segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pigmaleão


06h00:Hoje acordei com o despertador. Olhei para as horas fluorescentes no escuro do quarto e perguntei-me que dia da semana seria. Depois lembrei-me do que acabara de sonhar - que tinha ido caminhar para Gredos com o meu irmão. Com o meu irmão??... que não dá dois passos sem ser de carro. Mas lá estávamos os dois, no meio daquela cordilheira de montanhas a formar um anfiteatro.
(Deixo-me ficar mais um bocado de bruços na cama, a cara enterrada na almofada, a apreciar a paisagem já fria de Novembro em Espanha. Como um filme)
Será que já neva por lá? Bateu-me uma vontade tão grande de me por ao caminho...06h17:E foi assim que me levantei e me lembrei de uma canção: "The rain in Spain...". E com essa recordação veio outra - a de uma personagem na história do teatro que sempre me fascinou - Eliza Doolittle. A adaptação musicada ao cinema desta peça, na figura de Audrey Hepburn e da canção é, ainda hoje, uma deliciosa recordação de infância. E, no entanto, esta recordação foi-se alterando com o tempo, na sua essência, no significado da história.
(Olho-me ao espelho. A rebeldia que me sai pelos cabelos e que nem a água lava. Como um grito)
Eliza era uma jovem florista de um bairro pobre, que se vê metida no meio de uma aposta de amigos. Henry Higgins aposta que a consegue fazer passar por uma mulher refinada da alta sociedade, ensinando-a a falar e a vestir correctamente e treinando-a na arte da etiqueta. Mas por mais que Eliza mude, nunca atinge os padrões de perfeição impostos por Henry, acabando por se tornar quase irreconhecível a ela própria. A flor mulher vai definhando pela opressão. Apesar de crescer entre eles uma afeição profunda, Eliza acaba por rejeitar Henry e a sua maneira dominadora e misógena de a tratar.


06h29:
No fim, Eliza percebe que já não pertence a nenhum dos dois mundos que conhece - os ricos não a aceitam como uma deles e ao mesmo tempo não pode regressar ao mundo que deixou para trás.
(Debico o pão com manteiga, de pé junto à bancada, enquanto penso no que dirás quando me vires hoje. Como um desejo)
Esta história que começa com o ideal de Gata Borralheira acaba, de certa forma, a recriar o mito Frankenstein.

4 comentários:

Pedro Branco disse...

Não sei por onde viagei mais: se pelas palavras se pela música!

Obrigado pela visita.

miak disse...

Cada vez me "perco" com mais prazer neste "balanço" com que escreves.

Pedro disse...

todas as mudanças transformam mais
quanto menos se percebe
que mudanças levam ao longe mais

zeladorpublico disse...

tantos que ai vagueiam e não sabem a que mundo pertencem...conheço alguns