
Passaram-se alguns dias, muitos dias talvez. Demasiados, para quem sentia o coração impaciente, a borbulhar como um caldo num caldeirão, latente, pronto a explodir a qualquer pequeno rastilho. Insaciável. Mas ali estava-se bem e aquele lugar sombrio e quente transmitia-lhe calma. Moly arrancara-o do torpor quando ele estava prestes a deixar-se afogar naquele mar de neve. Deixara-o ficar ali, na sua toca, até se recuperar. Pintas dormitava quase todo o dia enrolado sobre si mesmo, num amontoado de penas e feno que ela tinha arranjado. No seu sono via-se muitas vezes a contar as penas, a analisar cada cor e cada filamento, a sentir o seu cheiro, tentando encontrar alguma que lhe fosse familiar. Por vezes os seus sonhos transformavam-se em pesadelos e ele só via asas e garras e água, e acordava sem conseguir respirar. Nessas alturas, Moly encostava-se a ele para o acalmar, murmurando canções que falavam do seu mundo de grutas majestosas, de túneis infinitos e lagos de água negra cheios de pedras brilhantes como o sol, e ele voltava a adormecer tranquilo e perdido nesse mundo sombrio e mágico. Durante esses dias desenvolvera também uma estranha obsessão - dava por si constantemente a lamber-se. Lambia cuidadosamente cada centímetro do seu pêlo. Lambia furiosamente. Lambia como que a tentar limpar todas as memórias que lá viviam, enterradas no seu pêlo quente. Lambia como que a tentar encontrar uma réstia dos cheiros perdidos - do arroz-doce, dos juncos junto ao ribeiro, do limão, da areia do deserto...do peito dela. Depois parava, quase que de imediato, enquanto um pensamento lhe varria o coração. Sabia que nunca mais iria encontrar a sua Andorinha. Provavelmente não. Talvez se o mundo fosse mais pequeno, do tamanho de um bosque. E no entanto, quando pensava no pequeno coração dela, tão pequeno como um caroço de cereja, lembrava-se que muitas vezes também se perdia dentro dele.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.
2 comentários:
estou a gostar, a continuaçao da historia...
:-)
Tambem gosto muito da tua escrita e adorei a música, que nao conhecia!
um beijo!
Bem... vais-me obrigar a ler o livro, mas depois quero uma dedicatória! :)
Bjs
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