sábado, 12 de julho de 2008

A liberdade das tuas palavras que me aprisionava

Fez por estes meses, Junho se bem me lembro, 3 anos que morreste...

Conheci-te tinha 16 anos mal feitos, numa altura de grandes revoluções, soluços ou sobressaltos na minha vida, não sei bem como lhes chamar, mas foram sem dúvida grandes e importantes.


Ainda me lembro, era também uma tarde quente de verão e eu ia sentada no barco que atravessa ao tejo manso.
Desfolhei-te... e fiquei presa para sempre, como um rio ao seu leito, mas instável como as suas margens.

Descobri dentro dos teus poemas a mesma inquietude e inconformismo, o amor ainda encantado e até o cansaço que eu já sentia. Talvez, como tu, procurasse encontrar a paz que só as folhas dos livros me davam.
Cada poema ou cada conto era um mundo onde me refugiava, e por um instante mágico era princesa, ou árvore, ou Che Guevara, e livre para viver os meus sonhos.

A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em tio rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

(Eugénio de Andrade - Agosto 1978)

5 comentários:

Anonymous disse...

Montanha Azul, depois de ler estas tuas ultimas palavras decidi deixar mais um comentário, embora ache que é uma coisa muito pessoal, vou deixar a minha impressão.
Senti ao ler estas palavras que os teus pensamentos vagueiam num mar de esperança, numa saudade perdida algures no tempo que não conseguiste recuperar de todo. Depois de muita vida passada decidis-te dar um encontrão e baralhar tudo como se fosse mais um virar de pagina, se de um livro se trata-se. O passado não se apaga por mais que tentemos, talvez consigamos corregi-lo de alguma forma...
Sê feliz à tua maneira...Desculpa qualquer coisinha.
Falcaodonorte

just me, an ordinary girl disse...

Dizer o quê?
As vezes, não sei.
Mesmo assim escrevo, para te deixar um beijinho.

Montanha Azul disse...

Sim, eu baralho e dou de novo, uma e outra vez, as vezes que a minha vida não fizer sentido.
Sim, o passado não se apaga...mas eu não irei morrer agarrada ele!

PS: agora quase tocaste lá, onde ainda dói, deste-me um abanão... :-)

NAHS disse...

Morreu hoje 13.06.2005, às 03h30, na Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, de doença prolongada. José Fontinhas, que escrevia sob o pseudónimo de Eugénio de Andrade, tinha 82 anos.

Eugénio de Andrade nasceu na Póvoa da Atalaia, em 1923, e vivia no Porto, onde criou a Fundação com o seu nome, desde 1950. É um dos poetas mais reconhecidos e premiados da literatura portuguesa contemporânea e a sua obra está traduzida para alemão, asturiano, castelhano, catalão, chinês, francês, italiano, inglês, jugoslavo e russo.

Um beijo

Montanha Azul disse...

:-)
Eugénio de Andrade - o meu poeta preferido!