Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas. Subitamente sentiu um pequeno tremor, depois um barulho que mais parecia um trovão a descer sobre a sua cabeça. Encostou-se rapidamente à parede no preciso instante em que um monte de pêlo lhe caiu aos pés com um baque seco. A luz entrou em cascasta cegando tudo. O que quer que fosse que estava ali à sua frente, tinha caído num dos buracos de respiração da sua toca, enchendo o túnel de neve fofa.
Pintas viu-se subitamente mergulhado no seu pior pesadelo - a neve gelada queimava-lhe a ponta do focinho e as patas e ele já não conseguia respirar. Sentiu umas mãos quentes a tactearem-lhe o corpo dormente. Subitamente foi puxado pelos bigodes até ao ar quente do túnel. Inspirou profundamente e tentou adaptar a visão àquela luminosidade. Ao seu lado, meio oculto pela sombra, estava um animal estranho...e, pensou ele, feissímo. Fez um esgar de repulsa - era uma mistura de rato gigante, coelho com dentes XL e marmota com unhas a precisar de manicure. Ele estava paralisado por aquela visão. Moly estendeu-lhe uma pata e disse-lhe num tom caloroso, meio fanhoso "Olá amigo, xê bem vindo".
Isto foi demais para os nervos do Pintas. Sentiu a cabeça a rodopiar ao mesmo tempo que a escuridão lhe invadia os olhos. O seu corpo cor de chocolate de leite caiu, pesado, para trás.
Moly, a toupeira, pensou com um ar desgostoso "Bolas, xerá que está morto?"
9 comentários:
Não somos nada fora do nosso habitat.
Muito bem escrito, parabéns.
Xerá????.....
Venho aqui para algo que não me é nada habitual: comentar com um post (normalmente é ao contrário...)e repetir um comentário em vários blogs, mas hoje justifica-se. Obrigado por tudo.
"Regresso-me no calor dessa escuridão que me revela todo o brilho da memória. Verto um rio de saudade só porque sou fonte de mim. No ritual doce e sangrento das mãos que se procuram. No abraço seguro dos olhares cúmplices. Estrela d' Alva pode ser, sim. Entre o adormecer dos sonhos e a madrugada das marés. Assim, no teu ir-e-vir eterno!
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Teve de ser..."
Bjts e feliz 2009
Sim, a Moly pela sua falta de visão, pensava que era um gato (gosta muito de gatos) mas afinal era um pavão.
O melhor para ti sempre e em 2009 tambem.
Resposta a alguns comentários:
Msg de "Anónimo": Existe no Pintas muito mais do que ele próprio sabe e que dá conhecer... quanto a saber o desfecho desta cena...bem, terás de esperar pelos próximos capítulos :-)
Msg de "Deepfree": Lamento dizer-te mas és tu que não estás a ver bem a situação.
A Moly pode ser cega mas vê mais que o gato (que apenas se guia pelas aparências). Ela, tal como um outro personagem desta história, é fonte de sabedoria e amizade.
Bom ano a todos e um beijinho.
Adorei. De tempos a tempos há um blog com que me perco. Adivinha qual é neste momento?
Bj.
Não vou julgar o pintas, afinal acabou de dar um trambolhao e de cair num buraco escuro junto de um outro bicho que ele nao conhecia...
A molly, parece-me bem destemida, pois apesar de estar na casa dela, no lugar dela, uma invasao por um desconhecido, é sempre de amedrontar, acho...
Mas, e depois? a molly é destemida e o pintas é medroso e talvez pateta.Caracteristicas tao comuns... É preciso saber mais de um de outro para os julgarmos.
Sendo assim, eu vou ficar atenta à continuaçao da historia.
:-)
Um beijinho!!
lembrou-me uma outra versão do covil de kafka.
beijitus
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