sexta-feira, 10 de outubro de 2014

The Unnatural Life



Acordo na madrugada ainda sombria. Sento-me na beira da cama e dispo os sonhos que depois deixo espalhados sobre os lençóis. Visto a minha roupa de viver, que não é  mais que uma máscara que coloco todos os dias para não pensar em ti.
Todos os dias.
Procuro mentalizar-me que a vida que tenho é boa e que devo aceitá-la sem reservas. Que ser feliz talvez seja adaptarmo-nos, viver um dia de cada vez, sermos bons cidadãos e partilhar o espaço e o tempo com aqueles que nos querem bem e pronto. Contrariamente ao que parece,  viver assim não é difícil, viver assim é acomodarmo-nos ao conforto dos clichés da nossa sociedade. O difícil é contrariar tudo isto.
Assim, deixo-me iludir confortavelmente com esta ideia de felicidade durante dois ou três dias, até que algo dentro de mim começa a contorcer-se e a espicaçar lentamente cada célula do meu corpo. Um dia aqui (um punho que teima em manter-se cerrado), outro dia ali (a sensação súbita de não conseguir respirar). Como se o meu corpo teimasse em não funcionar corretamente por falta de um qualquer órgão essencial. Como se houvesse um vazio inexplicável que não pudesse ser preenchido. E esse vazio existe, essa melancolia e tristeza existem. Os outros percebem-no, mas escolhem chamar-lhe “natural”. A vida prossegue. Convenientemente para todos.
Uma vida não natural.
Na verdade, engano-me conscientemente todos os dias.
Como pode ser natural uma vida que reprime aquilo que ocupa permanentemente o meu corpo e a minha alma?



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