quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(3) Flood, o corvo branco


Abriu uma asa e depois outra. Assim exposto à luz do dia confundia-se com o horizonte e com as copas das árvores brancas. Flood era diferente. Vivia sozinho no galho mais alto do pinheiro mais alto do bosque para lá do riacho. Ele gostava de erguer a cabeça para o céu e imaginar as formas que as nuvens criavam ao brincar com o vento. Depois fechava os olhos e deixava a brisa fria do outono sacudir-lhe as penas brancas.
Flood tinha o nome do riacho depois das chuvas, quando as águas transbordavam e arrastavam tudo. Flood também transbordava, de emoção, enquanto sonhava com as cores que não conhecia e com os cheiros por descobrir. Como um corvo criança, gostava de rodopiar no ar em grandes acrobacias, fazendo sorrir todos os animais do bosque, cheirando o ar, as cascas dos pinheiros, a neve fria. Ele cheirava tudo, desde as carcaças de que se alimentava, ao canto dos outros pássaros, e de cada vez descobria uma tonalidade diferente, um brilho interior, um novo contorno. Às vezes, com o seu apurado olfacto, descobria também uma ou outra doença nos animais que o consultavam. Era o médico do bosque.
Ao despertar, quando os primeiros raios obliquos da madrugada serpenteavam por entre os ramos, tudo lhe parecia novo e cheio de vitalidade. Flood não tinha medo, era um corvo destemido, forte como a corrente do riacho e livre como as suas margens. Olhava cada dia com todos os sentidos apurados, cada centelha de energia abria-lhe um novo caminho, uma nova visão. Ele amava a vida.
A andorinha chegou finalmente ao bosque nevado. Estava cansada mas feliz. Decidiu arriscar-se pelo pinheiro mais alto que encontrou - de lá conseguiria ver bem todo o horizonte e seria um bom sitio para se abrigar do frio e dos prepadores. Ao pousar no ramo mais alto sentiu que alguém a observava. Olhou em redor e só viu branco. Uma sombra agitou os galhos. A andorinha fixou o olhar e viu um grande corvo que se confundia com o céu. Susteve a respiração e fechou os olhos. Ele aproximou-se, encostou o bico ao corpo frágil dela e deixou-se ali ficar por um instante a absorver o cheiro das suas penas. Ela cheirava a arroz doce com raspa de limão, cheirava a areia quente e ao mesmo tempo a neve fresca. Lembrava-lhe o odor do riacho com salpicos de juncos. A andorinha ganhou coragem e abriu os olhos. O que viu deixou-a sem pio - a olhá-la estavam dois grandes olhos cor da cinza, da cinza de todas as fogueiras do mundo e sorriam para ela. Flood era cego.

2 comentários:

zeladorpublico disse...

Cego mas via mais do que outros com visão perfeita..também os há nos humanos

Luís Mendes disse...

Bela narrativa.

Gostei.

Cumprimentos.