sexta-feira, 24 de outubro de 2008

(1) A andorinha que sabia a leite morno



Era uma vez uma pequena andorinha de olhos verdes, peito branco como a manhã e asas cor de carvão.
Ela gostava de ouvir os seus amigos contarem histórias das suas viagens pelo mundo. Um mundo repleto de outros seres alados, gigantes que reluziam ao sol, um mundo onde o ar tinha um sabor diferente, um mundo de terras cobertas por areia amarela muito fina que se entranhava entre as penas, um mundo de um verde tão infinito que tinham de voar durante meio dia para o atravessar. A pequena andorinha ouvia e sonhava. Ouvia e esperava a sua vez de abrir as asas e poder partir também à aventura. Mas havia um medo que a consumia - um dia um gato mordera-lhe a asa e desde então ganhara uma desconfiança para com aqueles seres de quatro patas e uma inabilidade para levantar vôo.
O Pintas chegou num quente dia de Setembro. Lampeiro, gingão, olhos cor de âmbar e sorriso difícil. O Pintas era um gato, como o nome indica, com pintas. Duas apenas, abaixo do queixo, brancas como a manhã e um pelo sedoso cor de chocolate de leite. A andorinha, que até gostava de chocolate, olhou desconfiada para aquele gato. Mas algo nele lhe lembrou o mundo do verde e da areia. Algo nele cheirava a mar e a erva cortada e a fazia voar. O Pintas, que andava sempre de olho nas árvores à procura de um petisco, viu a andorinha a espreitar por detrás de um ramo de limoeiro. Olhou com desdém. Mas algo naquela andorinha lhe lembrou o sabor do leite morno, do cheiro da erva-gateira onde ele gostava de se roçar. Algo nela lhe aquecia o pelo como um banho de sol ao início da tarde. Ele sorriu. E ela, por um breve instante, não sentiu medo.
Não tardaram a meter conversa. Ela sempre no limoreiro. Ele deitado na relva a olhá-la. Falavam dos sonhos ou dos desejos que há muito tempo tinham presos na garganta e na alma. Mas o preconceito também vive entre os animais, entre os gatos, por exemplo, pois deles se diz que são a criação mais perfeita de Deus. Toda a gente sabe isso, e o Pintas sabia-o. Ele, que nunca tinha conhecido uma andorinha de asa mordida por um gato, cortejava-a desajeitadamente - passava a vida a dizer-lhe que ela tinha uma asa torta. A andorinha, doída na asa e agora doída no coração, do alto do limoeiro e do seu orgulho, pensava com quantas forças tinha, que nunca se apaixonaria por aquele gato... mas já era tarde demais.

1 comentário:

miak disse...

Uau rapariga. Desta vez ultrapassaste-te. Está demais.