
A Sra. e o Sr. X viviam bem, não sei se felizes, mas bem. Acomodados na sua vida habitual, tranquila e pacifica. No entanto, dentro da Sra. X algo crescia. Desenvolvia-se dia a dia, alastrava do coração à ponta dos pés, do coração à cabeça. Saia muitas vezes pelos poros e ela não entendia o que era. Lavava compulsivamente o corpo para sacudir aquilo, como transpiração. Ganhava forma nos cabelos, que ela desesperadamente tentava alinhar. Na verdade aquilo não crescia. Na verdade aquilo sempre tinha estado dentro dela, desde a primeira vez que abrira os olhos ao mundo, desde a primeira inspiração. Uma máquina de matar corações. Latente. Sem o saber, a Sra. X mantivera-o trancado, como um ser ignóbil. Mas aquilo não se detinha. Circulava dentro de si como um fantasma, como uma corrente de impulsos eléctricos no seu cérebro, num bailado sincronizado, hipnótico. Aquilo crescia, agora. Já nada o detinha.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.
6 comentários:
A vida sem ele... não é vida.
interessante este conto uma boa reflexão
interessante enredo
Saudações amigas
Olá Montanha!
Tenho imenso prazer em te ter encontrado e lido. O texto é excelente - tem aquilo. Portanto, Montanha, tudo Azul. Bué da fixe, como dizem os meus netos.
Entrado este 2009 de má cara, chego ao teu blogue com os desejos de que, apesar de tudo, os 365 dias que já começaram a correr sejam os melhores possíveis.
Como gostei do que aqui encontrei (e sou sincero, sem motivo para dúvidas…) continuarei a visitar-te, dentro, claro, das minhas possibilidades - que não são muitas. Apenas - o que se pode arranjar. De qualquer forma, tenho todo o prazer em te dizer que podes contar comigo. Para mim a Amizade é do melhor que este desgraçado Mundo (ainda) tem.
Alem disso, apesar de ser já um vetusto ancião (a caminho dos 69, para já. Depois, verei…) adoro a ironia. Apesar de reformado – ai a pdi – sou e serei sempre jornalista. E, desde Abril do ano que passou, dizem que também sou escritor. Coisas.
Por isso, sigo-te e espero que faças o mesmo comigo. Muito obrigado
Qjs
PS (embora seja, aqui é só Post Scriptum…) – O meu imeile ou imilio (“preciosas “ criações minhas, hahahahahaha) é o:
hantferreira@gmail.com
«««««»»»»
Este é um texto standard para poder chegar a todos os Amigos. Peço que o aceites assim sff.
Inspirado e bem escrito!, és uma surpresa!!!!!~
Parabéns e um beijo!
Gostei da imagem da transpiração.
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