asa mordida. - disse a andorinha segura de si. - Que te aqueça e adoce o coração. - Eu vou. Adeus! - disse ela com um sorriso a nascer no bico.
Abriu as asas e levantou vôo.
1 comentário:
Fiquei uma vez mais deliciado a ler-te.
Obrigado pelos sorrisos. Talvez consiga emprestar-te alguns.
Beijinho.
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