
O som parecia mais um rosnar que um miado. Os olhos brilhavam amarelos na escuridão, lançando raios invisíveis de tensão e maldade. Cheirou o ar. Algo agradável lhe despertou a atenção e ele lambeu demoradamente o focinho para apanhar todo aquele aroma que lhe fez crescer água na boca. Decidiu-se por um arbusto alto que crescia junto à escarpa. Sentou-se e começou a alisar vaidosamente o seu pêlo negro. A espera não seria longa.
A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.
Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.
A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.
Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.
Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.
A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.
Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
Enquanto tentava esvoaçar, a andorinha desviou o olhar para a massa escura que caia na água. Não era um gato, eram dois. O reconhecimento chegou-lhe tarde - já não conseguiu ver a lágrima que nascia daqueles olhos cor de âmbar que agora se afastavam para o azul profundo. Quando a andorinha atingiu a beira da escarpa ainda tremia. Deixou cair o corpo para o lado exausta. Fechou os olhos. Talvez assim pudesse reter a lembrança daquele olhar e daquele pêlo cor de chocolate de leite. Sentiu o ar encher-se de cheiro a leite morno, anestesiando-lhe os sentidos. A andorinha fechou os olhos para não mais os abrir. A lembrança do Pintas não voltaria a fugir-lhe, afogar-se-ia dentro dela.
A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.
Epílogo
A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.
Epílogo
Flood mergulhou velozmente seguindo o cheiro. Com a destreza de um falcão e a força de uma águia travou o corpo ao atingir a espuma revolta, enquanto as garras se fechavam sobre o lombo castanho ensopado.
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.
Fim
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.
Fim
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