quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Primeiramente

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"Night has brought to those who sleep, only dreams they can not keep."
(Enya - Paint the sky with stars)
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Acordo sem o contorno do teu rosto na
minha almofada, sem o teu peito liso e claro
como um dia de vento, e começo a erguer a
madrugada apenas com as duas mãos que
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os
meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela
te procuro, encostado ao teu nome, pelas
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão
aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor duma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca -
e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos
pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e
perguntar o que aconteceu.


(Eugénio de Andrade)

2 comentários:

Rui Vinho disse...

O grande Eugénio!

Deixou saudades...

just me, an ordinary girl disse...

nao conhecia este poema, é lindo!

Um beijo.